Em agosto do ano passado eu tive a grata oportunidade de jogar Pragmata na Gamescom. Já tinha grandes expectativas para a aventura protagonizada por Hugh e Diana, mas foi ali, naquele rápido teste de 30 minutos que fiquei completamente rendido pelo jogo. Agora, com o produto final em mãos, posso trazer o review definitivo de Pragmata, a mais nova IP da Capcom.
Uma história sobre o que nos faz humanos
Como mencionei anteriormente, a história de Pragmata tem dois protagonistas – Hugh e Diana. Hugh é um agente da corporação Delphi que é enviado para a Base Lunar da companhia para investigar um incidente.

A empresa usa a base para criar basicamente qualquer coisa usando os Lunafilamentos, um material com uma capacidade excepcional de transformação, mas com uma durabilidade frágil. Nos minutos iniciais da história, um terremoto atinge a base, fazendo com que Hugh se separe de sua equipe e vá ao encontro de Diana, uma Pragmata.

Na breve introdução que temos de Hugh, ele declara abertamente que não confia em Bots, androides super tecnológicos que foram criados para substituir o trabalho braçal da humanidade. Apesar do jogo deixar isso bem claro, ele confia em Diana desde o primeiro encontro entre eles, coisa que achei mal formulada de início.
Apesar do começo da relação ser abrupta, a troca entre Hugh e Diana é um dos pontos fortes do jogo. A Pragmata nunca teve contato com as coisas terrenas e, sob a lente e narração de Hugh, ela passa a aprender sobre vários conceitos do nosso cotidiano, fazendo com que o game se torne um belo lembrete do que nos faz humanos.
Ver Diana interagindo com objetos da Terra é maravilhoso, gerando uma reflexão em quem joga. Curioso que um game eletrônico protagonizado por uma robô consegue nos fazer pensar sobre a beleza das coisas simples da vida.

A história principal se desenvolve bem, levando a um desfecho magnânimo que se tornou a marca registrada da Capcom em seus AAAs. A lore é expandida através de colecionáveis que são bem dosados e bem escritos, dando gosto da leitura. E, bom, o timing do lançamento do jogo é perfeito.
Com IAs e exploração espacial sendo temas fortíssimos da vida real, é legal ver um AAA fresquinho tratar desses temas com inteligência. Vale mencionar que Pragmata não é uma história de hard sci-fi. A narrativa é propositalmente fácil de ser compreendida para evitar que o tema acabe se transformando em uma barreira de entrada e não um convite.

A duração da história segue o padrão que a Capcom usa em Resident Evil, podendo durar entre 10 a 12 horas para ser concluída, vai depender da experiência de quem joga e, claro, o nível de exploração secundária realizado. Um ponto digno de menção é que Pragmata está completamente localizado em PT-BR e a qualidade da dublagem é ótima, facilitando o entendimento da história e, obviamente, proporcionando um nível maior de imersão para quem não entende inglês.
Um jogo dentro de outro
A jogabilidade de Pragmata é genial e apresenta um conceito que não lembro de ter visto em outro jogo AAA. Diana fica “acoplada” nas costas de Hugh, contudo, nós controlamos os dois de maneira simultânea. Isso ajuda a fugir daquela síndrome de “pai triste” e posiciona Diana com um grande papel atuante, sendo muito mais do que uma garotinha indefesa.
Hugh é o famoso brucutu, responsável por proteger a dupla e, claro, atirar nos bots. Já Diana, a Pragmata, fica a cargo do hackeamento, deixando os bots em estado Exposto para que Hugh atire em seus pontos fracos, além de aplicar efeitos debilitantes como Paralisia, Confusão e mais.

No começo, a proposta causa um pouco de estranheza, contudo, a curva de aprendizado é excelente e ao chegar à metade do jogo você já vai estar um expert em atirar e hackear ao mesmo tempo. E, confesso, a mecânica é incrivelmente viciante e eu espero ver mais dela em jogos vindouros!
Para sua progressão e exploração, Pragmata bebe da fonte de vários jogos que servem como inspiração, sendo Dark Souls um dos maiores expoentes. O level design é enxuto, mas inteligente, apoiando-se na verticalidade para manter o jogador ocupado. Logo nas horas iniciais é possível desbloquear um sonar que marca os objetos próximos, destacando a nova postura mais acessível da Capcom.

