9 anos atrás, lá em 2017, eu me deparei com um “jogo de samurai” diferente de tudo que eu já havia jogado antes. O game bebia um pouco da fonte da FromSoftware, implementando conceitos similares, porém, tinha uma jogabilidade bem mais rápida e visceral, incentivando a agressividade e construção de combos. O nome do jogo? NiOh.
O título da Team Ninja serviu como uma porta de entrada para mim para o gênero soulslike, que hoje se tornou meu predileto. Contudo, a fórmula da Team Ninja evoluiu tanto a ponto de gerar quatro jogos, contando com o título que impulsiona essa análise. Nesse review de NiOh 3, irei elencar os vários pontos (e sentimentos) que me levam a crer que esse é o melhor jogo já criado pela Team Ninja e que essa fórmula maravilhosa já merece um nome próprio, tornando-se um subgênero específico: o NiOhlike.
Um mergulho entre eras
Os desenvolvedores da Team Ninja parecem ter tatuado na alma a célebre frase: “em time que está ganhando não se mexe”. A parte narrativa de NiOh 3 segue isso com louvor. O tema central da história é o mesmo dos outros dois jogos: a busca por poder e o uso das pedras espirituais para obter a dominação completa. O que muda no terceiro jogo é o escopo e a qualidade da escrita e dos personagens.
Nos títulos anteriores, a narrativa era tratada como um complemento para a ação desenfreada. Em NiOh 3, a história é uma parte importante da experiência e isso é destacado quase a todo momento. Os novos personagens são fantásticos, com motivações bem exploradas e um design que torna boa parte deles memoráveis.

Alguns dos chefes principais receberam o mesmo tratamento, gerando reflexões interessantes sobre honra, bem, mal, orgulho e paz. O novo protagonista tem nome, contudo, ainda não é um personagem marcante como William no primeiro jogo.
Uma novidade na estrutura narrativa é que a história é contada através de várias eras que marcaram a história do Japão, como o período Sengoku e o Bakumatsu. Essa roupagem de diferentes eras serviu como uma boa justificativa para implementar um design de mundo aberto.
Cada era da história apresenta um mapa próprio, trazendo biomas diferentes, construções e mais. Todo esse cuidado com a narrativa é reforçado pelo claro aumento de orçamento para as cutscenes, expressões faciais, dublagem e sincronia labial.
A experiência está muito mais cinematográfica e com roupagem de um AAA. Além das missões principais, temos dois tipos de quests no jogo: os Contos, missões secundárias que adicionam mais contexto ao mapa e certos personagens e os Pergaminhos de Batalhas, missões lineares que ajudam na progressão do personagem. A qualidade de escrita dos Contos me surpreendeu, evidenciando que o estúdio se preocupou em entregar algo bom e não qualquer coisa só pra preencher o mapa.

Uma masterclass sobre jogabilidade
No que diz respeito à jogabilidade, a Team Ninja é como Arnold Schwarzenegger em seu prime na época do Mr. Olympia. Como Arnold, o estúdio tem um entendimento TOTAL de sua fórmula e sabe precisamente o que os fãs da franquia querem.
NiOh 3 representa um raro caso de um estúdio que coloca os fãs em primeiro lugar na medida que implementa novidades para atrair novatos. Altamente responsivo e com milhões de possibilidades de builds, a jogabilidade de NiOh 3 é a mais viciante que eu já vi dentro do subgênero souls. E eu digo isso com propriedade visto que já joguei quase todos os principais.
Os devs implementaram duas grandes mudanças em relação aos anteriores. Agora temos dois estilos de jogo: o Samurai, com as posturas tradicionais da saga e o Ninja, com alta mobilidade e a capacidade de usar ninjutsus. Podemos trocar entre os dois estilos ao pressionar um botão e o jogo incentiva isso constantemente através do sistema de quebra impetuosa. Os inimigos as vezes acionam ataques indefensáveis que brilham na cor vermelha.

