De longe, Control Resonant é um dos jogos mais aguardados de 2026. Assim como houve com Control e com outras franquias da Remedy, seus projetos costumam ficar bastante em evidência, e não seria diferente com esse título que promete renovar bastante a estrutura do universo conectado.
Na gamescom Latam 2026, tivemos a chance de conversar com Mikael Kasurinen, diretor criativo de Resonant, que nos contou um pouco mais não apenas sobre seu histórico na Remedy e seu papel, como também sobre as mudanças no seu novo game e de que forma elas contribuirão para uma narrativa ainda mais ambiciosa.
República DG entrevista diretor criativo de Control Resonant
República DG: Você já tem bons anos trabalhando na Remedy, ajudando a criar algumas das IPs mais icônicas do mercado. Como você começou?
Mikael Kasurinen: Certo, então… na verdade, nos anos 90 eu já modificava muitos jogos. Você conhece o jogo Doom? Se você se lembra do início dos anos 90, muitos jogos surgiram, como Quake e outros do tipo. Eu passava meu tempo livre modificando esses jogos e, de certa forma, fui me envolvendo com isso. Era uma maneira de me aproximar do desenvolvimento de jogos, mas eu nunca realmente acreditei que isso se tornaria minha carreira.
Até que, em 2001, eu já era um grande fã da Remedy na época. Eles tinham acabado de lançar Max Payne 1, e foi então que comecei a modificar o jogo e me interessar mais pelo que eles estavam fazendo. Com o tempo, acabei conseguindo entrar no estúdio, e o primeiro jogo em que trabalhei foi Max Payne 2. Foi assim que minha carreira começou.
Desde então, segui uma trajetória voltada ao design. Comecei como designer de gameplay, trabalhando em diferentes níveis, encontros de combate e outros aspectos do jogo. Depois que terminamos Max Payne 2, passei a trabalhar em Alan Wake, onde atuei como designer líder, e foi a partir daí que minha carreira continuou evoluindo.
República DG: Você pode falar um pouco sobre o seu papel na Remedy hoje? Qual exatamente é o trabalho de um Diretor Criativo?
Mikael Kasurinen: O que fazemos na prática? Então, há um ponto importante: grande parte do meu papel é ter uma visão mais ampla do que estamos tentando fazer. É definir os pilares do projeto e garantir que todos entendam quais são, digamos, os elementos centrais, aquilo que não é negociável na base do jogo. São as coisas-chave que precisam funcionar bem ao longo de toda a experiência.
A partir disso, também é essencial garantir que toda a equipe entenda o que estamos fazendo e por quê. Esse é o ponto de partida. É bom ter um plano, mas, na prática, quando você começa a trabalhar em algo, as coisas geralmente dão errado. Sempre surgem surpresas e imprevistos.
Então, como diretor, o que você precisa fazer é trabalhar junto com a equipe para identificar problemas e também oportunidades. Às vezes, alguém traz uma ideia interessante que não estava no plano inicial. O desafio é entender como integrar isso e reagir da maneira certa, sempre com o objetivo de construir o melhor jogo possível.
No começo, seu papel é mais ativo na tomada de decisões e em garantir que a experiência continue coesa. Já o papel do diretor criativo muda ao longo do processo. Quanto mais o desenvolvimento avança, menos ele atua diretamente em decisões pontuais e passa a focar mais no refinamento, assegurando que tudo esteja bem ajustado e em um bom nível de qualidade no final da produção.
República DG: Qual seu gênero de jogo predileto? E tem algum game que você consiga apontar como seu favorito de sempre?
Mikael Kasurinen: Um dos meus jogos favoritos de todos os tempos era um que acho que muita gente nem lembra mais, chamado Space Control 2. O que eu amava nele, na época, é que começava como um jogo relativamente simples. Era basicamente combate espacial, com naves 2D girando uma em torno da outra enquanto você lutava contra diferentes raças alienígenas.
Mas o que eles fizeram na sequência foi algo impressionante. De repente, você podia explorar um universo inteiro. Quando você abria o mapa pela primeira vez, aquilo era absurdo para a época. Estamos falando de 1989 ou 1990, e havia inúmeras possibilidades. Você podia voar livremente para qualquer planeta, encontrar diferentes raças, coletar minerais e usar esses recursos para melhorar sua nave.
Para mim, aquilo foi algo realmente marcante. Eu era adolescente na época, e essa experiência me fez perceber o que os jogos poderiam ser. Acho que isso influenciou muito o meu gosto, e provavelmente não é surpresa que eu tenha me tornado um grande fã de RPG.
