A era do Nintendo Wii foi impactante por diversos motivos, e deixou marcas que se mantiveram presentes em boa parte dos jogos da Nintendo desde então. Alguns exemplos são os controles de movimento que viraram febre na indústria durante um bom tempo, e os igualmente esquisitinhos e carismáticos Miis — avatares criados pelo jogador que estavam presentes em jogos como Wii Sports, Super Smash Bros. e até mesmo Mario Kart 8. Tomodachi Life: Living the Dream é o mais recente jogo a ser protagonizado pelos Miis, e promete trazer uma experiência muito única ao Switch 1 e 2.
Embora possa parecer algo muito diferente de tudo o que a Nintendo tem oferecido em seu console híbrido, vale informar àqueles que não saibam que Tomodachi Life: Living the Dream é, na realidade, a mais nova sequência de uma série que surpreendentemente já possuía três títulos anteriormente. Tomodachi Collection (lançado apenas no Japão para DS em 2009), Tomodachi Life de 3DS (2013) e o jogo mobile Miitomo (2016) são os títulos anteriores dessa série cuja proposta é criar um simulador de vida utilizando os Miis como protagonista.

Para aqueles que já jogaram algum jogo anterior da franquia, Tomodachi Life: Living the Dream pode se configurar como uma sequência segura, cuja proposta é basicamente expandir tudo aquilo que a série fez anteriormente. Com mais opções de customização tanto para os Miis quanto para a sua ilha, com opções mais diversificadas (e engraçadas) de falas e interações, e com um número absurdo de itens, personagens e detalhes que podem ser colocados na tela ao mesmo tempo, Tomodachi Life: Living the Dream promete a melhor experiência na franquia.
Porém, a pergunta que muitas pessoas devem se fazer ao ver qualquer imagem ou vídeo de Tomodachi Life: Living the Dream é: essa franquia é pra mim? E a resposta é complexa, já que diferente de um jogo mais convencional, Tomodachi Life tem um senso de progressão, estilo e, principalmente, humor, muito, mas muito particulares. De antemão, já adianto que esse é um daqueles jogos ame-ou-odeie. É fácil entender que muita gente pode se apaixonar pela experiência esquisita oferecida por esse jogo, ao mesmo tempo em que isso pode afastar muitos jogadores.

Vivendo o sonho dos Miis
Para começo de conversa, eu acho que é até mesmo meio difícil responder à pergunta “o que é Tomodachi Life?”, porque esse é um jogo que é muito diferente de qualquer outro título do mercado. A comparação que pode fazer mais sentido é aproximá-lo a um jogo como The Sims, pois Tomodachi Life: Living the Dream pode ser encarado à primeira vista como um jogo de simulação da vida dos Miis, durante o qual pode customizar suas aparências, suas casas (e a ilha), suas roupas, enquanto você tenta mantê-los felizes e saciados.
A grande coisa de Tomodachi Life: Living the Dream, que o difere enormemente de todo e qualquer jogo, está em justamente como os Miis funcionam como essas criaturinhas esquisitas, engraçadas e altamente customizáveis. Desde o início, é você que cria cada um dos habitantes da sua ilha (e é possível ter um total de 70 deles!), incluindo sua aparência, personalidade, e até mesmo voz.
É aqui que entra outro elemento muito próprio de Tomodachi Life: esse é um jogo que trabalha com um sistema de text-to-speech. Esse é um tipo de tecnologia que está presente desde os jogos anteriores, que permite que o texto que aparece na tela seja “dublado por um robô”. Isso é utilizado tanto para acrescentar uma personalidade própria aos Miis e ao jogo, quanto como um sistema que incentiva um humor e comédia próprios.
A grande sacada da Nintendo com esse sistema está no modo como ele permite que você, o jogador, consiga alimentar o jogo com seu próprio vocabulário. Os Miis conversam, dialogam, brigam, discutem, e é o jogador que pode criar as principais palavras que serão utilizadas nessas interações. Com isso, o sistema de text-to-speech do jogo vai ditar qualquer coisa que você escrever, alimentando um sistema que pode ser tão engraçado quanto a sua imaginação permitir.

O humor é uma faca de dois legumes
Eu acredito que aqui esteja justamente o aspecto de Tomodachi Life: Living the Dream que possa ser fundamental para o seu aproveitamento. No final das contas, esse é um dos raros jogos que se propõem a ser quase que inteiramente a respeito de comédia. E, por possuir um tipo de humor muitas vezes bobo ou nonsense, é possível que você ame ou odeie tudo o que Tomodachi Life se propõe a fazer.
Particularmente, eu acho a maior parte das interações do jogo extremamente divertidas. Se você tem um “humor de quinta-série”, você pode ajudar a criar situações hilárias ao fazer dois Miis conversarem a respeito do seu tipo de peido favorito. Ou, ainda, você frequentemente verá cenas do “Mii News”, um telejornal diário que trará notícias a respeito de Miis publicando livros sobre fotos tiradas com comidas. Ou, por fim, você será testemunha de um triângulo amoroso dando super errado.
De modo geral, essas interações todas tem uma vibe exagerada e nonsense, próximas do que a gente encontra nos jogos da série WarioWare, por exemplo. É um tipo de humor que pode não ser para todo mundo, mas que soa muito “fresco” em tempos atuais, já que é muito difícil vermos quaisquer jogos sequer tentar focar em experiências mais comidas desse tipo.
Há, contudo, alguns pequenos problemas que surgem dos temas e do tipo de humor de Tomodachi Life: Living the Dream. Em primeiro lugar, não há muita substância (ou narrativa) para além do humor e dessas situações de “simulação de vida”. Quem busca uma história ou campanha pode ficar na mão, já que o jogo é um verdadeiro sandbox, nesse sentido. Além disso, as interações mais frequentes podem se tornar repetitivas, já que pode ocorrer rapidamente de você ver uma interação pela segunda ou terceira vez.

