Ao longo de mais de duas décadas jogando videogame, aprendi uma coisa importante: nostalgia engana. Ela suaviza defeitos, transforma limitações técnicas em charme e nos faz esquecer problemas que, hoje, seriam difíceis de ignorar.
Por isso, quando Tales of Berseria ganhou uma versão remasterizada, minha reação foi imediata: empolgação e receio na mesma proporção. Empolgação porque Berseria é facilmente um dos meus favoritos da franquia. Receio porque nem toda remasterização entende o que precisa evoluir.
O Berseria original já era um pouco divisivo quando foi lançado, vamos assumir. Enquanto boa parte da série ainda apostava em heróis esperançosos tentando salvar o mundo, Velvet Crowe surgiu como uma protagonista movida por ódio, luto e vingança que não queria redenção nem aprovação, mas sim destruir quem arruinou sua vida.

Essa mudança de tom redefiniu a identidade da obra e entregou uma das personagens mais interessantes dos JRPGs modernos. Mas, ao mesmo tempo, diversas alterações na abordagem e no fluxo da jogabilidade preocuparam fãs de longa data, mesmo o jogo se tornando um sucesso absoluto de críticas. Bom, e agora temos Tales of Berseria Remastered…
De volta àquele mundo
Revisitar essa história hoje é como abrir um diário antigo. Você já conhece os diálogos marcantes, já sabe para onde a trama caminha, mas o impacto geral se mantém. A narrativa continua madura, desconfortável em vários momentos e surpreendentemente humana. Enquanto isso, o elenco segue sendo um dos melhores da franquia.
Eizen carrega sua filosofia sobre azar e liberdade com uma presença forte. Rokurou representa honra e obsessão por combate. Magilou vai muito além do alívio cômico e revela camadas de ironia e consciência. Laphicet cresce de forma orgânica, deixando de ser frágil para se tornar essencial. Eleanor vive um conflito moral constante entre dever e empatia. E no centro de tudo, Velvet permanece imperfeita, questionando suas próprias decisões enquanto avança por um mundo cruel.

Narrativamente, Berseria envelheceu muito bem. O problema é que a remasterização praticamente não mexe nisso; nem para melhorar, nem para expandir. E aí surge o primeiro ponto delicado: visualmente, o jogo é quase idêntico ao original. Texturas e modelos pouco evoluíram, as animações seguem iguais e o estilo artístico permanece intacto, o que não é ruim, mas também não convence.
O popping ambiental, inclusive, é um novo problema, com vegetação e elementos de cenário surgindo abruptamente na tela. Em 2016, falhas como essa são possíveis de relevar. Hoje, chama a atenção. Isso não chega a comprometer a experiência, mas reforça a sensação de que estamos diante do mesmo jogo de quase uma década atrás, agora sem tanto capricho e carinho.

Além disso, a estrutura de mundo permanece extremamente linear. Berseria sempre foi direto, mas revisitar seus corredores longos e dungeons repetitivas reforça essa limitação. Um novo recurso adiciona ícones de direcionamento que apontam o objetivo principal, porém nem sempre funcionam de forma consistente. E como o backtracking ainda é absurdo, essas questões pesam principalmente para quem já fez 100% no passado.
Uma pausa das reclamações… por enquanto
Por outro lado, há melhorias de qualidade de vida que realmente ajudam Tales of Berseria Remastered. A viagem rápida pelas ilhas é mais simples e menos burocrática, sendo possível desativar encontros com inimigos nos mapas ou impedir que monstros fracos interrompam a exploração. Considerando a quantidade de vai e vem, essa opção muda bastante as coisas.
Outra adição relevante é a loja de grau disponível desde o início. Para veteranos, isso representa liberdade imediata, permitindo ativar modificadores que aumentam experiência, dinheiro, proficiência de equipamento e mais desde o primeiro segundo; tudo em uma campanha mais personalizável e focada em história.

No campo do combate, tudo permanece relativamente sólido… mas também inalterado. O sistema de Artes (Ars) continua flexível e profundo, e é possível configurar até 16 ataques, combinando artes físicas, ocultas e místicas. Enquanto isso, o Soul Gauge regula o número de ações encadeadas e as Break Souls adicionam habilidades únicas para cada personagem. Esses aspectos são visualmente marcantes, mas não demoram para se tornarem repetitivos.
Cada membro do grupo mantém identidade própria em Tales of Berseria Remastered. Velvet ativa um estado demoníaco que aumenta dano, mas consome sua vida, Magilou absorve feitiços, Eleanor alterna entre físico e magia, Eizen pode assumir traços dracônicos… e isso é apenas a superfície. Como você pode alternar entre personagens controláveis durante o combate, aqui temos o primeiro ar de variedade, mas nada que impressione ou torne as coisas realmente diferentes.
Estão fazendo de tudo para facilitar
A impressão que fica é que a Bandai Namco prestou muita atenção no feedback dos jogadores e focou quase todas as melhores de Tales of Berseria Remastered em facilitar o jogo. Mas mesmo com essa proposta, algumas coisas continuam complexas demais e bem inconvenientes.
O jogo sempre foi acessível de certa forma, mas nesta versão a campanha se mantém extremamente fácil. Durante dezenas de horas, raramente há necessidade de usar estratégias avançadas ou de perder tempo montando build. Mesmo caçadas de alto ranking ou encontros “perigosos” sequer assustam ou te fazem pensar duas vezes. Com isso, o jogo se torna muito cansativo a partir do terceiro ato.

Outro ponto que poderia ter recebido atenção em Tales of Berseria Remastered é a enxurrada de tutoriais. Embora agora estejam totalmente localizados em português do Brasil (o que é um avanço enorme) a quantidade de explicações continua excessiva. Em vez de sintetizar as mecânicas, o jogo insiste em apresentar novas telas informativas ao longo de muitas, mas muitas horas.
Falando em localização, esse é um dos grandes méritos da remasterização. Pela primeira vez, textos e menus estão totalmente em português do Brasil. Considerando que Berseria é recheado de discussões filosóficas e conflitos ideológicos, poder acompanhar tudo no nosso idioma permite se conectar mais com a história.
Tales of Berseria Remastered vale seu tempo e grana?
No fim, Tales of Berseria Remastered funciona mais como preservação do que como reinvenção. Ele mantém intactos seus maiores acertos: narrativa madura, personagens carismáticos e combate com boa profundidade. No entanto, também mantém seus problemas: mundo linear, dungeons repetitivas, visual datado e falta de desafio.
Se você nunca jogou, esta é a melhor versão para começar, não há como negar isso. Agora, se já viveu essa jornada, a experiência será mais nostálgica do que transformadora. Berseria continua relevante, mas a remasterização optou por não evoluir. E talvez isso diga tanto sobre a indústria atual quanto sobre o próprio jogo.
Tales of Berseria Remastered mantém a essência de um dos maiores RPGs da década passada, mas precisa de muito mais para convencer as pessoas a pagarem o preço cheio.
Pontos positivos
- Jogabilidade agradável e acessível
- Novas configurações de jogo tornam a aventura mais convidativa
- Essência do jogo original é mantida
- Boa quantidade de conteúdos, sejam originais ou inéditos
- Skins adicionais homenageiam bem a franquia
- Versão conta com legendas em português do Brasil
Pontos negativos
- Sem mudanças gráficas notáveis
- Sem ajustes de refinamento do gameplay
- Falhas técnicas com quedas de FPS e popping ambientais
- Ritmo linear e lento de jogo continua cansativo
- História
- Jogabilidade
- Desempenho
- Som
- Diversão
- Visuais