De maneira geral, jogos de esportes se encaixam em uma de duas filosofias opostas. De um lado, temos jogos que prezam pela simulação do esporte real, buscando oferecer um simulacro ipsis-litteris, no qual todas as regras são transpostas com o maior grau de assertividade possível. Em um ponto totalmente oposto, temos jogos de esportes com abordagem mais arcade, que não apenas não se importam em entregar uma versão “fiel” do esporte de origem, mas que muitas vezes subvertem regras e as possibilidades originais, acrescentados poderes, habilidades especiais e outras maluquices..
É nessa segunda categoria onde se encaixam todos os jogos de esporte protagonizados por Mario e sua turma. Seja basquete, golfe ou tênis (sem contar as diversas modalidades dos jogos Olímpicos), um novo jogo de esportes do Mario é lançado a cada dois ou três anos, em média. A base costuma ser a mesma: pegue as regras básicas do esporte, substitua os jogadores pelos personagens do universo Mario, e acrescente alguns superpoderes para deixar tudo mais caótico e… Pronto! Temos aí a fórmula básica que é repetida de tempos em tempos, com maior e menor grau.

Marcando o início da série de esportes do Mario no Nintendo Switch 2, Mario Tennis Fever chega ao novo console da Nintendo com a missão de superar o seu predecessor, Mario Tennis Aces, que tinha sido lançado no Switch 1 em 2018. Trazendo o maior elenco já visto em um jogo de esportes do Mario, e incorporando uma mecânica inteiramente nova por meio de raquetes únicas, com poderes especiais, Mario Tennis Fever tem tudo para ser o jogo de tênis definitivo. Porém, diante do seu preço elevado, será que o jogo vale mesmo a pena?
Febre de vitórias
Logo de cara, uma das primeiras coisas que chama a atenção em Mario Tennis Fever é como o jogo corrigiu um dos maiores problemas dos jogos de esportes da era Nintendo Switch 1. No caso, quem jogou Mario Tennis Aces, Mario Golf Rush ou Mario Strikers: Battle League deve se lembrar de como esses jogos pareciam meio incompletos durante o lançamento. Todos eles receberam updates gratuítos adicionando personagens extras e outras coisas, mas a impressão que dava era que esse conteúdo extra deveria estar incluído no jogo desde o lançamento.

Mario Tennis Fever não apenas parece muito completo logo desde o lançamento, mas o jogo apresenta uma quantidade bastante expressiva de conteúdo em seus diversos modos. Para começo de conversa, seus 38 personagens jogáveis (cada um com suas características específicas) e 31 raquetes (que também trazem poderes únicos) transformam Mario Tennis Fever em um jogo com opções vastas e surpreendentes de gameplay. Soma-se a isso os diversos modos de jogo, incluindo Modo Aventura, torneios, desafios, gincanas, dentre outros.
Isso significa que, em termos de conteúdo, Mario Tennis Fever oferece diversas opções para jogadores de todos os tipos. Se você for um jogador mais casual e busca uma experiência meio “party game”, Fever oferece opções de jogo rápido, além de desafios que subvertem um pouco as regras do jogo. Caso você seja um jogador mais hardcore, é possível galgar rankings nos modos online, ou ainda gastar algumas dezenas de horas desbloqueando todos os personagens, raquetes e completando desafios de arrancar os cabelos.

Saibro Smash Bros. Ultimate
O que torna todas essas opções de jogo interessantes é a maneira como Mario Tennis Fever oferece um gameplay básico extremamente competente e de fácil acesso, ao mesmo tempo em que implementa mecânicas que podem se tornar bastante complexas e competitivas. Como eu disse anteriormente, caso você queira jogar Mario Tennis Fever como um party-game, é possível abrir o jogo com amigos, escolher as raquetes mais malucas e se divertir bastante com o caos de cada partida.
Ao mesmo tempo, caso você queria dominar as mecânicas do jogo para explorar os modos competitivos, Mario Tennis Fever pode te surpreender. Com uma gama de jogadas muito variadas (incluindo spins, golpes fortes, deixadinhas e outras jogadas mais complexas), é possível encarar Fever quase como um jogo de luta, onde o timing, execução e conhecimento de jogadas específicas podem virar o jogo a qualquer momento.

