Dragon Quest 7 sempre foi um jogo difícil de recomendar, mesmo para fãs de RPG japonês. Lançado originalmente como Fragments of the Forgotten Past, ele construiu sua reputação sobre dois pilares igualmente fortes: ambição e exaustão.
Era enorme, denso, lento para engrenar e pouco disposto a explicar seus próprios sistemas. Ainda assim, para quem insistia, entregava uma das jornadas mais ricas da série.
Dragon Quest 7 Reimagined nasce exatamente desse ponto. Ele não tenta apagar o passado nem simplificar demais uma estrutura que sempre foi deliberadamente extensa. O objetivo aqui é outro: reorganizar, esclarecer e modernizar um jogo que sempre teve qualidade, mas que exigia mais paciência do que muitos jogadores estavam dispostos a oferecer.

Após concluir a versão completa, fica claro que esta não é apenas a edição mais bonita ou confortável de Dragon Quest 7. É a versão que finalmente entende como apresentar esse jogo ao público atual.
Uma jornada longa, agora melhor conduzida
Sem entrar em spoilers, a história continua baseada na descoberta gradual de ilhas por meio das tábuas, estrutura que define a identidade do sétimo capítulo. A diferença está na forma como essa progressão acontece.
No original, e até mesmo no remake de 3DS, o início era excessivamente lento e confuso. Não era incomum passar horas sem combates relevantes ou sem entender claramente o objetivo da jornada.

Em Reimagined, a narrativa se torna mais linear e objetiva, especialmente no começo. O jogo ainda exige atenção e muita leitura, mas agora fornece informações no momento certo. Os eventos iniciais se encadeiam melhor, os personagens ganham função narrativa mais clara e o jogador entende mais rápido o que está em jogo.
Isso não torna a história simples; ela continua fragmentada, melancólica e, em alguns momentos, surpreendentemente sombria, com arcos de traição, maldições, morte, obliteração, domínio das trevas e mais. A diferença é que agora ela flui.

Essa reorganização tem impacto direto no ritmo de Dragon Quest 7 Reimagined. A campanha principal leva cerca de 65 horas, número que permanece alto, mas muito mais bem distribuído. O jogo raramente dá a sensação de estagnação que marcou as versões anteriores.
Conteúdo de endgame e progressão de longo prazo
Para quem vai além da história principal, Dragon Quest 7 Reimagined se expande consideravelmente. O jogo oferece conteúdos de endgame relevantes, com desafios e batalhas mais exigentes. Um dos destaques é a arena de batalha, que permite enfrentar monstros Rampaged: muito mais parrudos e reciclando algumas das principais lutas do jogo.
Essa segunda parte da arena garante recompensas únicas, mas te pede para chegar lá forte. Não é fácil vencer grupos de inimigos ou chefes reforçados com nível abaixo do 90 e com armas de mid game, então explore bem e aumente o nível das vocações para destravar as melhores habilidades e equipamentos.

Completar tudo exige perto de 100 horas, mas o processo é surpreendentemente amigável. Não há troféus perdíveis, nem qualquer exigência de New Game Plus. Tudo pode ser feito em uma única campanha, no ritmo do jogador.
Dificuldade ajustável e personalização real
Outro avanço importante está nos modos de dificuldade. Além de opções pré-definidas, o jogo permite personalizar parâmetros, como dano causado pelos inimigos, inércia nos campos de exploração aberta e outros ajustes.
Quem quer uma jornada mais relaxada consegue reduzir a pressão sem comprometer a progressão. Isso porque, mesmo ganhando mais XP e proficiência para as vocações, algumas batalhas permanecem complicadas, principalmente as do terço final da campanha.

Vocação, builds e liberdade
O sistema de vocações continua sendo o principal fundamento de Dragon Quest 7 Reimagined. A quantidade de opções de build é enorme, e o jogo incentiva constantemente a experimentação, agora com uma mecânica onde você consegue alternar atributos, habilidades e especiais a qualquer momento da campanha.
Uma mudança importante está na vocação de monstros. No clássico, esse sistema era pouco intuitivo e excessivamente restritivo, obrigando você a upá-los para tirar o melhor durante as batalhas. Já em Reimagined, ele se torna muito mais acessível.

Agora, basta coletar o coração de determinados monstros, seja por meio de baús e coletáveis do mundo aberto ou por meio de batalhas contra inimigos berserker, para desbloquear essas classes. Assim, os personagens conseguem equipar até duas vocações naturais e até dois corações de criaturas.
O arsenal também cresce significativamente. Há mais armas, equipamentos e itens, com retornos lendários de alguns dos mais populares da franquia. E como os visuais do remake foram melhorados, o design de armas está absurdo, com espadas, chicotes, cajados, machados, leques e mais sendo impressionantemente atraentes nas lutas.

