Eu sinto que jogos de corrida precisam se posicionar em determinado ponto de um cabo de força. De um lado, nós temos as experiências mais arcade, que visam agradar a um público mais geral, que não tem tempo (nem paciência) para se dedicar a dominar mecânicas muito complexas. De outro, nós temos jogos de simulação que atendem a um público muito fiel mas bastante exigente — títulos que apresentam um alto grau técnico e muitas vezes são quase que intragáveis para o público mais geral.
Ir demais para um lado ou para o outro pode alienar parte do público, então, na maior parte dos casos, jogos de corrida buscam encontrar um equilíbrio, oferecendo muitas opções de acessibilidade, com o intuito de permitir que jogadores adequem a experiência para os seus gostos específicos. Lançado inicialmente em fevereiro de 2022, GRID Legends, o mais recente jogo original desenvolvido pela Codemasters, encaixa-se perfeitamente nessa descrição.

Com diversas opções de dificuldade e acessibilidade, GRID Legends é um jogo que tenta transitar entre os dois extremos. Embora não seja um jogo super despretensioso como a série Forza Horizon, ele possui diversas opções de acessibilidade para jogadores novatos. Por outro lado, apesar de nunca atingir os mesmos níveis de hiper realismo de um Gran Turismo, ele também permite que você remova as amarras com o objetivo de uma experiência de simulação completa. Todavia, será que ele consegue transitar bem entre esses dois extremos?
É isso que você vai descobrir nessa análise da versão de Nintendo Switch 2 de GRID Legends. Com o subtítulo de Deluxe Edition, essa nova versão do jogo chega ao console híbrido da Nintendo com a promessa de oferecer dezenas de horas de jogatina, já que inclui todos os quatro pacotes de história lançados anteriormente, bem como veículos extras e outros elementos bônus. Vale ressaltar que eu me posiciono mais como um jogador casual de jogos de corrida, então minhas impressões refletem esse prisma de um apreciador menos veterano. Cientes disso, vamos acelerar?

The Legend of Celta
Ao entrar em GRID Legends: Deluxe Edition pela primeira vez, você já é introduzido diretamente ao modo história do jogo, que consiste em uma longa campanha de cerca de 12 horas, durante as quais você assume o papel do Piloto 22 da Equipe Seneca. Seguindo um formato que busca imitar um “documentário” a respeito da equipe em ascenção, esse modo história intercala breves entrevistas com o pilotos, gerentes, mecânicos e rivais com alguns segmentos de corridas mais importantes para a temporada.
Em termos mecânicos, essa campanha faz um ótimo trabalho de apresentar alguns dos vários modos presentes em GRID Legends. Corridas de circuito, de um ponto a outro, com veículos leves ou pesados, além de desafios de drift compõem essa longa campanha, e funcionam como um grande tutorial para tudo o que GRID Legends tem a oferecer. Todavia, por mais que tenha um formato único e interessante, a história deixa muito a desejar em diversos aspectos.

Antes de qualquer coisa, é preciso destacar que os momentos de história do jogo são na realidade gravações live action, com atores reais. Por si só, isso cria um disconexo esquisito no início, já que, por mais que o jogo tenha uma direção de arte agradável, a justaposição de cenas reais com as corridas com gráficos 3D não casam. De toda forma, isso seria perfeitamente ignorável se não fossem pelo roteiro pobre e atuações bastante caricatas.
Por mais que o elenco do jogo tenha alguns bons atores (como Ncuti Gatwa, de Doctor Who e Sex Education), a caracterização dos personagens é estereotipada de um jeito raramente visto em videogames, ao ponto de alguns personagens serem descritos por um único adjetivo. Além disso, não ajuda o fato de a narrativa ser bastante fragmentada. Na maior parte do tempo, parece que você só está vendo momentos pontuais de uma grande narrativa que acontece fora das câmeras. Até que existe um acontecimento no decorrer da campanha que traz uma carga emocional à história, mas o peso não se sustenta quando contraposto a outros personagens que são extremamente bidimensionais.

Correndo pelas beiradas
Para além do modo história principal, contudo, GRID Legends traz outras quatro campanhas um pouco menores que focam em aspectos únicos do jogo. Algumas delas são bem bacanas, já que continuam a narrativa do jogo e trazem vislumbres sobre outros personagens, além, é claro, de novas corridas muito divertidas. Outras, contudo, são muito fraquinhas — e isso se dá mais por aspectos mecânicos do que em relação à narrativa em si.
Acontece que, como eu mencionei anteriormente, GRID Legends vive nesse meio-termo entre um arcade e um jogo de simulação. Dependendo da dificuldade escolhida (que pode ser customizada ao seu bel-prazer), o jogo pode pender enormemente para um lado ou outro, o que, na minha opinião, é um aspecto extremamente positivo. Porém, embora o jogo tenha uma certa maleabilidade em relação ao tipo de experiência oferecida ao jogador, nem todos os modos de jogo funcionam perfeitamente nessa dicotomia.