Uma caixinha de areia em forma de ilha
O que Tomodachi Life: Living the Dream oferece para amenizar um pouco a possível repetição é um palco absurdamente customizável, que pode se tornar uma ferramenta poderosa na mão de jogadores criativos, que gostam de jogos onde eles podem se expressar.
Basicamente, você pode editar quase todos os aspectos da sua ilha e dos personagens que nela habitam. Terreno, objetos, prédios e outros elementos podem ser realocados a qualquer momento, desde que você tenha os recursos necessários para isso. Nesse sentido, inclusive, o jogo tem um sistema de meta-progressão que funciona na base da felicidade dos seus Miis.
Resumidamente, tudo o que você fizer para um Mii, como dar uma comida que ele goste, participar de um mini-game com ele, ou ainda ajudá-lo a criar uma nova amizade (ou finalmente se declarar para aquele crush) é recompensado com pontos de felicidade, que evoluem tanto aquele Mii individualmente, quanto a ilha como um todo. Ao melhorar um Mii, você pode presenteá-lo com um “little quirk” (uma característica que o tornará mais único), ou um objeto interativo. Ao melhorar a ilha, por sua vez, você pode liberar novos terrenos, construções ou outros elementos.
Do sistema de criação de Miis ao sistema de edição da ilha, a liberdade que Tomodachi Life: Living the Dream oferece é surpreendente. Se você tiver a paciência e habilidade o suficiente, é possível transpor as mais diversas pessoas para sua ilha, ou ainda construir verdadeiras metrópoles com os mais variados designs possíveis. O único ponto negativo desse aspecto, é que a Nintendo não permite que você compartilhe seus Miis ou criações online — só é possível fazê-lo localmente.

A beleza está nos olhos de quem vê
Em termos de apresentação, Tomodachi Life: Living the Dream é um caso curioso, pois ele é ao mesmo tempo muito bonito em alguns aspectos, mas propositalmente “tosco” em outros. A performance do jogo no Nintendo Switch 2 é perfeita, e ele não apresenta quaisquer engasgos, mesmo se você decidir encher sua ilha com 70 Miis e uma tonelada de objetos e itens de decoração.
Visualmente, contudo, ele me parece ser “tão bonito quanto poderia ser”, já que devido à sua mistura meio bizarra de elementos 2D e 3D, ele é um jogo visualmente esquisito — mas eu diria isso de uma maneira até que positiva. A tosqueira de ter um PNG hyper-detalhado de uma comida, por exemplo, sobreposto aos modelos 3D da ilha e dos personagens cria um efeito cômico, que pode funcionar muito bem, apesar das limitações.
A trilha sonora do jogo também faz um bom trabalho em pontuar os diferentes momentos do dia. Por falar nisso, aliás, vale ressaltar que Tomodachi Life: Living the Dream apresenta alguns elementos que estão atrelados ao tempo no mundo real. Seguindo a mesma cartilha de Animal Crossing e Pokémon Pokopia, o tempo do jogo segue o tempo do mundo real, o que faz com que você desbloqueie interações diferentes se você jogar de manhã, de tarde, ou de noite.
Um último aspecto limitando de Tomodachi Life: Living the Dream está na ausência de localização em português do Brasil. O sistema de text-to-speech do jogo é bastante livre, e permite que você escreva palavras em português para as interações dos Miis (que as lerão com um “sotaque” gringo), mas ter todos os textos pré-feitos em uma língua que não a nossa certamente limita o apelo do humor do jogo apenas àqueles que sejam fluentes em inglês.

Review de Tomodachi Life: Living the Dream — um simulador divertido, que não é pra todo mundo
Eu sei que é muito clichê dizer que um jogo “não é pra todo mundo”, mas Tomodachi Life: Living the Dream é quase que a epítome desse termo. Quando você considera que o jogo anterior da série, lançado no Nintendo 3DS, vendeu absurdos 6.7 milhões de cópias, não é nenhum exagero afirmar que essa série possui sim um apelo muito próprio, e certamente pode atingir um público muito amplo nas plataformas modernas da Nintendo.
Todavia, como um jogo muito focado no humor, cujo principal aspecto de progressão e gameplay estão intrinsecamente ligados às capacidades criativas do jogador, Tomodachi Life: Living the Dream é um jogo com um público bastante específico. Se você gosta do humor estilo WarioWare e gosta de experiências focadas no aspecto mais criativo, então esse certamente é um jogo que tem tudo para te agradar.
PS: A análise foi feita em um Nintendo Switch 2 através de uma cópia cedida pela Nintendo.
Tomodachi Life: Living the Dream traz os Miis de volta em uma experiência focada em customização e humor. É um jogo que vai agradar muito quem gosta de um humor bobo e nonsence, e que busca uma experiência à lá The Sims.
Pontos positivos
- Opções de customização gigantescas
- Engraçado e nonsense
- Criativo em todos os seus aspectos
Pontos negativos
- Sem opções de compartilhamento
- O humor não é pra todo mundo
- Ausência de localização
- Jogabilidade
- Desempenho
- Direação de Arte
- Som