Agora, você deve estar se perguntando, como assim Pragmata, um jogo de tiro e hackear robôs, se inspira em Dark Souls? Vamos lá. Primeiramente, no combate. Esquivar e pular gastam a Barra de Propulsão, funcionando como uma Barra de Estamina. A progressão também se inspira nos Souls.
Ao derrotar Bots, ganhamos um recurso chamado de Lunafilamentos, o equivalente às almas de Dark Souls. Esse recurso permite melhorar as Unidades de Ataque, Defesa e Tática (armas e gadgets finitos), aprender novas habilidades, melhorar capacidades do traje de Hugh e aprimorar os Nodos de Hackeamento que Diana pode acionar no combate.

A exploração é dividida em Blocos, onde, no início de cada Bloco encontramos uma Escotilha de Fuga para voltar ao Abrigo, o equivalente às fogueiras, e, ao retornar, os Bots respawnam. O game conta até com um inimigo chamado de Drone Escavador que foge ao chegarmos perto e, caso seja hackeado com sucesso, larga uma grande quantidade de Lunafilamentos, fazendo alusão ao Lagarto de Cristal de Dark Souls.

Os inimigos apresentam uma barra de calor, que, quando preenchida, permite que o jogador pressione um botão para acionar um ataque crítico devastador. Além disso, a apresentação dos chefes ocorre em arenas, do jeito pomposo que a FromSoftware acostumou a comunidade.
E por falar em chefes, eles possuem um design mecânico e visual fantástico, tornando as lutas memoráveis. Mas calma. Apesar das óbvias inspirações, Pragmata é muito mais acessível no que diz respeito à dificuldade, apresentando um modo Casual. E por falar em dificuldade, no modo Padrão ela é justa até metade do game, depois, caso você faça o conteúdo secundário, você se torna incrivelmente poderoso e atropela tudo pelo caminho, até os chefes.
O jogo tem uma excelente variedade de armas, gadgets e inimigos. A cada 10-15 minutos, nos deparamos com uma novidade, seja um inimigo inédito, uma arma nova ou um gadget fresco que tem grande utilidade nos embates. Os gadgets envolvem coisas como uma Rede que mantém os inimigos estáticos, uma espécie de lança granadas que derruba os bots, minidrones que atiram e por aí vai.

A variedade de armas também impressiona mas é preciso destacar que o game tem dois tipos de armas. Existe a arma fixa de Hugh, com bala infinita (mas pente recarregável) e que funciona como uma pistola ou fuzil de assalto, e as Unidades de Ataque, armas com munição limitada e com grande poder de fogo. Temos rifles que disparam um feixe de laser, um lançador de mísseis teleguiado, uma espingarda e muito mais. A frequência com que elas surgem no mapa é bem dosada e o jogo incentiva bastante o uso de equipamentos novos.
Apesar do incentivo, antes de irmos para um Setor, podemos montar um loadout no Terminal Bondeviário, escolhendo os equipamentos e nodos prediletos, funcionando como uma espécie de build.
Mas nem tudo em Pragmata é perfeito, existem certos elementos burocráticos que incomodam um pouco após algumas horas. Por exemplo, sempre que você morre, você retorna ao Abrigo. Seria fantástico ter a opção de voltar na última Escotilha de Fuga visitada. O game também tem pouquíssimas animações de “finalização”, o Tiro Crítico acionado por Hugh quando os inimigos atingem o pico de temperatura.
DNA arcade
Com o passar dos anos, a Capcom foi aprimorando suas habilidades de storytelling, entregando jornadas com um grande apelo emocional por pura exigência do mercado e demanda dos fãs.
Mas um aspecto louvável da publisher é que ela nunca abandonou seu DNA arcade, entregando jogos que, apesar do forte teor narrativo, continuam se portando como um jogo e não um filme jogável.
Além das missões principais, Pragmata tem um conteúdo secundário interessante, com uma boa dose de variedade. Um desses conteúdos é chamado de Simulação de Treinos. Nesse modo, o jogador precisa concluir testes com tempo e condições específicas para obter recompensas que ajudam e MUITO na progressão de Hugh e Diana.

