Há sempre um receio quando vemos um lançamento de estreia de um estúdio. Em época onde projetos AAA chamam a atenção pelo altíssimo orçamento e pela inserção em franquias já consolidadas, a área nova sempre parece muito arriscada tanto para o consumidor quanto para o desenvolvedor de games.
E neste mês de fevereiro, temos um título que se envolve com essa história. Crisol: Theater of Idols, é o primeiro projeto do estúdio espanhol Vermila Studios, publicado em parceria com a gigante dos cinemas, Blumhouse. Mas aparentemente, estamos caminhando para um final feliz.
Acima de tudo, o jogo de tiro e terror é uma experiência muito envolvente. E ela não precisa de muito para provar sua qualidade: desde os primeiros segundos, é possível abordar que a equipe criativa do game sabia muito bem o que estava fazendo. Muito bem.
A idolatria ao Sol
Sem memória e perdido em um mundo sob ruínas, Gabriel se vê em meio a um conflito religioso após ser recrutado, de forma não voluntária, para resolver uma situação delicada sobre o Deus Sol na ilha amaldiçoada de Tormentosa.
Sua missão muda quando um contrato é estabelecido: após ser morto por uma entidade desconhecida, o soldado oferece sua vida para ter direito a uma nova chance. E tudo muda quando a “assinatura” apalavrada diz respeito ao sangue.

Usando armas modificadas, Gabriel trocará seu sangue por munição. E esses equipamentos especiais serão fundamentais pra que o mundo volte a ter sua ordem original. Mas o que está por trás das vozes que continuam a direcionar o protagonista para as trevas?
Crisol: Theater of Idols é um jogo de ação em terror single player. O título conta com uma campanha de aproximadamente 12h para quem deseja explorar bem todos os cantos, com uma história dividida entre quatro capítulos narrativos.

Falando em narrativa, o título possui um foco tom cinematográfico. Mesmo tendo um gameplay totalmente livre e com sistemas de progressão bem determinados, há um excelente fluxo narrativo, com diálogos recorrentes, cenas animadas em plano-sequência, trechos dinâmicos e muitos elementos de lore por meio de colecionáveis.
E fora isso, Crisol: Theater of Idols também pega rápido por trazer características com forte identidade afetiva. Há muitas referências a Resident Evil, Lies of P, Dark Souls e mais, mas nem de longe sendo uma salada de frutas. Ele pega as melhores ideias de cada uma dessas propriedades e recheia de identidade; tudo em meio a uma aventura forte, madura e raramente vista em termos de conceito.
Muito de ação, muito de terror
Assim como houve com Resident Evil 4, Crisol: Theater of Idols reúne muito bem a ação e o terror. Ambos são gêneros constantes e andam juntos a todo instante, seja em momentos mais parados ou em trechos de alta intensidade. Mas vamos por partes.
O título funciona muito bem como um FPS. Há roda de armas, com várias delas sendo destravadas na campanha, há um altíssimo impacto de tiro, sensação de peso, lógica de hitbox e, até mesmo, um sistema de desmembramento que permite que inimigos mudem suas características de forma orgânica.

Além disso, Crisol: Theater of Idols possui, nesse gênero, seu grande ponto de virada: as munições, que são limitadas por arma, se recarregam pelo próprio HP de Gabriel. Trocar pontos de vida por balas faz os equipamentos se tornarem úteis novamente, com a possibilidade de aumentar clipes, taxa de disparo, tempo de recarga e dano por meio de um padrão, mas funcional sistema de progressão.
E o que acontece se seu HP tiver baixo? Você usa seringas de vida e absorve o sangue de animais mortos. São várias raças de animais, com cada uma delas oferecendo uma quantidade de vida específica. Esse elemento também aparece de forma estratégica, pois as vezes vale a pena não absorver o sangue para usar uma seringa e permitir que outra fonte de cura esteja no mapa.

Quanto ao terror? Crisol: Theater of Idols tem a essência dos clássicos survival horror. Há uma atmosfera sinistra, momentos de jumpscare, sons perturbadores, design de monstros inspirado no terror corporal, perseguição e mais. Todos estão no game de forma constante e passam uma sensação de insegurança muito imersiva, especialmente pelas munições serem condicionadas.
Fãs de Resident Evil e dos clássicos survival horror também estarão bem servidos. O jogo conta com muitos puzzles baseados em objetos, com alguns deles sendo bastante desafiadores ao apostar em lógica. Além disso, há muito backtracking, perigos ambientais e ameaças imprevisíveis; tudo sem quebra de ritmo e com um alto respeito às inspirações que servem de fonte.
Trabalho gráfico de gente grande
Para um projeto de estreia, Crisol: Theater of Idols é absurdamente lindo. O jogo conta com gráficos extremamente detalhados, sejam áreas externas ou internas. Há uma riqueza ímpar em todas as regiões, com águas caprichadas, ótimos efeitos de partículas e de elementos da natureza, e arquiteturas hispânicas de altíssimo bom gosto.
Como se isso não bastasse, há um claro senso de profundidade, passando a sensação de um mundo muito maior que em comparação com o que se apresenta. Isso se estende para a jogabilidade, que se destaca por inúmeras áreas secretas que podem ser encontradas com um pouco mais de observação.

