A separação da Tarsier Studios da IP Little Nightmares foi um choque legítimo para quem acompanhava o estúdio desde o primeiro título. Quando a parceria com a Bandai Namco terminou, muitos fãs interpretaram aquilo como o fim definitivo daquele tipo de terror peculiar que a Tarsier havia ajudado a consolidar.
Depois do excelente Little Nightmares 2, parecia difícil imaginar algo novo com a mesma identidade. Durante anos, a comunidade viveu entre especulação e silêncio, mantendo viva a memória da franquia quase como um ato de resistência.
Foi nesse cenário que, na segunda metade de 2024, Reanimal surgiu. À primeira vista, ele parecia um sucessor espiritual óbvio. No entanto, bastaram poucos materiais promocionais para perceber que a proposta não era simplesmente repetir uma fórmula. Embora as semelhanças visuais fossem inevitáveis, a abordagem narrativa e o tom deixavam claro que havia algo diferente ali.

Enquanto Little Nightmares trabalhava o desconforto com certa sutileza, Reanimal opta por um terror mais cru. Ainda assim, ele não abandona o estranhamento psicológico que sempre marcou a Tarsier.
Pelo contrário, aprofunda essa sensação. O resultado lembra a atmosfera fria e desconcertante de filmes de Yorgos Lanthimos, nos quais o incômodo surge menos pelo que é explicado e mais pelo que nunca é totalmente compreendido.
Perdidos em um mundo abandonado
Na prática, essa identidade aparece logo nos primeiros minutos. Você controla um garoto à deriva em um mundo dominado pela escuridão. Em determinado momento, ele encontra uma garota naufragada, aparentemente sem memória e sem forças.
A partir desse encontro, os dois seguem juntos. No entanto, o ambiente ao redor não oferece qualquer sensação de segurança. Humanos parecem ter sido substituídos por criaturas deformadas, e cada cenário sugere que algo pode acontecer a qualquer instante.

A campanha de Reanimal dura cerca de quatro horas. É breve, sem dúvida, mas essa duração parece intencional. Como a proposta se apoia fortemente na atmosfera, prolongar demais a experiência poderia diluir o impacto. Mas de toda forma, não estamos minimizando esse ponto negativo.
Além disso, o foco está na cooperação constante entre os protagonistas. Para avançar, é preciso trabalhar em conjunto: um ajuda o outro a alcançar saliências, atravessar abismos ou resolver pequenos quebra-cabeças ambientais. Enquanto isso, os comandos são simples (pular, correr, agachar e interagir) e justamente por isso funcionam bem, assim como ocorria em Little Nightmares.

Aliás, o ambiente é o grande protagonista de Reanimal. Embora o design mantenha um minimalismo evidente, há profundidade em cada área. Regiões abertas podem ser exploradas com um barco, o que reforça a sensação de isolamento, enquanto espaços internos convidam o jogador a observar os detalhes com muita calma.
Enquanto isso, iluminação, as sombras e a neblina trabalham juntas para criar uma sensação de medo nunca vista antes nesse estilo de jogo. E muitas vezes, nada acontece de fato, mas ainda assim, o silêncio parece devastador.
Combata, interaja, sobreviva
Quando a ação surge em Reanimal, ela contrasta bastante com esses momentos de quietude. Há sequências de perseguição intensas, trechos de stealth e confrontos pontuais.
Diferentemente do que se poderia imaginar, os protagonistas não estão totalmente indefesos: eles utilizam ferramentas como faca, alicate, pé de cabra, lanças e até um rifle. Esses itens não servem apenas para combate; também são essenciais para acessar novas áreas e descobrir segredos.

As batalhas contra chefes também merecem destaque. Embora sigam uma estrutura relativamente clara e, em alguns casos, scriptada, elas impressionam pela forma como interagem com o cenário. Estruturas desmoronam, criaturas surgem inesperadamente e o espaço ao redor reage às ações do jogador. E fique tranquilo, pois nem de longe parece uma cutscene disfarçada.
O terror também se manifesta de maneira mais explícita do que nos jogos anteriores do estúdio. Existem momentos que exploram medos profundos, inclusive situações que podem incomodar quem tem fobia de profundidade ou de grandes estruturas. Ainda assim, a violência nunca é gratuita em Reanimal, e faz parte de um universo que parece desmoronar por dentro.
Recursos técnicos e suporte multiplayer
No campo sonoro, o cuidado da Tarsier é evidente. Rangidos, passos e ruídos ambientais ajudam a construir o medo mesmo quando a trilha musical está ausente. E, quando a música entra, ela se destaca por ser essencialmente atmosférica. Além disso, a dublagem está totalmente localizada em português do Brasil, o que fortalece essa imersão e aproxima ainda mais o jogador da narrativa.
Outro ponto positivo é o suporte ao multiplayer cooperativo. Diferentemente de outros títulos que tratam o coop como complemento, aqui ele funciona como parte natural do jogo; e até mesmo essencial. É possível jogar localmente ou online, criar salas e convidar amigos de forma simples. Embora pequenos bugs apareçam ocasionalmente, a experiência geral é bem estável.

Tecnicamente, o desempenho de Reanimal também surpreende. Mesmo em cenas visualmente absurdas, não há quedas perceptíveis de performance. O jogo oferece modos de qualidade e desempenho, permitindo escolher entre resolução maior ou taxa de quadros mais fluida. Ambas as opções funcionam bem, e a escolha depende mais da preferência pessoal do que de limitações.
Reanimal é o recomeço que todos esperavam
No fim das contas, Reanimal representa um novo começo para a Tarsier. Ele carrega traços claros do passado, mas não se limita a imitá-lo. Embora a campanha seja curta e haja alguns pequenos problemas técnicos, a experiência como um todo é consistente.
Para quem sentiu falta do tipo de terror que Little Nightmares proporcionava, esse novo projeto surge como uma resposta direta. Não é uma continuação nem tenta ser, no entanto, ele prova que o estúdio continua dominando a arte de transformar o desconforto em algo memorável, segundo uma zona que conhece muito bem.
Retorno da Tarsier de um longo hiato após Little Nightmares 2 é mais do que o esperado: Reanimal é uma aventura de horror ambiciosa e perturbadora que leva a criatividade do estúdio ao limite.
Pontos positivos
- Visuais minimalistas absurdos
- Cenas de perseguição caprichadas e muito bem feitas
- Ótima dublagem em português do Brasil
- Suporte estável ao multijogador online/local
- Bom incentivo à exploração
- Excelente trilha sonora atmosférica
- Design das criaturas é bizarro e desconfortável
Pontos negativos
- Instabilidades de conexão
- Curtíssimo tempo de campanha
- História
- Desempenho
- Gráficos
- Som
- Diversão
- Jogabilidade