Anunciado como parte da iniciativa de incubação da Sony na Índia, Fishbowl é a nova aposta dos videogames pra dar voz a mercados emergentes. Dessa vez, o destino é o pequeno estúdio indie imissmyfriends.studio, que dá a luz a uma aventura narrativa cheia de carisma e muito focada em emocionar quem joga por meio de vários gatilhos bem pessoais.
Graças ao pessoal muito querido da Popagenda, ganhamos uma chave de acesso antecipado ao jogo e pudemos testar toda a campanha, conhecendo a emocionante jornada de autodescoberta e de redenção da jovem Alo.
E olha… Em termos de história, o pessoal mandou muito bem aqui e contou uma aventura realmente única e fácil de se identificar. É impossível não perceber, no fundo do seu coração, alguns tópicos que são discutidos ali e que se desenvolvem com naturalidade e maturidade.
Mas Fishbowl é só uma espécie de visual novel retrô? Bom… Pode ser que sim, pode ser que não. Depende do quão fundo você vá nele e também do quão bem ele consiga te convencer de que é um projeto redondo.
Uma vida difícil
No jogo, você assume o papel de Alo, uma jovem de 21 anos que larga sua terra natal pra encontrar trabalho em uma cidade distante. Sozinha e preocupada com seu futuro, ela vive apreensiva por diversas coisas de seu passado, em especial as que envolvem o luto profundo pelo falecimento de sua avó.
Agora, com a pandemia e com o isolamento social, o trabalho remoto parece ser muito cruel com ela, pois o contato humano se torna altamente restrito. Mergulhada no silêncio de sua casa, ela busca nas ligações, nas mensagens e no seu estágio como editora de vídeo um meio de ocupar sua mente e de evitar que pensamentos ruins a sabotem.

O problema? Há uma profunda sensação de que nada daquilo vale a pena e de que ela não é boa em nada. Com isso, a depressão se aproxima com força… e resta a ela enfrentar os traumas e medos confiando em todas as boas pessoas que tão ao seu redor.
Fishbowl é um jogo curto, que leva de 5h a 7h pra ser concluído, mas ele conta com um bom fator replay por ser muito baseado em escolhas. Todas as suas mecânicas principais buscam simular uma rotina, exigindo que você passe o dia com Alo e tome conta não apenas da casa, mas de suas responsabilidades.

Falando da história, o jogo possui vários personagens que se destacam tanto pelos visuais quanto por seus próprios arcos. Suas tramas se desenvolvem ao mesmo tempo que a de Alo, mas sem tanta profundidade e nem de longe competem por tempo de tela.
Isso com certeza é uma vantagem aqui, pois um jogo curto que sofre com descentralização costuma perder o foco muito rapidamente e ficar confuso. Enquanto em Fishbowl, a história principal é bem coerente e todas as secundárias ajudam muito nessa recuperação pessoal da protagonista.

Após um certo tempo da campanha, você ganha acesso livre aos contatos do celular, e pode ligar pra suas amigas, colegas de trabalho, mãe e uma vizinha. Às vezes eles atendem, outras não, e quando falam geralmente trazem alguns roteiros bem emocionantes, por mais simples e diretos que eles sejam.
Além disso, Fishbowl tem um minigame de puzzle que é muito simples, mas que também conta mais histórias. Ele consiste basicamente em você empacotar caixas e enviar pras pessoas que tão ao seu redor. No dia seguinte, é possível ligar pra elas e escutar historias envolvendo esses presentes e objetos, em um processo muito interessante e orgânico.