Apesar de Crisol: Theater of Idols ser um jogo linear, essa não é a ideia que fica. Há muitos segredos guardados em áreas impressionantes em termos visuais, bem como elementos de história que se destravam apenas depois dessas regiões serem identificadas. E vale reforçar que o sendo de descoberta é alto e muito estimulante, pois as recompensas ajudam muito a avançar com segurança.
Isso se enriquece muito mais pelo excelente design visual dos inimigos e pela trilha sonora atmosférica. As músicas são caprichadas e não apenas se encaixam bem no contexto das missões ou dos capítulos, como também contam um pouco mais sobre as tradições espanholas e ao estilo musical à la era gótica.

Outro ponto que vale a pena reforçar diz respeito às ações de sangue. Após serem transformadas pelo Deus Sol, as armas mudam totalmente seu visual e ficam parrudas, algo que por si só já impressiona. E como se não bastasse, as animações de recargas são brutais para cada equipamento, mostrando como Gabriel se tortura e oferece seu sangue para ganhar munição.
Tecnicamente convincente, mas deve ser melhor
A história de Crisol: Theater of Idols é bem complexa e fundamentada, mas vai além disso em termos de cinematografia. Isso ocorre, principalmente, porque a dublagem em espanhol (língua original) é coisa de outro mundo.
A interação de Gabriel com outros personagens ocorre de forma natural e bem feita. As vozes, a fúria, a dúvida e as outras emoções do protagonista são apresentadas com excelência, tudo isso por meio de um idioma forte e que consegue transmitir exatamente o que o roteiro quer.

Em Crisol: Theater of Idols, os textos e menus estão localizados em português do Brasil, e é possível compreender tudo que os personagens falam e propõem, mesmo alguns jargões nativos que não têm tradução contextual, digamos assim. Ou que simplesmente ganham mais impacto sem tradução.
Infelizmente, nesse sentido técnico, nem tudo são flores. O jogo sofre com quedas de performance e inconsistências de colisão, com inimigos atravessando portas e paredes, e falhas de áudio, especialmente durante transições de áreas com trilhas distintas.

Você notará de cara, mas algumas falhas de desempenho são até que bem frequentes na indústria. Elas ocorrem durante o salvamento automático, durante momentos de muitas coisas acontecendo na tela (no último capítulo é insano, aliás, mas para o mau) e ocasionalmente durante o gameplay. Aqui, fica um reforço: melhorar isso pode solucionar as maiores críticas que o jogo vai receber.
Crisol: Theater of Idols já é uma das surpresas de 2026
Crisol: Theater of Idols é um projeto muito único. Cheio de personalidade, o título de estreia da Vermila Studios traz uma proposta forte e cheia de lore, com uma história rica em detalhes, excelente atuação em espanhol e momentos de tirar o fôlego.
Como se isso não bastasse, o game surpreende com gráficos de ponta e cenários com alto grau de profundidade, tudo fortalecido pela ótima trilha sonora e pela atmosfera opressora de terror. As referências aos clássicos survival horror são claros, mas os elementos de sangue e a abordagem folclórica tornam tudo muito mais interessante.
Há problemas de performance e de física que devem ser melhorados com os primeiros patches. Mas isso nem de longe resume um projeto bem feito, criado por pessoas que entendem cada centímetro do que foi implementado ali. Fica o agradecimento à Vermila pela oportunidade de conhecer Crisol: Theater of Idols, principalmente em um ano já com calendário de peso.
Título de estreia da Vermila Studios, Crisol: Theater of Idols reúne excelentes ideias de grandes projetos de terror e ação em uma aventura cinematográfica, forte e extremamente divertida.
Pontos positivos
- Qualidade gráfica absurda
- Excelente trilha sonora
- Dublagem de altíssimo nível e muito impactante
- Progressão intuitiva e estimulante
- Ótimo tempo de campanha
- História bem trabalhada e sem vácuos de ritmo
Pontos negativos
- Performance geral precisa melhorar
- Alguns problemas de física
- Inconsistências de áudio
- História
- Desempenho
- Som
- Diversão
- Gráficos
- Jogabilidade