Eu gosto de jogos que oferecem um mundo rico e interessante, em que cabe a mim explorá-lo do meu jeito. Gosto de poder desenvolver meu personagem como quiser e decidir como enfrentar cada situação, escolhendo minha própria abordagem. É essa sensação de controle que me atrai. Por outro lado, não sou tão fã de jogos em que tudo já está muito definido e eu apenas sigo um caminho pré-determinado.
República DG: Max Payne, Quantum Break, Alan Wake, Control… Em cada nova IP/projeto, a Remedy continua entregando narrativas de altíssima qualidade com diversas temáticas e personagens profundos. O que você considera ser o segredo do sucesso da Remedy?
Mikael Kasurinen: Acho que ajuda o fato de sempre termos sido bastante independentes. Como estúdio, tivemos muitos editores diferentes ao longo do tempo, mas isso acabou cultivando uma atitude própria e uma cultura que começou lá no início dos anos 90 e seguiu pelos anos 2000. Sempre tivemos essa ideia de que podemos conduzir nossas próprias ideias, sem ficar esperando que outros nos digam o que fazer. A independência e esse pensamento criativo sempre estiveram presentes.
Também houve um momento marcante nesse processo. O primeiro jogo que fizemos foi Death Rally, depois partimos para Max Payne, que é um tipo de jogo completamente diferente, e em seguida fizemos Alan Wake, novamente algo bem distinto. Isso acabou se tornando parte do nosso DNA como estúdio.
A gente acredita que pode criar qualquer coisa, desde que realmente se comprometa com isso. Se houver investimento e entusiasmo, é possível fazer acontecer. Essa atitude está no centro de tudo o que fazemos.
República DG: Em Control Resonant, iremos controlar Dylan e não Jesse. O que motivou a troca de protagonista?
Mikael Kasurinen: Sim, então essa é uma conversa mais ampla. Uma das coisas principais é que não foi exatamente uma escolha do tipo “vamos mudar o personagem”. Isso já está na base da franquia. Control não é uma série centrada em um único protagonista cuja história seguimos ao longo de vários jogos. É, na verdade, a história de um mundo em evolução.
Cada jogo ambientado no universo de Control apresenta uma perspectiva diferente desse mesmo mundo. Por isso, é intencional que o protagonista mude. Não é algo inédito na indústria. Séries como GTA ou Assassin’s Creed também fazem isso, mantendo o mesmo universo, mas com personagens diferentes.
A diferença é que essa é a visão da Remedy para esse universo, quase como um RPG, em que você passa por diferentes experiências dentro do mesmo cenário. O protagonista pode mudar, e geralmente vai mudar. No entanto, o ponto principal é que não queremos simplesmente saltar para um contexto totalmente novo, com personagens completamente desconhecidos, como acontece em outras franquias.
Em vez disso, existe um fio condutor entre os jogos. Dylan não é um personagem novo, ele já estava presente no primeiro jogo, assim como Jesse. O que estamos fazendo agora é mudar a perspectiva para ele. Não se trata de introduzir alguém aleatório sem conexão com a história, mas de continuar o caminho que já foi estabelecido, apenas sob um novo ponto de vista. Por isso, faz sentido que agora seja o Dylan.
República DG: Onde a história de Resonant se encaixa na linha do tempo? Vamos ver o que Jesse tem feito como a nova Diretora do FBC?
Mikael Kasurinen: Sim, a Jesse definitivamente está lidando com alguma coisa, mas ainda não sabemos exatamente o quê. Eu tenho um problema aqui, porque não posso revelar muito mais do que isso neste momento. Desculpa por isso.
República DG: Vai ser necessário jogar o título anterior para entender a história de Resonant?
Mikael Kasurinen: Eles foram projetados de uma forma em que não importa a ordem em que você joga. Isso acontece, em parte, por causa do novo protagonista. Dylan é, de várias maneiras, uma espécie de lousa em branco. Ele esteve em coma por sete anos, então nós realmente não o conhecemos, e eu também acho que ele não se conhece muito bem. Ao longo do jogo, ele está tentando encontrar seu próprio caminho.
Por isso, mesmo que você nunca tenha jogado nada da Remedy antes, ou não tenha jogado Control, é possível começar por Control Resonant e entender rapidamente o que está acontecendo. Você aprende sobre Dylan junto com o restante do mundo.
Além disso, existem personagens que também não têm conhecimento sobre o passado. Um exemplo é Zoe, que você conhece no início do jogo. Ela estava fora da Casa Mais Antiga quando o bloqueio aconteceu no jogo anterior, então não sabe quem é Jesse, nem conhece a história ou essas forças envolvidas. Ao interagir com ela, você acaba descobrindo muitas coisas, porque ela também questiona o que está acontecendo.
