Na última semana, a convite da Disney, participamos de uma cabine de imprensa para assistir antecipadamente Socorro!, novo longa dirigido pelo lendário Sam Raimi.
E o agradecimento é necessário não apenas pelo convite, mas também pela oportunidade de conferir, em primeira mão, um filme que marca um momento simbólico na carreira do cineasta. Depois de anos alternando projetos de grande estúdio, ele parece novamente confortável em um terreno que conhece como poucos.
Com estreia marcada para 30 de janeiro nos cinemas brasileiros, Socorro! apresenta uma premissa simples, mas funcional: Linda e Bradley, dois colegas de trabalho com uma relação marcada por ressentimentos profissionais, sobrevivem a um acidente de avião e acabam presos em uma ilha deserta.

A partir daí, o que se desenha não é apenas uma narrativa padrão de sobrevivência, mas um confronto psicológico constante, no qual poder, culpa e frustração se alternam conforme as circunstâncias mudam.
Socorro! e o exagero de um mal humano
Desde os primeiros minutos, fica claro que Raimi não está interessado em um suspense realista ou em um drama de sobrevivência convencional. Pelo contrário. O filme abraça o exagero como linguagem, tanto na construção das situações quanto na forma como o terror se manifesta.
Essa escolha aproxima Socorro! diretamente das raízes do diretor, refletindo o espírito do “terrir” que marcou os primórdios de A Morte do Demônio e, mais tarde, o absurdo Arraste-me para o Inferno. O medo aqui não vem apenas da ameaça física, mas do desconforto constante (principalmente visual) e da sensação de escala muito imprevisível.

A dinâmica entre os protagonistas sustenta grande parte de Socorro!. Rachel McAdams (Questão de Tempo, Diário de uma Paixão) constrói uma personagem que evolui gradualmente, ganhando controle da situação conforme as regras sociais deixam de fazer sentido.
Já Dylan O’Brien (Maze Runner) assume sem reservas um papel antipático, representando uma figura de autoridade completamente deslocada fora do ambiente corporativo. Essa inversão de papéis é fundamental para o funcionamento da história e se desenvolve de forma progressiva, mesmo quando o ritmo demora a engrenar.
Simplicidade técnica, mas com personalidade
Do ponto de vista técnico, Raimi aposta em soluções visuais que reforçam o tom exagerado do longa. Os enquadramentos são expressivos, o uso de efeitos digitais não busca realismo absoluto e o horror surge de maneira deliberadamente excessiva.
Em alguns momentos, especialmente no primeiro ato, o filme parece alongar situações já conhecidas do gênero, passando uma impressão que claramente não demora para se mostrar enganosa. Ainda assim, essa preparação serve para que o impacto das sequências mais intensas funcione melhor posteriormente.

À medida que a história avança, Socorro! encontra mais segurança em sua proposta. O humor se torna mais ácido, o terror mais gráfico e o conflito entre os personagens mais direto.
Porém, não se trata de um filme preocupado em agradar todos os públicos ou em suavizar suas ideias. Raimi prefere assumir riscos, mesmo que isso resulte em irregularidades narrativas ao longo do caminho.
Brincadeiras ambientais no estilo Premonição
Outro ponto interessante de Socorro! diz respeito às brincadeiras visuais que aparecem o tempo inteiro. Nenhum detalhe na tela ocorre de graça, com vários deles sendo relembrados pela narrativa ou pelos personagens em algum momento da história.
Nem sempre eles são sutis, e quando passam longe dessa ideia é onde a direção de Raimi brilha. Locais perigosos da ilha ficam na sua mente e você passa a esperar mais dele; planos longos com zoom dão maior profundidade ao comportamento dos personagens, bem como expandem a proposta da imprevisibilidade.

O filme também aposta bastante nos extremos. Silêncios contrastam com gritarias e brigas, tédio com cenas absurdamente chocantes (fãs de Arraste-me para o Inferno vão pegar a referência), estilos de vida dos protagonistas e os próprios ciclo temporais, já que a ilha também é uma ameaça.
Esse conceito estranho, especialmente por ser pouco convincente em termos de “o que você faria”, te deixam o tempo todo atento à tela. E a forma como a produção te hipnotiza mesmo com diálogos bobos é uma prova de que nem toda comédia precisa subestimar a nossa inteligência.
Muito mais que uma Sessão da Tarde
No conjunto, Socorro! não representa o auge da filmografia de Sam Raimi, mas funciona como um retorno consciente às suas origens criativas. É um filme que entende suas próprias limitações, mas também sabe explorar seus pontos fortes.
Para quem acompanha a carreira do diretor ou sente falta de um terror que não se leva excessivamente a sério, trata-se de uma experiência sólida, desconfortável e, acima de tudo, coerente com o que Raimi sempre fez de melhor.
![[Crítica] Terror exagerado, Socorro! é um agradável retorno de Sam Raimi às origens Socorro](https://republicadg.com.br/wp-content/uploads/2026/01/Socorro-1024x576.jpg)