Em 2001, Inscryption foi lançado com a proposta de reunir card game e roguelike. Porém, não foi isso que chamou a atenção do game, mas sim um conceito visual muito particular, aliado a mecânicas de jogabilidade fáceis de aprender, mas difíceis de dominar.
Com o tempo, o deckbuilding ganhou mais força no mercado, em especial com o lançamento de Balatro. Tudo bem, ali não era um deckbuilding em si, mas uma abordagem bem única em cima do popular pôquer. Foi então que ficou a pergunta: por que não unir todos esses conceitos com os jogos de azar, mantendo essa pegada mais casual?
Praticamente resumimos apenas a superfície do que significa Black Jacket. O novo roguelike de cartas, que chega nesta semana aos consoles e PC (incluindo Day One Game Pass), faz referência a um dos gambling games mais populares de todos os tempos: o blackjack. Porém, nem de longe ele é tão básico quanto o jogo de cartas que conhecemos.
Um excelente projeto da Mi’pu’mi Games GmbH, o game é simplesmente viciante, carismático e sombrio, mas mantendo a pegada acessível e a jogabilidade intuitiva que fez seus primos distantes obterem lugares de respeito no cenário dos videogames.
Escape do submundo
Uma pessoa desconhecida, por motivos também desconhecidos, acaba preso no submundo. Acompanhando uma legião de almas perdidas, ela descobre que a única forma de sair dali é tendo moedas o suficiente para comprar sua passagem de volta com o Barqueiro.
Pra dar essa chance às almas, o reino criou um sistema de ganhos inteiramente baseado na sorte. Quem quiser fugir da escuridão, precisa vencer uma série de partidas de blackjack, mas dentro das próprias regras doentias e sempre em mudança criadas por alguém que não deseja ver ninguém escapando.

Como sua única opção é jogar, é necessário ver até que ponto dá pra chegar. Mas esse caminho não será fácil: almas perdidas, amaldiçoadas e outros mortos muito experientes em jogos de azar são obstáculos implacáveis… e você não pode desistir, mesmo que a vitória não venha.
Quantas moedas você deve ter pra comprar o bilhete com o Barqueiro? Será que esse jogo é feito pra que o tormento seja infinito? Sua sorte deve estar ao seu favor… Ou não.

Black Jacket é um jogo de cartas roguelike baseado no blackjack. Caso você não saiba, esse gambling game é tradicional em cassinos e em casas de aposta, exigindo que dois jogadores compitam enquanto abrem cartas até chegar na contagem 21, ou ao menos em uma contagem mais próxima desse número.
Há algumas regras padrão como cartas mais altas, possibilidades de empate, Blackjack (10 + às) e não ultrapassar o limite dos 21, mas no geral é um jogo de simples compreensão. Mas não vá contando com isso quanto ao Black Jacket, que transforma tudo que conhecemos em algo bem mais estratégico.

Quem jogou Balatro também se identificará com algumas mecânicas, como desbloqueio de baralhos por meio da progressão, muitos níveis de dificuldade e uma forte pegada na tentativa e erro, apesar do game indicado a Melhor Indie do Ano ser bem mais dependente da sorte. E quanto digo “bem mais”, é bem mais mesmo.
Quanto à campanha, Black Jacket leva cerca de 5h horas pra ser zerado, mas ainda há conteúdos de “epílogo”, digamos assim, para serem destravados. Cada run leva em média 50 minutos pra ser encerrada, e há histórias secundárias que são importantes para que se alcance o final verdadeiro.
Cartas na mesa
Entender como funciona Black Jacket é muito simples. É um jogo de turnos, onde cada um tem cinco espaços do seu lado da mesa e precisa preenchê-los de cartas até achar que é o momento de parar. Como se trata de um jogo de apostas, há moedas para ambos os oponentes, e elas vão para um pote ao fim das rodadas.
Você pode burlar esse sistema usando cartas especiais para fazer os adversários pagarem mais moedas por turno. Porém, seus oponentes também podem fazer isso, e cabe ao protagonista gerenciar seu baralho e aproveitar as mecânicas para evitar ser alvo desses “cheats”.

Assim como em Balatro, Black Jacket possui cartas especiais, chamadas de Despertadas, que ganham efeitos adicionais aleatórios. Eles incluem ver as primeiras cartas do baralho, descartar cartas, aumentar ou diminuir o valor de cartas selecionadas, aumentar o custo das jogadas e mais. Enquanto isso, decks únicos podem deixar os jogos mais complexos.
Ao longo da campanha, cumprir desafios destrava baralhos de queimadura, de digestão, de quebra e mais. O de queimadura, por exemplo, incendeia cartas suas e dos adversários, enquanto o de digestão “come” uma quantidade de cartas pra aumentar seu valor. Já o de quebra inverte a carga do número: uma carta de 9, por exemplo, vira -9.

