Uma das principais atrações do estande da Critical Reflex, Ironhive já vinha chamando a atenção por possuir uma identidade visual bem forte. E nada errado nisso: como já disse o ditado, a primeira impressão é a que fica.
Porém, tivemos a oportunidade de testar o game brasileiro durante a gamescom Latam, e o resultado foi surpreendente. Desafiador e com uma alta curva de aprendizado, o título traz muitas referências à franquia Frostpunk, mas com um pequeno detalhe: o jogo de estratégia se torna um card game.
Ironhive não é um jogo de cartas tradicional, aliás. Trata-se de um projeto muito interessante que tem a formação de baralhos como sua mecânica principal, sendo utilizada para render recursos, melhorar fortificações e garantir que a colônia mantenha vida as esperanças para as próximas gerações.
É Frostpunk, mas não é
Ironhive deixa claro, desde o primeiro contato, que sua principal inspiração é Frostpunk. Fãs de longa data da franquia da 11bit studios se familiarização de imediato com diversos sistemas de jogo, incluindo a passagem do tempo, os eventos aleatórios que acontecem e as mecânicas de gerenciamento de recursos.
A principal diferença do game, além do fato de que se trata de um card game, fica por conta de uma ferramenta de designação. Enquanto Frostpunk acontece em um mapa isométrico com algumas possibilidades de mudanças de perspectivas, o game brasileiro funciona quase que de perspectiva lateral, oferecendo uma mesa de construção que funciona como colônia.

Nela, os jogadores podem construir diversas estruturas e empilhá-las como se fosse um Tetris. A ideia é criar uma civilização funcional onde os recursos são otimizados de forma absoluta; algo que funciona bem quando duas estruturas iguais se ligam e acabam se transformando em uma mais eficiente.
Porém, por se tratar de um deckbulding, há fortes implicações do RNG. Nem tudo que está na sua mão serve para construir coisas; às vezes, as cartas consistem apenas em materiais para coletar ou transformar, permitindo que, quando chegar o momento de levantar um prédio, você tenha condições o suficiente.

Além disso, Ironhive conta com cartas de personagens com diversas funções. Elas vão de meros peões até líderes, e usá-las de forma estratégica permite que as construções e expedições funcionem e operem da forma mais eficaz possível. Sim, até esse momento você já deve ter entendido que, de fato, se trata de um jogo complexo.
Alta curva de aprendizagem é um risco
Por ser muito inspirado em Frostpunk, algumas coisas acabaram indo para a versão final de Ironhive, e muitas delas podem ser barreiras para novatos. O tutorial do game, por exemplo, é longo e cheio de informações, mas cheio mesmo, impedindo que haja aquele sentimento de “ok, eu estou realmente aprendendo aqui”.
De fato, jogos de estratégia mexem com duas questões: adaptação e capacidade de improviso. Porém, boa parte da comunidade investe grana em algo mais casual, exatamente por não desejar que a frustração de torne mais relevante que a diversão. E, para o bem ou para o mal, Frostpunk é uma franquia muito frustrante e com altíssima curva de aprendizado.

A ideia de combinar estratégia com card game pode ter sido uma aposta interessante para a Wondernaut Studio, visto que montar baralhos garante uma maior sensação de controle para o jogador, principalmente se ele tiver um certo domínio em títulos do gênero. Dessa forma, conhecendo bem suas cartas e montando boas sinergias, é possível até mesmo prever o que vem em seguida.
Gastando cartas e ações
Assim como os principais card games, Ironhive também tem um sistema de ações. Por turno, você pode jogar uma quantidade específica de cartas, tendo cuidado para não desperdiçar jogadas e deixar para frente, já que há um sistema de progressão do tempo por trás dos panos.
A interface do jogo, apesar de ser difícil de ser compreendida e acompanhada (muito parecida com a de Frostpunk), consegue se comunicar bem com as cartas, exibindo espaços bem destacados quando há a possibilidade de colocar uma carta para coletar recursos ou para construir prédios.

Além disso, Ironhive possui um conceito bem amigável e minimalista. Enquanto seu “primo” é visualmente mais complexo por exigir mais de hardware e evidenciar, a todo instante, mudanças dinâmicas na colônia, o jogo brasileiro parte para menos informações gráficas; mas isso não quer dizer que o jogo é mais feio. A arte de Ironhive é muito, mas muito bonita.
E isso se estende tanto aos cenários quanto às cartas. Um belo trabalho criativo da Wondernaut Studio e que consegue “vender o peixe” sem grandes desculpas.
Ironhive tem potencial, mas deve andar com cuidado
Ao longo dos últimos anos, Frostpunk se tornou referência quando o assunto é RTS. Porém, sua altíssima curva de aprendizado foi reduzindo cada vez mais o alcance da comunidade, algo que levou a franquia para a bolha do cult; mais especificamente para a seara dos jogadores muito dedicados.
Óbvio que a comunidade brasileira (e não só ela) pode criar um grupo dedicado a Ironhive, ainda mais por ser um jogo muito único quando falamos em mecânicas, mas a necessidade de manter bolhas engajadas deve gerar um alerta nos desenvolvedores. Uma solução, talvez, seria tornar a experiência mais amigável com o intuito do “efeito spread”, mas talvez a proposta da Wondernaut seja essa mesmo: partir para o lado mais hardcore.
E se for isso, eles terão meu respeito total. Com a indústria cada vez mais centrada em experiências convidativas, é interessante ver pessoas arriscando mais. E ora, Frostpunk é um verdadeiro fenômeno. Então por que não se espelhar nele?
