Nos últimos anos, os jogos de terror, especialmente indies, encontraram uma zona de conforto nos clássicos. Apostando na nostalgia e na familiaridade, estúdios investiram tudo em uma forma de modernizar a famosa estética retrô, mesmo que isso não acontecesse de forma completa.
Em outubro de 2025, a Tainted Pact mostrou como isso funciona na prática com o lançamento de Flesh Made Fear. O game de survival horror chegou ao PC repleto de elogios, com as análises “Muito positivas” mostrando que ainda há espaço pra projetos que busquem resgatar elementos da “era de ouro” dos videogames.
Agora, com a chegada do jogo aos consoles, finalmente tivemos a oportunidade de conhecer tudo isso. E, de fato, se trata de um título muito interessante em todos os sentidos, que sabe revitalizar onde é necessário e manter o que mais popularizou esse portfólio de jogos clássicos durante os anos 1990.
Um ou outro
Flesh Made Fear é uma homenagem aos jogos do PlayStation 1. Inspirado na trilogia Resident Evil, o game conta a história de sobrevivência da Reaper Intervention Platoon (R.I.P.), uma força de elite responsável por neutralizar Victor “The Dripper” Ripper, um ex-agente da CIA que usou sua genialidade pra transformar a cidade em um centro de mortos-vivos.
Porém, seus experimentos saíram do controle, e agora não basta só eliminá-lo. Com criaturas transformadas por todos os cantos de Rotwood, os militares precisam escapar de todo tipo de monstruosidade, bem como das armadilhas criadas por Ripper e que separaram os membros da R.I.P. assim que eles chegaram na cidade.

A missão não demora pra virar uma briga de gato e rato, onde no meio desses dois lados há uma ameaça sem precedentes e com potencial pra se tornar algo muito maior.
Flesh Made Fear é um título de ação e terror que resgata diversos elementos do survival horror clássico. Fãs do gênero podem esperar sistema de câmeras fixa, controles tanque, gerenciamento de inventário, progressão com backtracking e combate estratégico.

Tudo isso se mistura com algumas funcionalidades modernizadas, com destaque pros visuais em Full HD, trilha sonora remasterizada, combate corpo a corpo extremamente funcional e melhorias nos visuais dos personagens, especialmente quando se trata de texturas e de outras técnicas gráficas.
Uma das principais novidades de Flesh Made Fear também diz respeito à possibilidade de escolher entre duas campanhas: Natalie tem menos HP e mais espaço de inventário, enquanto Jack tem mais vida e menor inventário. Suas histórias são diferentes e apresentam novos personagens, eventos e mais, aumentando o fator replay.
Pense bem antes de atacar
Uma das questões que preciso comentar sobre Flesh Made Fear é o combate. Vemos aqui algo bastante evoluído em relação aos jogos dos anos 1990, com destaque pra maior eficiência dos tiros e pra versatilidade.
Ao longo da campanha, você consegue diversos tipos de armas de fogo, cada uma com seu próprio tipo de munição e com a possibilidade de criar mais por meio da combinação de itens. As munições, por sinal, são generosas no modo normal, mas por conta da limitação de itens e da falta de drops, é importante saber gerenciar. E pra isso, há uma opção.

O combate corpo a corpo em Flesh Made Fear foi feito de forma muito inteligente. Os personagens usam facas pra atacar os zumbis, precisando de apenas poucos golpes pra derrubá-los. Além disso, elas são importantes pro gerenciamento da arena, pois empurram os mortos-vivos pra longe, atacam vários ao mesmo tempo e são ágeis, mas muito ágeis.
Contra grupos, você não vai sobreviver. Mas pra escapar de armadilhas e poupar munição em momentos críticos, essa é a melhor alternativa. Óbvio que nem sempre ajuda, pois há inimigos que atacam muito rápido, como os parecidos com os lickers, chefões e uns monstros que viram espinhos ao se aproximarem, mas contra os zumbis padrão é essencial ter isso em mente.