Para interromper o ataque, precisamos inicialmente usar a troca de estilo, gerando um alto dano na barra de Ki do adversário. Após progredir um pouco na história, as habilidades espirituais, outra novidade da franquia, entram em cena. As habilidades espirituais são habilidades dos espíritos guardiões e tomam o lugar das habilidades de Yokai do jogo anterior. Eu particularmente achava o sistema antigo mais divertido, afinal, se transformar em um Yokai é mais legal, mas a mudança tem respaldo na lore (o protagonista é humano!).
Como eu gosto de usar a Odachi e o Machado, o estilo samurai foi o mais usado por mim. A mecânica de parry foi aprimorada, com uma responsividade nível Sekiro. O som das lâminas se chocando é bem satisfatório e o mecanismo é vital pra derrotar inimigos humanos com mais facilidade. Outro elemento importante do estilo são as Artes Marciais, golpes poderosos acionados com um ataque forte quando o medidor é enchido.
O estilo de Ninja foi claramente inspirado em Ninja Gaiden, com combos bem parecidos. O mecanismo de Névoa, que permite que você recue ou vá pras costas do inimigo, é MUITO forte. A variedade de Ninjutsus é absurda e conta com elementos tradicionais como as kunais e shurikens. NiOh sempre foi um jogo sobre construção de builds e NiOh 3 eleva isso a potência máxima. São centenas de opções super viáveis e poderosas, entregando um fator replay quase que infinito pro jogo.
Agora temos habilidades passivas divididas em três categorias: Samurai, Ninja e as Gerais. Existe um pequeno sistema de carga que ajuda a manter o jogo balanceado mas os jogadores experientes podem encontrar várias maneiras de “quebrar” o jogo. Um aspecto fantástico de NiOh 3 é que a montagem de builds foi casada de maneira inteligente com o mundo aberto. Ao explorar, podemos coletar várias mechas de samurai por exemplo.

As mechas concedem 1 ponto de habilidade que podem ser aplicados na árvore de Samurai e nas armas do estilo. Também é possível encontrar Mestres. Os duelos garantem golpes especiais para o tipo de arma usado pelo mestre, permitindo que o jogador personalize ainda mais os golpes de sua arma e construa combos absurdos. O mundo aberto causa um impacto tremendo na progressão. As Bençãos de Kodama, de Oração e o sistema de Títulos concedem bônus passivos extremamente poderosos que influenciam até no drop de itens como os Elixirs.
O sistema de batalhas de clãs retorna só que, curiosamente, ele veio com um problema similar aos jogos anteriores. Existem clãs que concedem benefícios passivos bem mais vantajosos que os demais, gerando uma concentração de jogadores.
E por falar em concentração, os NPCs agora se alojam na Fenda Eterna, hub que serve como a base de preparação para o jogador. A área conta com segredos úteis e alguns engraçados, como o retorno do homem apaixonado por esterco e um yokai-felino gigantesco e fofo. Nele também podemos encontrar a Ferreira, que ganhou novos sistemas e está ainda mais importante na franquia.

A itemização de NiOh é absurda e o jogador pode desmontar itens, realizar fusão espiritual aprimorando o nível deles ou até remodelando a arma, mudando os atributos escaláveis. Se tratando de gerenciamento, as Almessências ganharam um tratamento similar. Podemos aprimorar o nível delas e temos a Caixa Omnyo, onde o posicionamento da Almessência influencia diretamente no efeito que ela vai ter. Na parte superior, o jogador consegue talismãs de invocação do Yokai, já na parte inferior, talismãs com efeitos adversos, como o clássico talismã da preguiça.
O único aspecto que eu não gostei sobre o gerenciamento de itens é que em dado certo ponto, o jogo vai te forçar a upar alguns atributos como Intelecto e Habilidade pra conseguir usufruir dos bônus passivos dos sets. Não chega a ser um incômodo mas você “perde” ali uns 10-12 pontos de atributos na sua build se jogasse como eu focando em coisas como Essência por exemplo.

