De modo geral, eu diria que sempre que termino um jogo de videogame, costuma acontecer uma de duas coisas: se o jogo possui algum tipo de conteúdo pós-game interessante, e o seu gameplay é divertido, eu costumo continuar jogando até terminar as side-quests (ou até enjoar); agora, se é um jogo mais narrativo, daqueles que se encerram assim que sua história termina, eu costumo simplesmente desligar, desinstalar o jogo, e seguir para o próximo. OPUS: Prism Peak foi um pouco diferente, nesse sentido. Embora seja um desses jogos com grande foco narrativo, ele apresentou um tipo de experiência que continuou na minha cabeça um bom tempo depois de eu terminá-lo.
Isso aconteceu devido à combinação única de elementos do jogo, com destaques para sua direção de arte extremamente singular, e uma abordagem muito única em termos de narrativa. Mais do que contar uma história com começo, meio e fim, OPUS: Prism Peak coloca o jogador como um construtor ativo de uma narrativa que, às vezes, mais parece um grande e caleidoscópico puzzle. É um jogo que me deixou com muitas perguntas, mesmo após os créditos finais — e digo isso da maneira mais positiva possível.

Antes de entrar em mais detalhes, contudo, acho importante dar um passo para trás e contextualizar melhor o que é OPUS: Prism Peak. Criado pelo estúdio independente Taiwanês SIGONO, e publicado pela Shueisha Games, OPUS: Prism Peak é o quarto título de uma série de jogos narrativos. Antes que você pergunte: não, não é preciso jogar qualquer um dos títulos anteriores para apreciar OPUS: Prism Peak, pois o título é totalmente independente, e se distancia bastante de seus predecessores.
Nesse aspecto, OPUS: Prism Peak se difere até mesmo em temática. OPUS: The Day We Found Earth, OPUS: Rocket of Whispers e OPUS: Echo of Starsong são basicamente novelas visuais (aquele tipo de jogo narrativo praticamente desprovido de mecânicas) com um grande foco em cenários e narrativas de ficção científica. Além de apresentar mais mecânicas e elementos de gameplay, OPUS: Prism Peak também muda o seu gênero narrativo com um todo, já que abandona o setting sci-fi para explorar uma história de fantasia envolvendo espíritos e animais antropomorfizados.

A viagem de Chihiro Eugene
Nessa narrativa, que dura cerca de 9 horas, você controla Eugene, um fotógrafo jornalístico que se encontra em um mundo mágico e estranho após um acidente de carro. Neste universo em que elementos do mundo real se mesclam à personagens e acontecimentos fantástico, Eugene decide ajudar Ren, uma cativante garota sem memórias, a chegar a sua casa, que fica no topo de uma gigantesca montanha.
Em termos de estrutura, o jogo é constituído por uma jornada bastante linear, durante a qual Eugene e Ren precisarão atravessar o mundo mágico das “Dusklands”, enquanto ajudam diferentes espíritos no decorrer do seu caminho. Esses espíritos, por sua vez, assumem a forma de diferentes animais, formas essas que refletem diferentes aspectos da sua personalidade, bem como do seu background e verdadeiro papel na vida e aventura de Eugene.

É fácil traçar paralelos entre a narrativa apresentada em OPUS: Prism Peak e filmes consagrados do Estúdio Gibli, como A Viagem de Chihiro. A vibe geral que o jogo passa (tanto em termos visuais, como em batidas narrativas) lembra muito algumas das fantásticas histórias de Hayao Miyazaki e sua equipe. A maior diferença está no papel do jogador em desenovelar o grande emaranhado narrativo de OPUS.
Digo isso, pois a narrativa de OPUS: Prism Peak é composta por diferentes camadas, algumas das quais precisam ser preenchidas pelo jogador tanto em termos mecânicos, quanto em ligações mentais relacionadas aos personagens e acontecimentos da vida de Eugene. Dentro do jogo, isso toma forma como um caderno de anotações, que o jogador precisa preencher com fotos, frases e outras informações que você passa a adquirir ao longo da narrativa.

Magnus Opus?
Essa estrutura focada em puzzle narrativo é, ao mesmo tempo, uma das maiores forças e também uma das poucas fraquezas de OPUS: Prism Peak. Diferente de outros tipos de jogos narrativos que entregam “de mão beijada” os maiores mistérios e batidas narrativas de sua trama, Prism Peak deixa ao cargo do jogador ligar os pontos e preencher o caderno de anotações de Eugene. Diferentes sessões, como páginas a respeito dos espíritos, lendas sobre a criação das Dusklands e até mesmo um alfabeto próprio compartilhado pelos habitantes desse lugar precisam ser preenchidos pelo jogador com as informações que você coleta ao longo do jogo.
O ponto negativo dessa estrutura está relacionada às forças e fraquezas de cada subplot apresentado em Prism Peak. Embora o trabalho mental de montar as peças narrativas do jogo seja bastante divertido, é um pouco frustrante passar boa parte do jogo questionando quem são determinados personagens, quais são seus papéis na trama, para chegar no final de descobrir que suas participações são, na realidade, pouco interessantes ou relevantes para o que Eugene e Ren precisam vivenciar.