Nesse sentido, o que mais atrapalha é a câmera fixa. Os movimentos tanque funcionam como uma espécie de híbrido entre os analógicos e as teclas digitais, mas as câmeras podem atrapalhar principalmente em áreas mais amplas. Nem sempre os zumbis tão à sua vista, e quando aparecem os mais rápidos é bem complicado sair sem tomar dano.
Sangrar faz mal
Um ponto legal em Flesh Made Fear é o sistema de tomar dano. Aqui, não vemos o HP convencional, mas sim uma bolsa de sangue que começa a decair quando o personagem entra em estágio de sangramento. Eles aguentam algumas porradas, mas caso você veja uma poça de sangue enquanto anda, fique de alerta ligado.
Como o jogo oferece recursos limitados (mesmo pra salvar, como aconteceu com o Ink Ribbon), as bandagens e bolsas de sangue nem de longe são infinitas. Assim, isso estimula ainda mais a saber quando e onde enfrentar os zumbis.
Puzzles, backtracking e alguns desafios injustos
Assim como os survival horror clássicos, Flesh Made Fear possui muitos quebra-cabeças ambientais, que vão desde códigos encontrados em documentos até itens que devem ser combinados. Prepare-se pra muito becktracking, mas dentro de um escopo menor devido à campanha do jogo ter umas 4h de duração.
Como o jogo não tem direcionamento do que fazer e há algumas inconsistências de onde os objetos de puzzles devem ser inseridos, existem chances de você ficar perdido e frustrado. Nesse sentido, não há muito o que fazer a não ser testar e explorar bem, especialmente pelo game não possuir localização em português do Brasil.

Tudo bem, as coisas são bem intuitivas e menos punitivas que os Resident Evil clássicos. Mas quando isso se alia a uma grande quantidade de mortos-vivos em alguns mapas, à pressão quando sua bolsa de sangue tá caindo e à escassez de recursos, fica a ideia de que esses elementos poderiam ser mais balanceados e caprichados.
Isso também fica evidente nos chefes. É muito fácil correr e ficar fugindo de alguns deles até encontrar um ponto de apoio, mas eles sempre são mais rápidos, mais fortes e mais preparados. As batalhas são relativamente longas e exigem muito gasto de munição até o terceiro ato, mas fica a impressão de um role play mais severo do que deveria ser.

O mapeamento do controle também poderia ser mais intuitivo. É muito fácil você se confundir com ações como mirar, correr e se virar 180 graus, algo que é decisivo quando você enfrenta inimigos em corredores estreitos e áreas mais compactas.
Flesh Made Fear é uma baita homenagem a filmes e jogos
Flesh Made Fear é um show de referências quando falamos de cinema. A trilha sonora alternativa, os personagens e diálogos clichês, o apelo a uma violência gráfica quase baseada em efeitos práticos, a história pouco criativa e brega… Em outros casos, essas questões seriam críticas, mas nesse aqui vemos uma receita interessante e inovadora em vários aspectos.
A jogabilidade é suave, a exploração é recompensadora e o combate agrada principalmente pela implementação do corpo a corpo. O título também tem um alto fator replay não apenas pelos eventos que você pode deixar passar na campanha (ao melhor estilo The House of the Dead), como também pela campanha dupla inspirada em Resident Evil 2.

Alguns problemas técnicos e de equilíbrio devem ser colocados na balança, mas quem jogou survival horror antes da virada do milênio não vai sentir esse peso. Enquanto isso, a modernização atrai o público mais recente, mesmo que haja uma certa resistência pra embarcar em uma jornada retrô muito peculiar e que foge dos padrões AAA.
Flesh Made Fear é um indie especial que reforça como é importante olhar pro passado e entender o que o público atual tanto pede.
Flesh Made Fear é um bom jogo de terror que se inspira nos clássicos com um toque interessante de modernização. Porém, um resgate mais rígido de alguns elementos dos anos 1990 começa a mostrar como eles estão datados.
Pontos positivos
- Combate corpo a corpo muito satisfatório
- Ótimas referências ao survival horror clássico
- Bom tempo de campanha
- Alto fator replay por meio de dois personagens e eventos únicos
- Jogabilidade variada e justa até certo ponto
Pontos negativos
- Sem localização em português do Brasil
- Controles tanque e câmeras fixa começam a mostrar sinais de datação
- História
- Jogabilidade
- Gráficos
- Desempenho
- Som