E a partir desse momento, o jogo fica muito mais estratégico e matemático. Saber prever as próximas cartas por meio da Revelação, esconder cartas em sua Manga pra usar posteriormente, gastar moedas no momento certo pra forçar o oponente a gastar também… Todas essas ações são válidas, principalmente por saber que Black Jacket tem muitas reviravoltas.
Outro ponto importante diz respeito aos Artefatos. Eles são itens passivos ou ativos que podem mudar a dinâmica dos jogos, mexendo em basicamente todas as habilidades de forma a criar builds infinitas de baralhos. Os Artefatos podem ser comprados com moedas douradas após derrotar um chefe ou com moedas normais, caso você tenha suficiente (pois eles são caros).

A Loja, disponível aleatoriamente nas runs, também permite comprar outros tipos de cartas. Você pode gastar grana diretamente em um card já revelado e com efeitos diversos, bem como pode abrir um pack de um baralho específico e selecionar uma de quatro cartas novas.
Descubra a história dos chefes
O fluxo das runs em Black Jacket se parece muito com o de Inscryption. Linhas de progressão são criadas, e em muitas delas você precisa escolher qual caminho tomar. Ao fim de cada uma, há um chefão te esperando.
O jogo possui cinco chefes ao todo, sendo um deles secreto. Quer dizer, “secreto”. Cada boss tem habilidades únicas que alteram a dinâmica do jogo, mas mesmo elas estão no sistema roguelike: dependendo de em qual run você encontre esse chefe, seu poder pode ser diferente. Dessa forma, o jogo exige que você esteja sempre se adaptando.

Outro ponto interessante é o estímulo ao fator replay. Basicamente os chefes precisam ser derrotados seis vezes pra que se descubra toda a sua história. E mesmo perdendo você destrava diálogos adicionais que são lembrados no futuro; e não só por esses boss, mas por outros e pelo “guia” que te introduz aos sistemas de gameplay.
As histórias deles são muito interessantes e bem obscuras, sendo necessário um leve trabalho mental pra entender seus papeis ali no submundo. Infelizmente, elas não se aprofundam o suficiente pra que a narrativa geral se enriqueça, e muitas vezes deixam a impressão de que só existem ali como uma ou outra linha de roteiro.

Além disso, mesmo com uma belíssima estética visual em Black Jacket, a decisão por apresentar a história por power points dinâmicos não ajuda. Parece ser tudo muito curto e raso… e em um jogo onde temas sensíveis são explorados, há uma forte necessidade ao apelo narrativo; algo que se saiu muito bem em Inscryption.
Black Jacket é mais um diamante lapidado
Black Jacket foi uma surpresa muito agradável. Uma experiência viciante de jogo e nem de longe exploratória como o tradicional blackjack é. É um jogo totalmente single player, sem microtransações e que te dá todos os recursos necessários, mesmo que a sorte ainda seja um componente importante.
Com textos e menus e português do Brasil, muito fator replay e partidas curtas, mas sempre recompensadoras, o game tem de tudo pra ser aquele sucesso cult que nem muitos falam, mas quem fala, fala bem. E é algo merecido: com tantos card games por aí, investir em algo eficiente, original e caprichado merece palmas.
Infelizmente a história deixa a desejar mais pela falta de profundidade do que pelas decisões estéticas. Muito pelo contrário: o jogo é bem bonito em termos visuais e a dinamicidade das partidas, com efeitos, falas e sons, é absurda. Mas o roteiro poderia ser bem mais desenvolvido em todos os sentidos.
Ah, e vale lembrar que Black Jacket é Day One Game Pass hein? Então se você assina o serviço da Xbox, já vá logo instalando o game aí. Não vai se arrepender.
Inspirado em Inscryption, Black Jacket é um roguelike cheio de personalidade, com alto fator replay e sistemas de jogo acessíveis.
Pontos positivos
- Bela estética de jogo
- Sistemas de jogabilidade acessíveis
- Alto fator replay
- Progressão viciante
- Ótima trilha sonora
Pontos negativos
- História pouco desenvolvida
- História
- Desempenho
- Gráficos
- Som
- Jogabilidade