Neste especial, vamos nos aprofundar na história do Studio Ghibli, um estúdio que se tornou uma verdadeira lenda no universo da animação. Sua reputação não vem apenas da impressionante qualidade técnica de suas obras, mas da forma como suas histórias conseguem tocar profundamente o público.
Suas animações não são apenas visões belíssimas na tela, elas carregam emoção, significado e personagens inesquecíveis, que continuam vivos na memória mesmo depois que os créditos sobem.
E esse prestígio não surgiu por acaso. O Ghibli se consolidou como referência mundial porque vai além da animação tradicional, ele transforma cada cena em pura magia. Cada quadro desenhado à mão carrega um cuidado quase artesanal, cada narrativa transmite uma poesia única, e cada personagem parece ter alma própria.
Não é à toa que, até hoje, inúmeros mangakás e animadores se inspiram no estúdio para criar suas próprias histórias, sonhando com o dia em que suas obras também ganharão vida nas telonas.
Mas o que torna o Studio Ghibli tão especial? Como ele construiu essa identidade única que combina excelência artística, profundidade emocional e um estilo narrativo inconfundível? Vamos explorar mais de perto a história do Studio Ghibli e o que fez desse estúdio japonês um símbolo de qualidade e sensibilidade, não apenas no Japão, mas em todo o mundo.

As raízes da história do Studio Ghibli: muito antes de virar realidade
Se a gente quer entender o começo da história do Studio Ghibli, precisamos entrar numa máquina do tempo e voltar lá para 1974. Naquele ano, dois nomes que mudariam a história da animação japonesa se encontraram: Hayao Miyazaki e Isao Takahata. O destino fez com que eles cruzassem caminhos nos bastidores do anime Heidi, enquanto trabalhavam no estúdio Toei.

E olha só que curioso: conforme colaboravam em diferentes projetos, perceberam que compartilhavam um sonho meio audacioso—fazer animações com uma qualidade que, na época, parecia coisa de outro mundo.
No entanto, eles não queriam apenas melhorar o que já existia. Queriam dar um passo além, ousar onde ninguém ousava. Enquanto o mercado japonês se concentrava em séries curtas e produções de orçamento apertado, Miyazaki e Takahata sonhavam grande: criar longas-metragens animados. Isso era praticamente um desafio às coisas como são da época.
A cada nova produção que trabalhavam juntos, a ideia ia ganhando forma. Eles sentiam na pele as limitações da indústria, além disso, prazos sufocantes, cortes de orçamento e um padrão de qualidade que não fazia jus ao que a animação podia ser.
Até que um dia, a ficha caiu: se queriam criar algo do jeito certo, sem correria e sem abdicar da excelência, precisavam de um espaço só deles. Um estúdio onde pudessem dar vida às histórias do jeito que realmente sonhavam. E foi assim que a semente da história do Studio Ghibli começou a brotar, ainda antes de ter nome, casa ou sequer um primeiro filme.
O Primeiro Longa e o Surgimento Oficial do Studio Ghibli
O sonho de Hayao Miyazaki e Isao Takahata começou finalmente a tomar forma em 1984, quando, em parceria com a Toei e a Tokuma Shoten, eles lançaram Nausicaä do Vale do Vento. Esse filme não só refletia exatamente a visão artística da dupla, com animação inteiramente feita à mão e atenção minuciosa aos detalhes, como também conquistou tanto crianças quanto adultos, provando que animação podia ser muito mais do que mero entretenimento infantil.

O impacto de Nausicaä foi imediato e gerou uma grande expectativa por novos trabalhos da dupla. No entanto, o estúdio que produziu o longa já não existia mais. Diante dessa oportunidade, Miyazaki e Takahata, ao lado de Toshio Suzuki e Yasuyoshi Tokuma, tomaram uma decisão crucial: fundaram, em 1985, o Studio Ghibli, que se tornaria um dos maiores nomes da animação mundial.
O nome “Ghibli”
O nome “Ghibli” surgiu de uma ideia de Miyazaki, inspirado no motor do avião italiano Caproni Ca. 309 Ghibli. A escolha não foi aleatória, pois seu pai trabalhava na indústria aeronáutica, e essa paixão por aviões se refletiria em diversas de suas obras, incluindo Porco Rosso, onde esse motor aparece como uma homenagem.

No ano seguinte, o recém-criado Studio Ghibli lançou seu primeiro longa-metragem oficial: O Castelo no Céu. O sucesso foi imediato, levando mais de 775 mil espectadores aos cinemas e consolidando o estúdio como uma nova força na animação japonesa. Esse foi apenas o começo de uma trajetória que redefiniria o gênero e influenciaria gerações de artistas ao redor do mundo.

A Aposta Ambiciosa e a Revolução no Método de Trabalho do Studio Ghibli
Após o sucesso de O Castelo no Céu, o Studio Ghibli não perdeu tempo e mergulhou na produção de novos projetos. Mas, em vez de seguir um caminho convencional, optou por uma decisão ousada: desenvolver dois longas-metragens simultaneamente, cada um sob a direção de um de seus fundadores.
Portanto, em 1988, o mundo conheceu o resultado dessa aposto. Os filmes lançados foram nada menos que Meu Amigo Totoro, de Hayao Miyazaki, e O Túmulo dos Vagalumes, de Isao Takahata. Essas duas obras-primas não só entraram para a história do estúdio, mas também se tornaram referências absolutas na animação mundial.