Enquanto isso, a historia de Alo é contada com mais detalhes. Háalgumas cenas especiais de atos, digamos assim, ligações que você recebe, eventos obrigatórios pra fazer antes de dormir ou depois de acordar, e muitos flashbacks. Boa parte desses flashbacks, aliás, acontece por meio de um processo contrario do empacotamento: o desempacotamento.
Resgatando memórias
No jogo, Alo recebe as caixas com lembranças de sua avó, e uma é desempacotada por dia. Após isso, o jogo ativa uma cena interativa de flashbacks onde as historias dos objetos e da avó são contadas com um altíssimo grau de maturidade e relevância, pra só depois a protagonista sentir o impacto dessas coisas.
Fishbowl tem um sistema de humor que vai melhorando ou piorando com o passar dos dias. Por exemplo, lembranças ruins e pensamentos negativos fazem Alo ser coberta por uma sombra, e esse medidor acaba caindo. Já quando as lembranças são boas e Alo toma banho, lê livros, limpa a casa, cozinha, bebe água, rega o jardim e mais, o medidor cresce e a deixa mais feliz.

infelizmente, na pratica, não vi muita função nisso. Fishbowl parece ser bem direto em relação ao caminho que Alo escolheu seguir, como se o seu processo de luto e de luta interna fosse algo obrigatório que todos nós devemos acompanhar. O que basicamente muda são algumas escolhas narrativas no meio do caminho, principalmente as que envolvem sua carreira.
Durante a campanha, você precisa preparar Alo pra realizar um sonho de infância, que é ser poeta, mas enfrentando problemas por conta de um grave bloqueio sofrido pela personagem. Ela também pode continuar sua carreira promissora como editora de vídeo ou pode simplesmente voltar pra sua terra natal e trabalhar com a mãe. Essas escolhas ficam evidentes só muito em late game, então não parece que o resto do jogo tem mesmo um impacto.

Porém, quando falamos em sua proposta mesmo, de aliar minigames simples (cada ação na casa, por exemplo, é um minigame de apertar botões) a uma história bem contada, as coisas ganham novos contornos. A historia de Fishbowl é boa mesmo e muito madura, trazendo lições valiosas que jogadores de todas as idades podem pegar.
Além disso, há um elemento fantasioso que brinca com a realidade no jogo: um peixe de brinquedo. Ele funciona como uma espécie de catalisador pras lembranças da personagem, mas funciona muito bem em um roteiro que precisa ter um nível aceitável de compromisso com a veracidade.
Fishbowl é uma rica experiência sensorial
Por ser um jogo no geral muito agradável, Fishbowl vai passar por aí e você nem vai perceber o tempo. É tudo bem acessível, mesmo um minigame à la Guitar Hero, que consiste em fazer um bom trabalho de edição de vídeo e encaixar cores em uma espécie de ferramenta de edição. Como o trabalho é diário, essa recorrência faz ate mesmo você sentir o que alo sente: mais confiança no serviço e uma sensação de que as coisas tão melhorando naturalmente.
Falando sobre outros elementos, Fishbowl conta com uma excelente trilha sonora retrô, visuais em pixel art bem bonitos, mas nada impressionantes, e um fluxo de jogabilidade que não cansa, mesmo diante de uma rotina onde você acorda, faz uma série de coisas e dorme, pra depois fazer o mesmo no dia seguinte. Óbvio que a narrativa é bem mais engessada do que poderia e não há um peso assim real nas decisões, no sentido de haver um impacto ali.
Mas no geral, é um bom projeto inspirado no visual novel, e que busca inovar por meio de um gameplay que vai além de apertar botões pra passar o diálogo.
Jogo realizado por meio do India Hero Project, Fishbowl é a aposta da Sony para emplacar no mercado de romances narrativos, trazendo uma história emocionante em um título que poderia transmitir mais impacto.
Pontos positivos
- História emocionante
- Jogabilidade agradável, apesar de simples
- Game acessível, mesmo explorando temas sensíveis
- Excelente localização para o português brasileiro
- Ótima trilha sonora
Pontos negativos
- Algumas inconsistências de desempenho
- Falhas na colisão
- Jogo pode cair na esfera dos "simples demais"
- Falta de impacto claro com as decisões
- História
- Desempenho
- Gráficos
- Som
- Jogabilidade