Além da Simulação, os jogadores também podem encontrar e atirar em pequenas estátuas de Mini Cabin. O recurso é claramente inspirado no icônico Mr. Raccoon da franquia Resident Evil. Por fim, mas não menos importante, nos cenários podemos nos deparar com Salas Vermelhas, ambientes perigosos que colocam o jogador para enfrentar uma horda de inimigos em troca de recompensas valiosas.
Por falar em missões principais, tenho certeza de que a duração da campanha de Pragmata vai gerar debates online, afinal, para muitos, é impensável um jogo AAA durar entre 10 a 12 horas nos tempos atuais. Contudo, após ter zerado o jogo e feito todo o conteúdo secundário, penso que Pragmata tem a duração perfeita.
No fim da aventura, fica o gostinho de quero mais e não aquela sensação de alívio gerada ao concluir jogos que acabam durando mais do que deveriam. E reforço que o fim da campanha é apenas o começo. A Capcom usou toda sua experiência com fator replay e retenção de jogador e implementou um ótimo conteúdo pós-jogo que incentiva a rejogada.

Chamada de Lunática, a dificuldade é desbloqueada após zerar Pragmata pela primeira vez e ela muda fundamentalmente a experiência, apresentando inimigos mais letais e um nível de tensão maior graças à mecânica de atirar/hackear. Além da dificuldade nova, desbloqueamos o NG+ e um modo extra com novas doses de desafio. É interessantíssimo ver o tratamento que a Capcom dá ao “pós-jogo” de suas obras e o quanto ela respeita o tempo de seus consumidores.
Todo o conteúdo adicional é valoroso e esculpido com esmero, indo além do propósito de inflar horas de jogatina!
RE Engine brilha como o Sol
Tecnicamente falando, Pragmata beira a perfeição. Muito pela aplicação da RE Engine que é aprimorada a cada novo jogo da Capcom. Joguei 28h no PlayStation 5 Pro e não tive nenhuma queda de frame, bug ou crash.
Em uma única vez, meu áudio ficou “estourado” e o problema foi solucionado ao fechar o jogo e abrir novamente mas, como mencionei, isso aconteceu apenas uma vez em 28 horas. A parte sonora de Pragmata é fantástica.
As vozes, tanto em inglês quanto em português, combinaram muito bem com os personagens. Os efeitos sonoros são de ponta, com armas e bots emitindo barulhos bem credíveis que ajudam na imersão.

A direção de arte é genial. Os desenvolvedores saíram da “caixinha” pra não apresentar mais um jogo que se passa em uma estação espacial. Graças ao apoio da lore com os Lunafilamentos, percorremos trechos que lembram uma floresta, em outro uma grande cidade urbana e por aí vai.
O que a Capcom fez com a RE Engine é absurdo e o motor gráfico aos poucos vai se tornando uma espécie de monstro que evolui enormemente após cada lançamento.
Review de Pragmata: Outro acerto gigantesco da Capcom
A consistência da Capcom é assustadora e, fico feliz em encerrar este review de Pragmata cravando que eles fizeram de novo. A publisher prova que é capaz de entregar muito mais do que as joias da casa, apresentando uma nova IP altamente viciante com personagens memoráveis.
A Capcom fez de novo! Pragmata dá aula de como apresentar uma nova IP e, ocasionalmente, entrega uma jogabilidade altamente inovadora e viciante, acompanhada de uma ótima história repleta de momentos emocionantes.
Pontos Positivos
- Jogabilidade inovadora e viciante
- Relação de Hugh e Diana é bem desenvolvida
- Chefes desafiadores
- Ótimo fator replay
Pontos Negativos
- Sistema de viagem rápida é burocrático
- Narrativa
- Jogabilidade
- Desempenho
- Direção de Arte
- Som