Sistema de tábuas e mapa finalmente claros
O sistema de tábuas, talvez o elemento mais controverso do jogo original, recebeu ajustes fundamentais. Ele agora é mais fácil de entender, com explicações mais claras e uma interface menos confusa. A lógica por trás dos fragmentos se torna evidente desde cedo, ainda mais porque um personagem dá pistas de onde eles se encontram.
O mapa também evoluiu bastante. Existem indicativos discretos de colecionáveis, o suficiente para orientar sem eliminar o senso de descoberta. O jogo ainda exige observação e possui alguns puzzles desafiadores, principalmente por não estar localizado em português do Brasil, mas evita aquela sensação constante de caminhar sem direção que marcou versões anteriores.

Tudo isso ganha força em Dragon Quest 7 Reimagined por meio de um sistema eficiente de viagem rápida e que consegue aproveitar muito bem os recursos do PlayStation 5. Ele é muito fluido e ocorre quase instantaneamente após selecionar um ponto de interesse no grande mapa.
Combate mais ágil, menos burocrático
No campo das mecânicas, Reimagined adota soluções modernas com inteligência. O sistema de batalha automática acelera encontros desinteressantes e mal recompensadores, algo essencial em um RPG tão longo.
Contra minions e monstros de níveis menores, esse recurso é muito funcional, principalmente porque a máquina consegue entender bem os pontos fracos das criaturas. Porém, contar com isso direto pode ser sentença de morte: algumas lutas são muito difíceis e longas, e exigem que você tome ações manualmente.

Outra novidade diz respeito a uma opção de equipar automaticamente armas e armadura. Pelo menu principal, basta apertar “Options” depois de selecionar um personagem. Assim, você não precisa sair catando os melhores itens e ter trabalho extra; mas vale lembrar que tudo pode ser feito manualmente.
Apresentação visual e expressividade inédita
Visualmente, o salto é evidente. As expressões faciais foram profundamente aprimoradas, com os traços criados pelo lendário Akira Toriyama ficando ainda mais evidentes. Personagens agora reagem de forma clara aos acontecimentos, seja por meio das lindas CGIs ou das animações simples com materiais pré-determinados.
Enquanto isso, a interface, no geral, é limpa, rápida e funcional. Menus respondem bem, informações são claras e o jogo raramente exige que o jogador lute contra seus próprios sistemas.

Dragon Quest 7 Reimagined também conta com muitas opções que te permitem ver o progresso. Há como saber quais e quantas armas foram encontradas, onde estão as mini medalhas, quais monstros foram derrotados e o que eles oferecem de recompensa, quantas batalhas foram vencidas, seu tempo de campanha e muito, mas muito mais.
Um clássico que finalmente se apresenta bem
Dragon Quest 7 Reimagined não tenta esconder o que é. Ele continua sendo um RPG longo, deliberado e exigente. A diferença é que agora essa exigência vem das escolhas, dos sistemas e da estratégia, não de falhas de comunicação ou de limitações no design.
A história segue profunda e fragmentada, com algumas missões secundárias e várias atividades, seja por meio de minigames ou interações. já o combate permanece clássico e metódico, mas se enriquece bastante pelo impacto e pelas opções de acessibilidade.

De fato, temos a versão definitiva de um jogo que sempre teve qualidade, mas nem sempre soube se explicar. Com narrativa mais clara, sistemas reorganizados, enorme liberdade de builds, endgame consistente e melhorias técnicas visíveis, este remake respeita o legado de Fragments of the Forgotten Past sem repetir seus erros.
Não é um RPG para quem busca experiências rápidas. É uma jornada longa e pensada para quem aprecia bons graus de progressão, sistemas profundos e recompensas de longo prazo. E, finalmente, é um Dragon Quest 7 que se sente tão bom de jogar quanto sempre foi de lembrar.
Dragon Quest 7 Reimagined chega em 5 de fevereiro ao PS5, Xbox Series, Nintendo Switch e PC.
Versão definitiva do clássico dos anos 2000, Dragon Quest 7 Reimagined convida todos os tipos de jogadores, sendo fãs de JRPGs ou não, a uma aventura visualmente incrível, acessível e com uma tonelada de conteúdos originais e inéditos.
Pontos positivos
- Mudanças no fluxo narrativo deixam a história mais coesa
- Novos monstros, armas, equipamentos, acessórios e histórias
- Visuais incríveis
- Recursos de acessibilidade deixam jogo mais convidativo
- Uma tonelada de conteúdos
- Design caprichado de personagens e de itens
- Excelente trilha sonora
Pontos negativos
- Sem localização em português do Brasil
- Backtracking pode ser considerado abusivo
- Campanha longa pode afastar muita gente
- Narrativa
- Jogabilidade
- Desempenho
- Visuais
- Som
- Diversão