Após sua estreia nos consoles da Nintendo e PC ano passado, Hades 2 chega ao PS5 e Xbox Series carregando o peso de ser continuação direta de um dos roguelikes mais aclamados de todos os tempos, mas será que a Supergiant Games conseguiu repetir o feito ou até superar o original? É o que vamos descobrir.
A história

A história começa com Cronos tendo tomado o controle do submundo, aprisionando Hades e toda a sua família. O único membro que escapou foi Melinoë, filha de Hades, salva ainda na infância e criada sob a tutela de Hécate para um único propósito: destruir Cronos e libertar sua família. É uma premissa que soa grandiosa no papel e que se sustenta com muita competência ao longo de toda a experiência.
O que mais impressiona na construção narrativa de Hades 2 é a forma como ela equilibra a escala épica do conflito com momentos de uma intimidade surpreendente. O jogo lida com um Titã aprisionando deuses, com batalhas que envolvem forças primordiais, mas nunca perde o foco no lado humano, ou melhor, divino dos personagens. Melinoë é uma protagonista com camadas, motivada por lealdade e determinação, mas também carregando o peso de uma identidade construída inteiramente ao redor de uma missão que ela nem escolheu.
A escrita da Supergiant continua sendo de outro nível. Os diálogos são afiados, os personagens secundários têm personalidades marcantes e o jogo usa o próprio formato roguelike de forma inteligente na narrativa. Cada morte de Melinoë conta para narrativa e faz parte da história, e o jogo aproveita isso para construir relacionamentos e revelar informações de forma gradual, sem nunca parecer forçado.
Os desfechos das duas rotas principais, a do submundo e a do Olimpo, são satisfatórios e recompensam as horas investidas com sequências memoráveis. Só recomendo não procurar spoilers, pois a revelação dos chefes finais de cada caminho é uma das melhores surpresas que o jogo oferece.
A jogabilidade

Se a história já é excelente, é no gameplay que Hades 2 atinge seu pico mais alto. A base de combate hack-and-slash do primeiro jogo retorna mais fluida e expandida, mas o que realmente diferencia Melinoë de Zagreus é a bruxaria.
Enquanto Zagreus dependia das bênçãos dos deuses do Olimpo para potencializar suas armas, Melinoë opera em uma camada adicional de complexidade. Ela possui uma barra de mana, ataques carregados e um Hex concedido por Selene, que funciona como uma habilidade especial upgradável com efeitos que vão desde cura até explosões que limpam salas inteiras. O cast, aquele projétil de suporte do primeiro jogo, também foi reimaginado como uma armadilha mágica que pode ser transformada através das bênçãos para se adaptar ao estilo de jogo de cada um.
Tudo isso poderia parecer complicado demais, mas Hades introduz todas essas mecânicas de forma devagar e muito inteligente. O jogo vai apresentando os sistemas aos poucos, de um jeito que quando você percebe já está dominando builds elaboradas sem nem ter notado quando isso aconteceu, a curva de aprendizado é bem calibrada e nunca intimida.
O sistema de Arcanas é outra adição que merece destaque, no primeiro jogo o Espelho da Noite oferecia bônus passivos estáticos, mas aqui as cartas de Arcana funcionam como uma grade estratégica onde posicionamento importa, pois cartas adjacentes podem ativar efeitos extras. É uma camada de customização que abre espaço para planejamento de build mesmo fora das runs, algo que o original só pincela por cima.