“PvP” e co-op
A Team Ninja foi além e até adicionou um sistema inédito no PvP do jogo. Caso você não tenha jogado nenhum, o game não conta propriamente com um PvP. Você pode invocar o espírito de jogadores reais através de espadas vermelhas no chão e ao serem vencidos, eles concedem recursos como Glória e Copo Ochoko, item usado pra invocação no co-op.
Agora, ao derrotar uma boa quantidade de fantasmas das lâminas vermelhas, uma espada lilás enorme surge no mapa, permitindo que o jogador enfrente um chefe formidável que concede recompensas excelentes. Por falar em co-op, testei o sistema por quase 2 horas e fiquei impressionado com o quanto ele fluiu bem.

Não tivemos nenhum engasgo de conexão e o jogador convidado é puxado diretamente pro host em caso de viagem rápida. A escala de dificuldade também está justa e convidativa, se afastando da escala brutal de NiOh 2.
Expandindo fronteiras
Uma das maiores mudanças no design de NiOh 3 é a estrutura de mundo aberto. Ou melhor, mundos. Diferente dos outros dois títulos da franquia, que contavam com missões lineares, NiOh 3 nos coloca em diferentes períodos da história. Em cada Era, como o período Sengoku, percorremos um mundo aberto, concluindo missões e realizando atividades secundárias.
O que é assustador, no sentido positivo da coisa, é que a Team Ninja conseguiu replicar seu level design enxuto dentro dessa estrutura de mundo aberto. O estúdio brilhantemente dividiu o mapa de cada Era em subáreas e foi implementando as atividades secundárias e itens dentro dessas subzonas. Todas elas são interligadas e o sistema consegue afastar completamente a fadiga de mundos abertos.
E inteligência é uma palavra importante para o level design do jogo. Os atalhos sempre arrancam um bom sorriso, algo que é um pilar importante em soulslikes. Com NiOh 3, a Team Ninja me fez pensar em Tchekhov. O escritor russo odiava excessos e elementos desnecessários e o jogo exala esse princípio. O posicionamento de itens, de inimigos, a posição dos atalhos, tudo é feito com pensamento, com propósito.

E por falar em pensamento, o principal elemento que deixa um jogo de mundo aberto chato são as atividades secundárias. E, felizmente, isso não acontece aqui. A Team Ninja se apoiou no que já conhece pra fazer os jogadores engajarem com o mapa. Podemos resgatar Kodamas, purificar Umbrais Inferiores, relaxar em fontes termais, limpar bases inimigas, correr atrás e acariciar Sunekosuris, derrotar inimigos formidáveis (chefes secundários opcionais) e mais.
Eu confesso que eu senti falta de uma variedade maior de atividades por conta da extensão do jogo. Foram 57 horas pra platinar o jogo e chega um momento que elas se tornam um pouco repetitivas, mas nada que incomode a experiência geral por que as atividades são bem espaçadas.
Outro ponto de destaque é na diversidade de biomas que o mundo oferece. Temos vilarejos, áreas montanhosas, palácios, florestas. O estúdio ainda pode melhorar no quesito palheta de cores, entregando uma direção artística ainda mais impactante, mas a diversidade de cenários ajuda a reforçar o escopo do conflito.

