High on Life foi um caso raro em 2022. Ele não era um blockbuster tradicional e não carregava o peso de uma grande franquia, mas conseguiu se destacar porque entregava duas coisas que quase raramente aparecem juntas: um FPS competente e uma comédia que realmente funcionava.
No caso do título da Squanch Games, o humor ácido não servia apenas para esconder falhas estruturais. Pelo contrário, ele caminhava lado a lado com uma experiência sólida de jogo.
Muito além do “DNA Rick and Morty”, o primeiro título da série tinha identidade, e as armas falantes eram apenas a ponta do iceberg. Cada mapa, diálogo e fase funcionavam como palco para piadas inesperadas, provocações e comentários absurdos, tornando tudo quase um stand-up alienígena jogável e cheio de referências à cultura norte-americana.

Ainda assim, quem terminou o jogo percebeu limitações. A movimentação era simples demais, as seções de plataforma nem sempre acompanhavam o ritmo do resto da experiência e algumas lutas se arrastavam além do necessário. O impacto dos tiros, em certos momentos, também parecia leve demais.
E havia outro fator inevitável: humor é subjetivo. Para alguns, o jogo era hilário. Para outros, o excesso de falas e a falta de silêncio podiam cansar. Mesmo assim, ele deixou sua marca.

Por isso, quando High on Life 2 foi anunciado, a empolgação veio acompanhada de desconfianças. Sequências de comédia são perigosas, e se repetem demais, ficam previsíveis; se mudam demais, perdem identidade. Felizmente, a Squanch Games entendeu exatamente onde precisava mexer.
Cerca de 5 anos depois…
A história de High on Life 2 continua a partir do primeiro título. Após derrotar o cartel G3, o protagonista se envolve em uma nova conspiração: uma corporação farmacêutica começa a capturar humanos para experimentos com alcance global.
Essa premissa coloca nosso herói em uma jornada ainda mais explosiva e imprevisível, onde velhos amigos e novos aliados se juntam para salvar o universo de uma ameaça que pode culminar com a extinção definitiva de uma raça.

High on Life 2 mantém o absurdo, mas agora serve como base para uma estrutura mais ambiciosa. Porém, a mudança mais significativa não está no roteiro: está na jogabilidade.
Em vez da movimentação tradicional de FPS, o personagem agora anda de skate. Sim, literalmente. Ao pressionar o botão correspondente, ele sobe no skate e passa a realizar ollies, grinds e manobras enquanto atravessa os cenários. O que parece estranho no papel funciona surpreendentemente bem na prática.

Os mapas de High on Life 2 se transformam em grandes playgrounds. Corrimões, rampas e estruturas espalhadas pelos ambientes incentivam o movimento constante de forma intuitiva, redefinindo o ritmo do jogo. Há também mecânicas de wallride com limite de tempo e ataques corpo a corpo integrados ao deslocamento. E tudo se conecta de forma natural.
Combate mais dinâmico e menos estático
Essa decisão de inovar com um skate gera um efeito direto no combate. Se a movimentação agora é mais veloz, o tiroteio precisava acompanhar. E felizmente acompanha.
As batalhas em High on Life 2 deixaram de ser trocas de tiro estáticas. Agora há mais camadas, com armas possuindo habilidades especiais com cooldown e a necessidade de alternar constantemente entre recursos. Enquanto isso, o uso do gancho conecta movimentação e ataque, permitindo escapar, avançar ou iniciar combos de forma criativa.

O resultado é um FPS mais energético, que lembra o espírito de jogos como Sunset Overdrive. O jogador não é recompensado por ficar parado, e tudo que acontece incentiva improviso e mobilidade.
Além disso, a variedade de situações cresceu em High on Life 2. As cidades alienígenas são menos lineares, apresentam puzzles com e sem skate, eventos dinâmicos e pontos de interesse espalhados pelos mapas.