As duas rotas da campanha, submundo e Olimpo, oferecem experiências distintas e igualmente completas. O caminho pelo submundo revisita locais conhecidos do primeiro jogo, mas em sentido inverso e com contexto completamente diferente. Já a rota do Olimpo apresenta ambientes novos com identidade própria, e a cidade de Etira em particular é um dos destaques de level design de todo o jogo, com progressão não-linear e mecânicas que fogem do padrão dos outros biomas.
Onde o jogo acumula horas de forma quase irresponsável é na progressão do metagame. Diferente de muitos roguelikes que dependem de uma moeda principal para o progresso entre runs, Hades 2 distribui múltiplos recursos com raridades e métodos de obtenção distintos. O resultado é que mesmo as runs que terminam cedo ou que saem completamente erradas ainda oferecem algum tipo de avanço. É difícil parar de jogar quando cada derrota parece um passo em direção a algo novo.
O único ponto que pode gerar atrito para alguns jogadores é a demanda de tempo no final do jogo. Depois de vencer os chefes finais de ambas as rotas, o ritmo muda. As runs passam a ser mais direcionadas para otimizar recursos específicos do metagame, o que é menos empolgante do que a fase de descoberta inicial. Não é necessariamente um problema, é a progressão natural do conteúdo, mas quem joga de forma casual vai sentir a diferença.
A parte técnica

Já sobre o quesito audiovisual, a Supergiant Games tem uma identidade visual absolutamente inconfundível, e Hades 2 não só mantém esse padrão como o eleva. A mistura de Art Nouveau com elementos clássicos da mitologia grega resulta em um jogo visualmente deslumbrante, com personagens expressivos, ambientes detalhados e uma paleta de cores que comunica a identidade de cada região de forma imediata.
Cada novo deus introduzido tem um design que reflete sua esfera de influência sem precisar de uma linha de diálogo: Hestia parece uma chama personificada, Apollo irradia luz e confiança, Hefesto carrega o peso e a textura de algo forjado à força e assim por diante. É um trabalho de direção de arte que vai além do decorativo e comunica identidade de forma constante.
Em trilha sonora, Hades 2 também eleva o jogo a outro patamar. As faixas dos chefes são memoráveis, com destaque para o tema de Cila, com a trilha de sua luta inteira soando como se fosse composta por alguém que entende que a música nesse jogo não é apenas ambiente, mas é parte fundamental da personagem.
A dublagem acompanha esse nível da trilha sonora. Cada personagem tem uma voz que soa exatamente como aquele personagem deveria soar, e o volume de diálogo gravado é absurdo considerando quantas variações contextuais o jogo usa para o formato roguelike.
Review de Hades 2 – Vale a pena jogar no PS5?

Hades 2 é um dos melhores jogos já feitos dentro do gênero roguelike e uma das sequências mais bem executadas da história dos games. A Supergiant não se contentou em repetir a fórmula do primeiro jogo com novos personagens. Ela dobrou o escopo, adicionou sistemas que aprofundam a experiência sem complicar o acesso, construiu uma narrativa à altura do original e ainda entregou tudo isso com uma apresentação audiovisual de deixar qualquer desenvolvedor constrangido.
Se você já jogou o primeiro Hades, vai se sentir em casa imediatamente e logo vai perceber o quanto o jogo cresceu. Se é sua primeira vez no submundo, melhor ainda: você tem um dos melhores ponto de entrada do gênero esperando por você. É o tipo de jogo que você instala para testar por uma hora e acorda três dias depois perguntando onde o tempo foi.
Hades 2 chega ao PS5 e Xbox Series como uma sequência ambiciosa que expande a narrativa com Melinoë enfrentando Cronos e mantém a escrita de alto nível da Supergiant. O gameplay evolui com novas mecânicas como bruxaria, sistema de Arcanas e duas rotas completas, tornando a progressão mais profunda e viciante. Mesmo com uma leve queda de ritmo no endgame, o jogo se destaca como um dos melhores roguelikes já feitos.
Pontos Positivos
- Narrativa
- Sistema de combate viciante
- Duas rotas completas que dobram o conteúdo do original
- Trilha sonora marcante
- Direção de arte e dublagem de altíssimo nível
Pontos Negativos
- Ritmo cai no final do jogo e runs ficam mais mecânicas e menos empolgantes
- Narrativa
- Jogabilidade
- Desempenho
- Direção de arte
- Som