Desafios e modos voltados para a corrida funcionam absurdamente bem, em todas as categorias. Os controles são precisos e os veículos apresentam um peso e dinâmicas próprios, a depender da categoria escolhida. Pilotar nessas provas é sempre divertido e há um senso de velocidade presente muito bom. Além disso, você pode optar por diferentes configurações de câmera, que oferecem uma experiência mais imersiva, ainda mais caso escolha pilotar sem elementos da HUD.
Os maiores problemas de GRID Legends surgem quando o jogo tenta pender demais para o lado arcade da força. Existem duas campanhas de DLC e modos de jogos que são voltados para destruição veicular e drift, respectivamente. Na minha opinião, nenhum dos dois modos funcionam perfeitamente no jogo. Nessas situações, fica claro que os controles do jogo não foram pensados para esse tipo de experiência, já que os veículos parecem se tornar absurdamente duros e irresponsáveis. A impressão é que o jogo passa a exigir algo que os controles não são capazes de entregar.

O número 1 do GRID
Pelo menos, em todas as outras situações (que são a maior parte do jogo) GRID Legends apresenta controles e visuais extremamente competentes. Nesse sentido, inclusive, vale ressaltar que a versão de Nintendo Switch 2 apresenta duas opções visuais distintas. No modo Gráfico, o jogo roda a 30fps, mas a resolução é aumentada, bem como os detalhes visuais, incluindo sombras e reflexos mais refinados. No modo Performance, o jogo trava em 60 frames, às custas de alguns detalhes aqui e ali.
Em meus testes, ambos os modos servem bem ao que propõem, e a performance do jogo se mantém bastante estável independente da versão escolhida. Quedas de taxa de quadro ou bugs visuais são coisas raras de se ver, e o jogo apresenta uma direção de arte bastante agradável, que é acompanhada por uma direção de som poderosa, onde os roncos dos veículos e outros efeitos são simulados de modo bastante convincente.

Obviamente, fica claro a uma pessoa mais veterana dos jogos de corrida que GRID Legends é um título com algumas limitações, já que ele não apresenta o mesmo nível de hiper realismo gráfico visto nos títulos mais recentes da série Forza ou Gran Turismo. Não obstante, o trabalho feito pela Codemasters é bastante satisfatório, principalmente em mapas e cenários que envolvem diferentes climas e ambientes.
Pilotar durante a chuva, por exemplo, com os diversos pontos de iluminação refletindo no asfalto molhado, pode ser um deleite aos olhos. O mesmo acontece em mapas situados durante a hora dourada. Ver os últimos raios de sol cortando o horizonte nunca deixa de ser impressionante, e cria situações bastante interessantes, durante as quais sua visão pode ser comprometida durante curvas perigosas.

Review de GRID Legends: Deluxe Edition — uma boa primeira opção no Switch 2
Quando você considera tudo o que GRID Legends: Deluxe Edition tem a oferecer, fica claro que esse é um pacote um pouco inconsistente. Em seus pontos mais baixos, você encontra segmentos de uma narrativa fraca e pueril, além de modos de jogo arcade que não funcionam tão bem.
Porém, GRID Legends mais do que compensa esses segmentos mais fracos graças às suas mecânicas de corrida refinadas, bem como uma quantidade assustadora de conteúdo que vai além das dezenas de horas de sua história principal e DLCs. Com um Modo Carreira que apresenta dezenas de desafios extras nas mais variadas categorias, além de um Modo Livre que te permite customizar a experiência desejada, GRID Legends se torna uma opção de jogo de corrida extremamente válida no Nintendo Switch 2.

Enquanto outras séries de corrida famosas não chegam ao console híbrido da Nintendo, GRID Legends corre pelas beiradas e assume o pódio para aqueles que desejam coçar a coceirinha específica que apenas um jogo desse gênero consegue alcançar.
PS: A análise foi feita em um Nintendo Switch 2 através de uma cópia cedida pela Feral Interactive.
Com altos e baixos em suas diferentes campanhas, GRID Legends: Deluxe Edition oferece uma experiência de corrida vasta e bastante customizável que transita em um meio-termo entre um jogo arcade e um título de simulação mais complexo.
Pontos positivos
- Visuais competentes
- Performance sólida
- Ótimas mecânicas e físicas nas corridas
- Muito conteúdo
Pontos negativos
- Narrativa fraquíssima
- Modos arcade simplesmente não funcionam
- Narrativa
- Mecânicas
- Conteúdo
- Performance
- Visuais
- Trilha Sonora
