Produzir um review de um jogo brasileiro sempre é uma experiência gratificante e curiosa. O peso é maior. Por ser uma produção da “nossa terra”, temos um nível de conhecimento maior sobre os percalços que desenvolvedores brasileiros precisam vencer para produzir seus games.
Entre as várias nuances de um jogo que precisam ser analisadas, todo o contexto externo passa a ter um grande grau de importância também. Cada lançamento de destaque de um jogo brasileiro impulsiona a nossa indústria pra frente e serve de fonte de inspiração para quem vem depois.
E, bom, fico feliz em já deixar claro que Motorslice é um jogo de dar orgulho para o país. Ele se inspira em vários games icônicos que são cultuados até hoje, fazendo uma mistura genial de mecânicas que, quando unidas, geram uma experiência marcante. A Regular Studio fez um ótimo trabalho aqui!
P contra Máquinas
Você com certeza já ouviu falar ou jogou um game protagonizado por um personagem chamado P onde ele usa espadas para golpear máquinas. Bom, eu não estou falando sobre Lies of P. Essa é a exata proposta de Motorslice.
A jornada é protagonizada por uma mulher chamada de P, com voz da ótima Kira Buckland, a 2B de NieR: Automata. P é uma Slicer veterana, uma funcionária enviada para locais inóspitos para fatiar, literalmente, máquinas que fugiram do controle.
P conta com o auxílio de Orbie, um drone avançado que conta com uma personalidade que me lembrou bastante o icônico Claptrap de Borderlands – mas sem a voz irritante e sem interrupções constantes.

Apesar de ter um componente narrativo e uma história tradicional, Motorslice não deve ser considerado um jogo narrativo. Ele é, essencialmente, um jogo de plataforma com um pouco de combate e diálogos vez ou outra. Para se ter ideia, o game nem sequer apresenta colecionáveis com textos ou coisa do tipo.
Eu entendi a ausência, contudo, fiquei tão imerso durante a jornada de P que fiquei querendo saber mais sobre os Slicers, suas origens e até sobre a espada com o motor propulsor usado por eles. Outro ponto que é válido mencionar é que a narrativa apresenta elementos de cunho “Tomboy” e a interação entre P e Orbie exala isso.
Motorslice é dividido em 9 capítulos e eu platinei o jogo em cerca de 8 horas. Não senti que a experiência foi curta. Pelo contrário. Ela termina em um momento perfeito para dar aquele gostinho de quero mais – potencializando, quem sabe, investimentos futuros na IP.
Clássicos revitalizados
Lembra no começo do texto que falei sobre mistura genial de mecânicas? Pois bem. Motorslice bebe da fonte de jogos bem conhecidos como Mirror’s Edge, Prince of Persia, Shadow of the Colossus e, claro, NieR: Automata.
A movimentação é claramente inspirada em Mirror’s Edge e Prince of Persia. Pular entre duas paredes, correr pela parede, escalar postes. O tempero original aqui são os trechos que possibilitam o uso da mecânica Slice. P usa sua espada com motor de propulsão para literalmente fatiar paredes laranjas, conseguindo se locomover pela parede.
De NieR: Automata, temos a inspiração do combate, onde P enfrenta uma série de máquinas com design que lembram máquinas reais como tratores, empilhadeiras, trens e mais. O cenário que lembra um mega canteiro industrial também faz alusão à obra da PlatinumGames.

Por fim, mas não menos importante, temos Shadow of the Colossus. Os chefões de Motorslice não são lutas tradicionais contra chefes. Elas basicamente consistem em trechos de plataforma onde precisamos escalar essas máquinas massivas enquanto fatiamos as partes vulneráveis com a espada.
Vale destacar, novamente, que o fatiar aqui é diferente de Metal Gear Rising: Vengeance por exemplo. Precisamos chegar perto da “parede” laranja, enfiar a espada no lugar e acionar o motor propulsor, andando pela área enquanto causa dano.
O combate propriamente dito é bem simples e direto ao ponto. P consegue aparar ataques de inimigos, inclusive os ataques dos chefes colossais, golpear normalmente com a espada, dar um ataque carregado e rolar como desvio. A filosofia implementada pelo estúdio é a de um golpe pra matar e um golpe pra morrer. Essa dualidade entre letalidade e fragilidade de P é interessante e faz com que o jogador esteja sempre atento nos confrontos, mesmo contra máquinas “básicas”.

Apesar de ser um game que dura apenas por volta de 8 horas, eu senti falta de uma maior variedade de máquinas inimigas. Isso somado à um cenário que pouco se altera acaba gerando um sentimento de repetição em sessões de jogatinas que passam da barreira das 1-2 horas.
Para afastar esse sentimento de repetição, o estúdio implementa mecânicas novas de maneira gradativa pelos capítulos. Em um capítulo por exemplo precisamos desviar de minas terrestres que explodem ao contato. No outro, usar dutos de ventilação para alcançar locais mais altos.
Falando em minas, a dificuldade do jogo é o que eu gosto de chamar de quente e frio. Ele pune bastante qualquer erro cometido e P morre instantaneamente caso você erre um pulo e caia de grandes distâncias. Contudo, para atenuar isso, Motorslice apresenta uma quantidade absurda de checkpoints. Eles são bem generosos para impedir que o jogador fique frustrado.
Também existe uma opção de acessibilidade para adicionar checkpoints nas lutas contra os chefes, o que facilita bastante a experiência. O game tem chefes bem desafiadores em alguns capítulos!
Óleo tá em dia
A parte técnica de Motorslice é muito competente. A movimentação de P é fluída, a física do jogo é realista e funciona bem, demandando atenção nos trechos de plataforma e tornando a experiência bem prazerosa quando passamos por seções desafiadoras.

O calcanhar de aquiles do jogo é a câmera. Em segmentos específicos ela mais atrapalha do que ajuda, servindo como um obstáculo adicional a ser vencido na trajetória de P. Também achei que a trilha sonora e os efeitos sonoros como um todo são bem tímidos.
A trilha é embalada por uma música que lembra aquelas que tocam em um saguão de um hotel requintado. Não chega a ser um problema, mas sinto que ela poderia ter um pouco mais de presença, principalmente nos embates contra as máquinas colossais.
A estética do jogo é outro ponto que merece destaque. Motorslice usa uma técnica de low-poly moderna para entregar visuais charmosos e que ao mesmo tempo ajudam à disfarçar as imperfeições (e, claro, baratear os custos). Isso casa perfeitamente bem com o senso estético brutalista que o game apresenta. O visual é cru, mas imponente, com construções gigantescas que causam deslumbramento mesmo sem apresentar decorações ou refinamento.
Review de Motorslice: Vale muito a pena!
Motorslice prova que o cenário brasileiro pode ir muito além do tradicional pixel art, bebendo da fonte de algumas das maiores obras da história da indústria. Com uma protagonista carismática, uma jogabilidade altamente responsiva e um ritmo de campanha bem dosado, o título merece presença garantida em qualquer lista de melhores indies de 2026.
Motorslice pega mecânicas de vários clássicos e cria uma mistura única altamente viciante. O jogo merece figurar nas listas de melhores indies de 2026.
Pontos Positivos
- Mecânica de Fatiar é fantástica
- Lutas contra chefes geniais
- Parkour excelente
Pontos Negativos
- Trilha sonora poderia ser mais marcante
- Narrativa deixa a desejar
- Narrativa
- Jogabilidade
- Desempenho
- Direção de Arte
- Som