De certa forma, ela representa os jogadores que não tiveram contato com Control antes. Conversando com ela, você aprende bastante sobre o passado e até sobre o que pode ter acontecido com Dylan. Por isso, o jogo foi pensado para funcionar de forma independente, permitindo que qualquer pessoa comece por ele. E, se houver interesse em entender melhor como Jesse se tornou diretora, que é uma história à parte, aí sim é possível voltar e jogar o primeiro Control. Não se trata de uma única narrativa contínua, mas de histórias que funcionam por si só.
República DG: A Remedy fez um grande movimento estratégico recentemente ao fazer uma parceria com a Annapurna para cofinanciar o jogo e explorar adaptações para TV e cinema. De que forma ter esse potencial transmídia e total independência criativa muda a maneira como você aborda a construção de mundo?
Mikael Kasurinen: Sim, definitivamente isso tem impacto. Existe toda uma nova gama de oportunidades que se abre para nós em relação ao que podemos fazer com a narrativa. Ela não fica mais restrita apenas aos jogos, já que podemos expandir para um cenário mais amplo dentro da mídia, como programas de TV, filmes e outras possibilidades.
Mas ainda é cedo para esse tipo de movimento, porque é uma indústria que segue seu próprio ritmo. Mesmo assim, é algo que nos anima bastante e que estamos interessados em explorar no futuro.
República DG: Desenvolver um jogo dessa escala para PlayStation 5, Xbox Series e PC simultaneamente é sempre um obstáculo técnico. Como a engine proprietária Northlight evoluiu para lidar com a destruição e a física desse novo “parque de diversões expansivo”?
Mikael Kasurinen: Sim. No início, quando começamos a falar sobre Control Resonant como um jogo e o que isso significaria para nós, passamos muito tempo discutindo as limitações tecnológicas que precisaríamos superar, especialmente em relação à Northlight. Também pensamos em como construir elementos como edifícios para um mundo desse tamanho, já que este é o maior jogo que já fizemos.
Para mim, era muito importante que o jogo fosse fluido. Queríamos que ele fosse responsivo, agradável de jogar, e atingir sessenta quadros por segundo sempre foi uma meta importante. Todas essas diretrizes foram definidas desde o início, e nós acompanhamos esse progresso ao longo do desenvolvimento.
Acho que estamos fazendo um bom trabalho em garantir que tudo funcione como planejado. O que realmente nos ajudou foi o tempo, principalmente para entender melhor a plataforma, como o PlayStation 5, e garantir que cada elemento esteja no lugar certo. Assim, conseguimos otimizar o jogo de forma adequada quando chega o momento do lançamento.
República DG: A indústria de jogos em 2026 está enfrentando desafios massivos em relação aos custos de desenvolvimento AAA. Diante desse clima, como a Remedy está equilibrando a ambição de criar uma Manhattan massiva e com a realidade distorcida, mantendo as operações do estúdio sustentáveis?
Mikael Kasurinen: Sim, está se tornando cada vez mais importante ter muito cuidado com onde colocamos nosso tempo e energia, porque isso pode facilmente sair do controle, se tornar muito complexo, muito caro e gerar atrasos. E ninguém quer atrasos. É algo realmente difícil de equilibrar.
O que ajuda é que a Remedy sempre foi um estúdio relativamente pequeno. Gosto de pensar que conseguimos fazer muito com poucos recursos. Essa mentalidade nos acompanha há bastante tempo. Aprendemos a pensar fora da caixa e também a abrir mão de ideias que não funcionam.
Tentamos focar no que realmente importa para os jogos que criamos, priorizando as decisões certas e deixando de lado o que é periférico ou menos relevante. Claro que isso não é fácil, porque às vezes você acaba abrindo mão de coisas que poderiam ser importantes. Ainda assim, no fim das contas, é fundamental manter o orçamento sob controle e cumprir os prazos.
Não é simples, mas é a realidade do ambiente em que estamos hoje. O pior cenário é ultrapassar limites, trabalhar demais por muito tempo e perder o controle do projeto. A competição é forte, então precisamos ser inteligentes na forma como usamos nosso tempo.
República DG: Muito obrigado por conceder seu tempo para produzirmos essa entrevista Mikael! Pra finalizar, você quer deixar alguma mensagem para a comunidade brasileira?
Mikael Kasurinen: Sim. O que eu posso dizer para todos os nossos fãs brasileiros é que é fantástico estar aqui. É a minha primeira vez, e eu fiquei realmente impressionado. Acho que todos nós nos surpreendemos com a resposta dos fãs brasileiros aos jogos que criamos. Somos muito gratos por isso.