O mais surpreendente é que esses são apenas os elementos mais básicos de jogabilidade de Mario Tennis Fever. Quando você coloca os personagens e as raquetes únicas na equação, tudo se torna ainda mais complexo, já que cada um deles apresenta um efeito especial. As raquetes, por sua vez, são um show à parte, já que podem trazer elementos de gelo, fogo, vento, ou ainda efeitos mais complexos, que podem atrapalhar enormemente o inimigo. A grande sacada está também em como o jogo balanceia isso, já que mesmo os Golpes Eufóricos das raquetes podem ser rebatidos de volta ao seu oponente, criando momentos de “batata quente” muito divertidos.
Nesse sentido, Mario Tennis Fever também corrige outro problema de Mario Tennis Aces: o KO instantâneo. No caso, os personagens de Mario Tennis Fever possuem uma barra de vida, que pode chegar a zero se você for atingido por muitos golpes especiais. Diferente de Aces, contudo, onde um KO significava o fim da partida, em Fever é possível ficar um tempo fora do jogo e ainda retomar com o intuito de virar o jogo. Isso cria uma experiência mais balanceada e menos frustrante.

Querida, encolhi os bebês
Embora Mario Tennis Fever apresente todos esses aspectos muito positivos, nem tudo são flores. Para mim, a maior decepção do jogo ficou relegada justamente ao seu Modo Aventura. O que poderia ser o melhor e mais interessante conteúdo single-player do jogo, acabou decepcionando enormemente por sua duração curta, composta em sua maioria por um conteúdo repetitivo e desinteressante.
Em termos de história (não que eu esperasse muito em um jogo de esporte do Mario), o Modo Aventura de Mario Tennis Fever envolve uma misteriosa ilha com criaturas que transformaram Mario, Luigi, Princesa Peach, Wario e Walluigi em bebês. O objetivo da trupe é recuperar sua energia esportiva e dar um jeito de recuperar a forma adulta de toda a turma do Mario.

O maior problema desse modo está em como ele escolheu estruturar essa aventura. Com essa desculpa de recuperar as energias dos personagens bebês, o modo se configura como um longo e lento tutorial que, por um lado, realmente apresenta e ensina cada um dos movimentos e controles do jogo, porém ele o faz de uma maneira lenta e tediosa.
Eu terminei a aventura com 4 horas e meia, e 2 dessas horas foram gastas em uma academia de tênis, onde você precisa ir de um lado a outro do mapa, conversando com Toads e fazendo minigames bobinhos. Terminada essa parte, o Modo Aventura até que se torna mais interessante, pois (perdão pelo trocadilho) a aventura começa de vez, e você utiliza todos os controles e poderes do tênis para lidar com criaturas e situações bastante variadas. Infelizmente, a parte mais divertida do Modo Aventura acaba rápido, deixando só um gostinho de “tempo perdido”.

Falando a minha língua
Para além do modo história fraco, Mario Tennis Fever oferece diversas opções de jogo que são muito, muito divertidas. Os torneios permitem partidas mais diretas, com diferentes níveis de dificuldade. As Torres de Desafio lembram algo tirado do Mortal Kombat, mas aqui você precisa completar uma série de desafios únicos em sequência. Termine as três torres e você libera mais cem desafios únicos. Já os modos de gincana, por sua vez, trazem regras e estruturas únicas, como um modo de ganhar pontos por meio de argolas, ou ainda mapas que são afetados por efeitos malucos à lá Super Mario Bros. Wonder.
De todos esses modos extras, o único mais fraquinho é o Modo Realista, que consiste em uma opção que te permite utilizar os controles de movimento do Joy-Con 2. Quem já jogou um jogo de esporte da era do Nintendo Wii vai se sentir em casa, já que nesse modo você precisa balançar o Joy-Con como uma raquete para desferir os movimentos de jogo. Todavia, é uma modalidade menos precisa do que eu gostaria. Em termos de modos online, Mario Tennis Fever funciona surpreendentemente bem, e é possível competir contra amigos ou estranhos ao redor do mundo todo.