É preciso dizer, contudo, que OPUS: Prism Peak apresenta diversas subtramas (além, é claro, do grande arco narrativo geral), e a maior parte de suas batidas narrativas são sim bastante interessantes. Mais do que isso, é interessante como o jogo expressa todo esse quebra-cabeça narrativo em forma de mecânicas. Como mencionei anteriormente, Eugene é um fotógrafo, e sua câmera é uma das principais ferramentas nessa grande aventura fantástica.
Pode parecer simples, mas o ato de “tirar fotos” é explorado de diversas maneiras por OPUS: Prism Peak. Identificar pontos de interesse, bem como os momentos certos de tirar determinadas fotos que servem como essas “peças” para os quebra-cabeças narrativos, é deveras interessante. Personagens podem pedir fotos específicas por meio de enigmas, e descobri-los em sua totalidade é uma tarefa divertida durante o jogo como um todo. O único revés é que é muito fácil perder fotos importantes em uma primeira run, o que pode deixar caminhos narrativos sem conclusões.

Uma bela foto fora de foco
Em termos de apresentação, OPUS: Prism Peak se sobressai enormemente tanto em relação aos seus visuais, quanto sua trilha sonora. O mundo mágico de Dusklands é representado em um estilo artístico cel-shaded que brilha graças ao fantástico uso de cores, bem como a superexposição de elementos comuns e fantásticos. Uma fábrica abandonada construída no topo de um enorme boi, uma estação de trem guardada por uma cachorra rabugenta e uma cidade habitada por sombras sussurrantes são apenas alguns dos belos cenários do jogo.
Infelizmente, contudo, toda essa beleza tem um certo custo, pois a performance no Nintendo Switch 2 deixa a desejar em algumas áreas. Por mais que o jogo seja muito bonito, apresentando uma resolução tanto no modo portátil, quanto na TV, algumas áreas são impactadas por quedas notáveis na taxa de quadros, dando a impressão de que o jogo está rodando lentamente em momentos específicos.

Além disso, também encontrei alguns pequenos bugs durante a minha aventura, como modelos de personagem que “piscam” em posições diferentes conforme você entra ou sai daquele cenário, ou ainda um estranho segmento em que a tela toda ficou preta e verde durante alguns segundos. A desenvolvedora já fez postagens se mostrando cientes de tais problemas, e prometeram lançar patches com correções tanto para o Nintendo Switch 1 quanto o Nintendo Switch 2, então talvez o jogo esteja em melhores condições em alguns meses.
O último “problema” que eu comentaria a respeito de OPUS: Prism Peak está relacionado a uma barreira específica para nós, brasileiros: a ausência de localização na nossa língua. A narrativa do jogo é bastante profunda, com muitos termos próprios que são criados para descrever o mundo das Dusklands e seus habitantes. Consequentemente, aproveitar o que há de melhor no jogo (sua narrativa) pode ser um desafio e tanto para alguém que não seja totalmente fluente na língua inglesa.

Review de OPUS: Prism Peak — um puzzle narrativo excelente, apesar de algumas barreiras
Se tratando de jogos narrativos, poucos jogos oferecem uma experiência similar ao que você encontra em OPUS: Prism Peak. Com um estilo artístico impressionante, ele apresenta uma narrativa profunda, que funciona como um quebra-cabeças que precisa ser completado pelo jogador. Embora nem todas as peças que o compõem sejam incríveis, esse foi um dos jogos mais marcantes que eu joguei esse ano, e me deixou pensativo durante muito tempo após sua conclusão.
Caso a barreira de idioma não seja um problema para você, e você não seja muito sensível a alguns pequenos engasgos e bugs aqui e ali, eu diria que OPUS: Prism Peak é um jogo que vale muito a pena ser testado. Para quem gosta dos filmes e narrativas apresentadas pelo Estúdio Gibli, esse é um jogo imperdível.
PS: A análise foi feita em um Nintendo Switch 2 através de uma cópia cedida pela Shueisha Games.
OPUS: Prism Peak é um jogo narrativo diferente do convencional, onde você precisa utilizar uma câmera para tirar fotos e completar um grande puzzle narrativo na forma de um livro de anotações. Apesar de alguns problemas técnicos e subplots menos interessantes, é um jogo feito para quem ama os filmes do Estúdio Gibli.
Pontos positivos
- Trilha e visuais incríveis
- A narrativa é basicamente um puzzle pra ser desvendado
- Personagens interessantes
- Trama principal fica com você após os créditos
Pontos negativos
- Bugs e problemas técnicos
- Alguns subplots menos interessantes
- Ausência de localização
- Narrativa
- Jogabilidade
- Desempenho
- Direção de arte
- Som
