Na última sexta-feira, toda a comunidade gamer foi surpreendida com uma bomba: Phil Spencer e Sarah Bond deixaram o Xbox, e Asha Sharma assumiu o cargo mais alto dentro da divisão.
Pode parecer estranha a saída repentina dessas lideranças, já que Spencer trabalhava na Microsoft há 38 anos e, justamente quando o Xbox está prestes a completar 25 anos, decide se aposentar — ou simplesmente “foi aposentado”.
De qualquer forma, a chegada de Asha Sharma causa desconfiança em parte da comunidade, já que, aparentemente, ela não possui um vínculo direto com games ao longo de sua trajetória profissional.
No entanto, penso completamente o oposto. Uma liderança mais jovem e diferente do perfil visto anteriormente pode ser exatamente o que o Xbox precisa para voltar ao jogo.
Sendo pés no chão
Delimitando o período do Xbox Series X and Series S até aqui, a marca tomou decisões, no mínimo, questionáveis.
Entre elas, a retirada sutil dos consoles Xbox de mercados estratégicos nos últimos anos; a campanha de marketing massiva “Isso é um Xbox” — que tentava induzir os consumidores a acreditar que qualquer dispositivo poderia ser um Xbox por rodar jogos na nuvem — e, por fim, a quebra da exclusividade dos jogos first party, o que foi um golpe duro na comunidade.
Spencer e Sarah Bond foram claros ao afirmar, no podcast oficial do Xbox, que apenas quatro jogos seriam lançados no PlayStation e no Nintendo Switch.
Contudo, como tudo mudou ao longo dos meses subsequentes, vivemos hoje em uma realidade em que Gears of War e Forza Horizon já estão presentes no PlayStation 5, enquanto Halo também foi anunciado.
Se essa foi uma decisão deles ou da liderança maior, comandada por Satya Nadella, talvez nunca saibamos. Porém, desde que isso ocorreu, parte da comunidade deixou de acreditar nas palavras da antiga gestão do Xbox e passou a enxergar com desconfiança todas as decisões tomadas.
A escolha de Asha Sharma, que era especialista em inteligência artificial dentro da Microsoft, pode não ser mera coincidência. O setor é um dos que mais recebe investimentos na empresa, e Satya pode tê-la escolhido justamente para expandir ainda mais essa tecnologia dentro do universo dos games.
Como Nadella não enxerga o Xbox apenas como um console, mas sim como um ecossistema multiplataforma — envolvendo Xbox Game Pass, cloud, PC e mobile — que já teria atingido 500 milhões de usuários ativos mensais, é provável que Asha siga as diretrizes estratégicas já estabelecidas, buscando inserir o Xbox em ainda mais plataformas.
Antes de assumir a divisão Xbox e atuar na área de IA da Microsoft em 2024, Sharma ocupou cargos de destaque em grandes empresas dos Estados Unidos:
- Meta (Facebook/Instagram): vice-presidente de Produto e Engenharia
- Instacart: Chief Operating Officer, gerenciando logística e expansão
- The Home Depot: membro do conselho de administração
Portanto, mesmo aparentando ser jovem, Asha sempre ocupou posições de alto nível ao longo de sua carreira, algo que deve ser respeitado.
Por que não sonhar?
Se a provável escolha de Asha foi para expandir ainda mais o Xbox e a IA da Microsoft, por que não ter esperança de que sua liderança também tome decisões que caminhem no sentido oposto ao que vinha sendo proposto até o momento?
Em seu primeiro comunicado como CEO do Xbox, Asha declarou:
“Minha primeira tarefa é simples: entender o que faz isso funcionar e proteger isso. Isso começa com três compromissos.
Primeiro, grandes jogos. Tudo começa aqui. Precisamos ter grandes jogos, amados pelos jogadores, antes de qualquer outra coisa.
Segundo, o retorno do Xbox. Vamos nos reconectar com nossos fãs e jogadores principais, aqueles que investiram em nós nos últimos 25 anos.
Terceiro, o futuro do jogar. Estamos testemunhando a reinvenção do entretenimento interativo. Não vamos perseguir eficiência de curto prazo nem inundar nosso ecossistema com conteúdo gerado por IA sem alma. Jogos são, e sempre serão, arte, criados por humanos.”
Analisando os três pontos citados, podemos dizer que ela começou muito bem.
Primeiro, os jogos. Com dezenas de estúdios, o Xbox nunca esteve com uma lineup e um ritmo de lançamentos tão consistentes. Ao longo do ano, a marca realizou diversos eventos apresentando futuros títulos, e a comunidade sempre aguarda por novidades — que, de fato, têm chegado. Se ela conseguir manter esse investimento, já estará no caminho certo.
Segundo, “o retorno do Xbox”. Nas redes sociais, muitos questionaram o que ela quis dizer com isso. Retorno? Mas onde o Xbox estava? Para onde ele foi que precisa retornar?
São perguntas pertinentes. Há pelo menos dois anos, a empresa reforça a ideia de que “Isso é um Xbox” e que a plataforma está em todos os lugares.
Mas sejamos sinceros: não é possível afirmar que tudo é um Xbox enquanto o console físico foi, em certa medida, negligenciado. Já estamos em uma fase madura da geração, e retirar o console de prateleiras em mercados estratégicos foi um erro que contribuiu para a disparada das principais concorrentes em vendas.
Se Asha conseguir recolocar o console Xbox nas prateleiras globalmente, com uma campanha de marketing agressiva reforçando sua identidade, pode ser o maior acerto da plataforma em pelo menos uma década.
O problema é que ela pode esbarrar na atual crise da memória RAM, que vem afetando não apenas empresas de videogame, mas toda a indústria de tecnologia.
Ainda assim, é possível ter esperança de ver o Xbox amplamente disponível nas lojas ao redor do mundo, e não restrito a regiões específicas da América do Norte.
Por fim, a integração entre IA e desenvolvimento de jogos.
O uso de IA na criação de arte é um tema sensível, que envolve dilemas sociais e até filosóficos. Contudo, o ponto central aqui é a postura da nova CEO.
Ao afirmar que jogos continuarão sendo feitos por humanos — mesmo com o uso de tecnologias de IA para auxiliar na eficiência — Asha apresentou uma das declarações mais equilibradas feitas por um executivo de alto escalão do setor nos últimos meses.
Fator bônus: Matt Booty

Matt Booty é uma figura polêmica. Veterano do Xbox, presidia os estúdios da marca. Sob sua gestão, alguns lançamentos problemáticos, como Redfall, afetaram sua reputação perante parte da comunidade.
Contudo, enquanto Asha ficará responsável pelas decisões estratégicas, Booty assumirá maior responsabilidade criativa sobre os estúdios. Por ser alguém profundamente ligado ao desenvolvimento de jogos, entende como a indústria funciona e o que a comunidade espera.
Aguardar e torcer
É fato que Asha Sharma terá um trabalho longo e árduo pela frente. No entanto, ela conta com ativos poderosos — múltiplos estúdios e grandes IPs — além de, ao menos inicialmente, demonstrar compreensão do que a comunidade deseja.
Entre o período de transição e a consolidação de sua gestão, levará tempo. Resta à comunidade que ama a marca torcer para que tudo dê certo e que o Xbox consiga reencontrar seu auge.
Você acha que a Asha Sharma fará uma boa gestão sob o comando do Xbox?