Toda essa experiência é apresentada por meio de um estilo artístico bastante competente, embora não se destaque muito por retirar o poder máximo do Nintendo Switch 2. Claro, a performance é incólume, já que o jogo roda a 60fps com uma resolução ideal, mas os modelos, efeitos e cenários no geral não soam como algo que não poderia rodar no Nintendo Switch 1, por exemplo. Em outras palavras, não há aquele sentimento de “nova geração”.
Apesar disso, vale destacar o trabalho primoroso de localização feito em Mario Tennis Fever, que mostra que, quando a Nintendo quer, ela consegue não apenas traduzir seus jogos, mas também adaptar todos os seus elementos à nossa realidade. Além de um texto divertido, cheio de trocadilhos bem-adaptados, Mario Tennis Fever conta com uma boa dublagem, que inclui não apenas o narrador das partidas, como também as Flores Tagarelas que retornam de Super Mario Bros. Wonder para pontuar os principais acontecimentos de cada modo de jogo.

Review de Mario Tennis Fever — Mecanicamente delicioso
Quando comparado com os jogos de esporte anteriores da franquia Mario, Mario Tennis Fever destaca-se enormemente graças à quantidade impressionante de conteúdo já disponível desde o seu lançamento. É uma pena que, em meio a esse conteúdo fantástico, o Modo Aventura seja curto e decepcionante. Porém, caso você seja um jogador que gosta de explorar tudo o que um jogo tem a oferecer, Mario Tennis Fever torna-se uma opção de jogo de esporte arcade bastante interessante.
É preciso, todavia, sempre adereçar um elefante branco que está presente quando falamos de um lançamento first-party da Nintendo como esse: seu preço. Como outros jogos exclusivos do Nintendo Switch 2, Mario Tennis Fever chega às lojas com o preço sugerido de R$ 439,90. Considerando o escopo do jogo e o conteúdo que o pacote tem a oferecer, é complicado indicar esse jogo em seu valor cheio. A qualidade está presente aqui, mas o seu patamar de preço é incompatível com a realidade do gamer Brasileiro.

Diante de uma promoção ou um preço mais acessível em sua mídia física, Mario Tennis Fever se torna sim um pacote atrativo, principalmente quando levamos em conta o quão refinadas e surpreendentemente profundas são suas mecânicas básicas. Caso você tenha jogado outros jogos de esporte do Mario e queira algo novo, Mario Tennis Fever é, sem sombra de dúvidas, uma das melhores opções dos últimos anos.
PS: A análise foi feita em um Nintendo Switch 2 através de uma cópia cedida pela Nintendo.
Mario Tennis Fever melhora muito das arestas presentes nos jogos de esporte anteriores da série Mario, e apresenta muito conteúdo logo de cara. Embora o seu Modo Aventura deixe muito a desejar, o jogo apresenta mecânicas divertidas, com uma profundade surpreendente, além de diversos modos adicionais de jogo.
Pontos positivos
- Controles divertidos e acessíveis
- Bastante profundidade de gameplay
- Vários modos de jogo, personagens e raquetes
- Localização e dublagem em pt-br
Pontos negativos
- O modo aventura é fraco e curto
- Controles de movimento limitados e pouco práticos
- Preço incompatível com a nossa realidade
- Modo Aventura
- Mecânicas
- Conteúdo
- Performance
- Visuais
- Trilha Sonora