Assim, o impacto foi imediato e abriu caminho para o lançamento de O Serviço de Entregas da Kiki no ano seguinte. O filme conquistou o público e bateu recordes de bilheteria, levando cerca de 2,64 milhões de espectadores ao cinema e se tornando o longa mais assistido de 1989 no Japão.
Com esse sucesso estrondoso, o Studio Ghibli teve a oportunidade de reformular sua estrutura de trabalho. Até então, seguia um modelo comum na indústria da animação, contratando equipes temporárias para cada projeto, em um sistema freelance. No entanto, Miyazaki decidiu romper com essa prática e implementar um novo modelo: todos os artistas e animadores passariam a ser funcionários fixos do estúdio.

Essa mudança foi revolucionária para a época. Além da estabilidade no emprego, Miyazaki estabeleceu uma política salarial inovadora: os salários dobrariam anualmente, e homens e mulheres receberiam o mesmo valor.
No entanto, com essa abordagem, o Studio Ghibli não apenas elevou o nível da animação japonesa, mas também criou um ambiente profissional mais justo e sustentável, garantindo que sua equipe pudesse se dedicar integralmente à arte sem a incerteza de projetos temporários.
Alto Custo, Alto Risco e Alto Retorno
Com uma política salarial tão inovadora, o Studio Ghibli também precisava de uma estratégia financeira à altura. Foi assim que surgiu a filosofia dos “3 As”—Alto Custo, Alto Risco e Alto Retorno, definida pelo então diretor-executivo Toru Hara. Essa abordagem significava que o estúdio nunca poderia parar, sempre precisaria estar em produção para manter o equilíbrio financeiro.
Esse ritmo acelerado ficou evidente em 1991, quando Memórias de Ontem chegou aos cinemas enquanto Porco Rosso já estava em plena produção. Nesse mesmo período, Miyazaki percebeu que o estúdio já não comportava sua crescente equipe e propôs a construção de uma nova sede.

A ideia, no entanto, gerou um impasse interno: Toru Hara discordou da decisão e acabou deixando o estúdio. Ainda assim, Yasuyoshi Tokuma apoiou o projeto, e Miyazaki, incansável como sempre, se desdobrou entre duas grandes criações ao mesmo tempo, o novo filme e a arquitetura do novo prédio. Ambos foram concluídos e lançados em 1992.
A nova sede não só ofereceu um espaço maior e mais adequado para os artistas, como também representou um salto estratégico para o Studio Ghibli. Agora, além da produção dos filmes, eles poderiam cuidar diretamente da distribuição e divulgação, ampliando sua autonomia e seu faturamento.
Curiosamente, um dos grandes responsáveis pela estabilidade financeira do estúdio foi Meu Amigo Totoro. Diferente de outros estúdios que apostavam na venda massiva de produtos licenciados, o Ghibli nunca focou nesse mercado.

No entanto, a popularidade de Totoro gerou uma demanda espontânea por produtos inspirados no personagem, o que acabou se tornando uma importante fonte de receita. Um sucesso inesperado, mas que ajudou a garantir a sustentabilidade do estúdio sem comprometer sua essência criativa.
O Reconhecimento Internacional e o Primeiro Oscar da Animação Japonesa
Em 1997, o Studio Ghibli finalmente alcançou reconhecimento internacional com Princesa Mononoke. Diferente de suas produções anteriores, esse longa-metragem abordava temas mais maduros, conquistando não apenas o público japonês, mas também espectadores ao redor do mundo.

A recepção global do filme, no entanto, trouxe desafios inesperados. A Disney, responsável pela distribuição no Ocidente, queria realizar cortes para tornar a história mais “infantil”. Mas Miyazaki, fiel à sua visão artística, se recusou terminantemente a permitir qualquer modificação.
A insistência foi tanta que, segundo uma famosa anedota, o produtor Toshio Suzuki enviou uma espada samurai para os executivos da Miramax (subsidiária da Disney na época) com um bilhete curto e direto: “Sem cortes”. No final, a gigante do entretenimento cedeu, e o filme foi lançado em sua versão original.
A Viagem de Chihiro
Esse sucesso abriu caminho para a maior obra do estúdio até hoje: A Viagem de Chihiro (2001). Além de se tornar o filme de maior bilheteria da história do Ghibli, ele marcou um feito histórico, conquistando o Oscar de Melhor Animação, o primeiro de uma produção japonesa. O impacto foi tão grande que o longa permanece, até hoje, como um dos mais celebrados da animação mundial.

Desde então, o Studio Ghibli tem vivido um ciclo curioso, marcado pelas idas e vindas de Hayao Miyazaki. O diretor já anunciou sua aposentadoria diversas vezes, mas sempre acaba voltando para novos projetos. Em algumas ocasiões, seu retorno foi motivado por inspiração criativa, enquanto, em outras, por acontecimentos trágicos, como a morte prematura do talentoso produtor Yoshifumi Kondo, em 1998.
Em 2018, o estúdio perdeu outro de seus grandes pilares com o falecimento de Isao Takahata. Entre os membros da equipe original, Toshio Suzuki e Miyazaki continuam à frente do estúdio. Prova disso foi o lançamento do mais recente longa do Ghibli, O Menino e a Garça, em 2023, um filme que reafirma a força e a relevância de um dos maiores estúdios de animação do mundo.

Agora é com você, caro leitor. Já conhecia a história do Studio Ghibli? Conte para a gente nos comentários.