Por fim mas não menos importante: o mundo aberto tem um impacto direto na dificuldade e progressão do personagem. Você ganha vários bônus na medida que conclui as atividades e o incentivo à exploração faz com que você derrote mais inimigos, consequentemente ganhando mais Amrita e subindo de nível.
Existe aquela pauta (descabida) de que jogos soulslike precisam de seleção de dificuldade e NiOh se esquiva disso brilhantemente: está passando perrengue? Explore o mapa e pense melhor em sua build!
O poder do feedback
Eu comecei a acompanhar ativamente o trabalho da Team Ninja a partir de 2017 com o lançamento do primeiro NiOh. De lá pra cá, uma coisa que costumava repetir nos lançamentos do estúdio é: eles precisam modernizar mais essa engine. E, felizmente, isso acontece em NiOh 3.
Os efeitos visuais, texturas e construções foram bem aprimorados, finalmente passando a sensação de ser um jogo da geração atual. E a melhoria não foi somente nesse quesito. O design em si do jogo evoluiu muito. As cutscenes estão bem mais cinematográficas e o design de chefes está maravilhoso.

A reutilização de assets de NiOh 1 e 2 permitiu que a equipe expandisse sua própria fórmula de maneira inteligente, sem gerar sobrecargas no processo de desenvolvimento por conta da implementação do mundo aberto. Os dois modos gráficos funcionam bem. O qualidade entrega visuais mais limpos e o desempenho, que pra mim é o ideal pra esse tipo de jogo, prioriza o FPS. Eu notei que o game sofre quedas de frames em momentos bem pontuais de certas áreas mas é um problema que pode ser facilmente resolvido com um patch.
O som acompanha a qualidade do design visual do jogo. A trilha evoca bem o clima de guerra da história e o som das lâminas se chocando ao aparar os golpes é estranhamente satisfatório. O som dos yokais ainda pode melhorar, dando um senso maior de identidade própria pra eles. Quase todos reproduzem o mesmo som, seria legal ter uma variação nisso.

A dublagem japonesa está impecável e por ter um design de mundo aberto, eu fiquei bem feliz com o sistema de viagem rápida. Ele funciona muito bem mesmo alterando as Eras que você visita, o que ajuda muito no processo de conclusão de quests. No geral, o sentimento é que a Team Ninja usou todo o aprendizado acumulado de 2017 pra cá, entregando sua visão derradeira para a franquia NiOh. Foram 9 anos aperfeiçoando uma fórmula que na minha visão pode ser considerada o “Call of Duty dos soulslikes”. Quando o combate de NiOh te fisga, é difícil conseguir se afastar do jogo!
Review de NiOh 3: A fórmula da perfeição
NiOh 3 é a síntese de tudo que a Team Ninja vem construindo desde 2017, ano de lançamento do primeiro jogo da franquia. Após 9 anos, 4 jogos (Wo Long incluso) e 9 expansões, 3 pra cada game, o estúdio aprimorou todos os seus pontos fortes e reduziu os pontos fracos, entregando um jogo perfeito e que ao meu ver representa a visão derradeira da equipe em relação a saga.
Com uma narrativa mais rica e palpável, visuais modernos, uma direção de cenas cinematográfica e um combate que é facilmente um dos melhores que a indústria já viu, NiOh 3 é a primeira grande joia de 2026 no espaço AAA. Se você busca por uma experiência robusta, que te desafia na medida certa e entrega doses generosas de diversão, não deixe NiOh 3 passar!
NiOh 3 é a magnum opus da Team Ninja, resultado de anos de aprendizado e aperfeiçoamento. As novas inserções, apesar de motivadas por necessidades do mercado, foram brilhantemente aplicadas no jogo, funcionando de maneira natural dentro da fórmula criada pelo estúdio. Com um fator replay quase infinito, NiOh 3 abraça tanto os fãs quanto os jogadores novatos, tornando-se uma obra obrigatória dentro do subgênero souls.
Pontos Positivos
- Centenas de possibilidades de builds
- História agora tem um peso maior
- Jogabilidade super responsiva e viciante
- Fator replay quase infinito
- Mundo aberto inteligente
- Novos yokais e chefes são excelentes
Pontos Negativos
- Quedas de frames em áreas bem pontuais
- Narrativa
- Jogabilidade
- Desempenho
- Direção de Arte
- Som