Um exemplo claro dessa evolução é uma missão de investigação envolvendo um assassinato. Durante esse trecho, o jogador precisa conversar com NPCs, reunir pistas e formular conclusões. É possível acertar parcialmente ou errar completamente, e o jogo reage com humor à sua decisão. Essas mudanças reduzem a sensação de repetição que foi criticada no primeiro título.
Humor mais agressivo e melhor localizado
O humor continua sendo o principal elemento de storytelling, e as armas falantes retornam com novas companheiras e dinâmicas inéditas. Agora, inclusive, há pequenas escolhas de fala que podem trocar automaticamente a arma ativa, permitindo que diferentes personalidades participem da cena e a desenrolem de forma imprevisível.
High on Life 2 também investe pesado em quebra da quarta parede. Logo no início, uma luta contra chefe invade o menu principal, altera configurações e simula até um reset do próprio jogo. É um momento totalmente de fazer cair o queixo, capaz de reforçar o compromisso com o absurdo e com inovações.

Outro avanço importante em High on Life 2 é a localização em português do Brasil. Menus e textos finalmente estão traduzidos, o que torna as referências mais compreensíveis. Para quem não se conectava totalmente com o humor no primeiro jogo, essa adaptação faz toda a diferença.
Ainda assim, vale reforçar: se você não compra a proposta de besteirol constante, o jogo pode se tornar cansativo. A diferença é que agora existem opções para reduzir a frequência de falas excessivas, como houve nas configurações de Forspoken.
Mais conteúdo e identidade visual reforçada
Visualmente, o salto em High on Life 2 é claro. Os mundos são mais amplos e detalhados, mesmo sem serem totalmente abertos. Parado em qualquer ponto, é possível enxergar o horizonte cheio de planetas e estruturas alienígenas.
Explorar também vale muito mais a pena. Há itens cosméticos para o skate, armas e protagonista, além de coletáveis e vantagens passivas. Enquanto isso, os NPCs estão mais expressivos, reagem às suas ações e criam interações inesperadas, com uma reatividade natural que ajuda a dar vida a tudo que está ocorrendo.

Os inimigos também apresentam maior variedade de design e comportamento. E nem todos os chefes exigem disparos constantes; alguns pedem leitura de padrão e uso inteligente de habilidades, ou às vezes simplesmente não fazer nada.
Problemas técnicos e tropeços
Apesar das melhorias, High on Life 2 não é perfeito. A explicação de certas habilidades é confusa e pode gerar momentos de frustração, principalmente em trechos obrigatórios de puzzle e mais no início da campanha.
Além disso, a performance apresenta instabilidades. Quedas de FPS aparecem com frequência e são bem mais nítidas especialmente por causa da velocidade do skate. Também ocorrem crashes e pequenos bloqueios de progressão que exigem reiniciar o último ponto de controle. Esses problemas acabam quebrando o ritmo, mas sem invalidar tudo que foi implementado.
High on Life 2 voa para novos horizontes
High on Life 2 mantém a essência do original, mas ajusta o que precisava ser aprimorado. A movimentação é mais divertida, o combate é bem mais criativo e a variedade de situações impede que a campanha pareça repetitiva.
Sua duração é semelhante à do primeiro jogo, mas há mais atividades secundárias para quem quiser explorar além do essencial. E isso aumenta substancialmente o tempo gasto pelo jogador naquele universo.
No fim, a sequência consegue o mais difícil: continua engraçada, mas agora se sustenta ainda mais como jogo. Se você gostou do primeiro, aqui encontrará uma versão mais ousada e refinada da mesma ideia, mas com detalhes que te farão apreciar o belo trabalho conceitual e de alívio cômico da Squanch Games.
Quatro anos depois de High on Life, a Squanch Games retorna com High on Life 2 em uma aventura ainda mais maluca, estúpida, divertida e criativa.
Pontos positivos
- Aumento substancial de conteúdos
- Finalmente temos menus e textos em português do Brasil
- Gameplay divertido e bastante intuitivo
- Design de missões mais objetivo
- Interação orgânica com armas e NPCs
- Maior variedade de personagens e de ações
- Visuais dos mapas estão muito bonitos
Pontos negativos
- Problemas com travamentos, crashes e quedas de FPS
- Algumas ações são mal explicadas
- História não é muito interessante
- História
- Jogabilidade
- Visuais
- Som
- Desempenho