Durante a gamescom Latam 2026, a equipe da República DG teve a oportunidade de conversar com Paulo Luis Santos, fundador e designer da Potato Kid. Em meio ao desenvolvimento de Talaka, um roguelite de ação com fortes influências do folclore afro-brasileiro, o projeto surge como um dos primeiros títulos a explorar de forma direta a nossa cultura, criando uma conexão genuína com o público brasileiro. Confira mais sobre o cenário da indústria e os bastidores do jogo no nosso bate-papo:
República DG: Você pode se apresentar e contar sobre o seu papel na Potato Kid?
Potato Kid – Meu nome é Paulo Santos, eu sou fundador e designer de diversas coisas do jogo Talaka. Eu faço a parte de game design, level design, narrative design, sound design e também implemento tudo isso. Nós utilizamos vários “chapéus” pra dar conta de todas as partes do jogo.
República DG: A indústria de jogos está navegando por um cenário bem complexo. Estamos vendo mudanças massivas com custos inflados do desenvolvimento de AAA, consolidações de estúdios e uma cena indie altamente competitiva. Considerando o peso histórico na indústria, como vocês se posicionam para não apenas sobreviver, mas prosperar no clima atual?
Potato Kid – Essa é uma pergunta bastante difícil de responder, porque não existe uma fórmula matemática. É preciso ler o mercado e se posicionar da forma mais saudável possível como desenvolvedor e como estúdio, sem ficar para trás ou preso a modelos antiquados que já não funcionam. É algo que exige reflexão diária e decisões constantes.
Na Potato Kid, a decisão foi ser, por definição e por design, um estúdio pequeno. Isso permite ter mais tempo para trabalhar no jogo e caprichar em cada detalhe, ao contrário de um estúdio maior, que tem custos mensais elevados e acaba pressionando prazos porque o dinheiro se esgota mais rápido.
O caminho escolhido foi o de uma equipe muito coesa, que se dá bem e trabalha com facilidade em conjunto, para construir um jogo mais artesanal. A animação é frame por frame, o design é pixel por pixel, as hitboxes são ajustadas com cuidado, tudo para deixar a experiência agradável de jogar. Esse processo exige tempo, então a decisão foi manter um escopo menor, com orçamento mais controlado, aumentando as chances de sucesso como produto.
Se um jogo custa 100 milhões de dólares, por exemplo, precisa vender muito para se pagar. Se custa 1 milhão, a pressão já é menor. Com 200 mil, menor ainda. A lógica é criar um produto muito bom com um orçamento mais equilibrado, garantindo que o jogo seja saudável e o estúdio sustentável. A aposta é ser pequeno para fazer coisas grandes.
República DG: O Brasil consolidou sua posição como um dos maiores e mais apaixonados mercados de jogos globalmente. Historicamente, tratavam a América Latina como um mercado secundário. Qual a estratégia específica para engajar o público brasileiro hoje em dia?
Potato Kid – Não existe uma única estratégia correta. Cada produto tem a sua. Tudo depende da força daquele jogo e de como ele pode ressoar com essa comunidade tão apaixonada, que lota eventos, participa de lives e consome videogame de forma intensa. No caso de Talaka, existe uma vantagem natural. O jogo foi pensado para ser visualmente marcante, com gameplay sólido e uma arte única.
Além disso, a cultura brasileira está presente em tudo: inimigos baseados em lendas, biomas como Pantanal, Sertão e São Paulo, NPCs inspirados nos orixás. O jogo respira Brasil. Para o público brasileiro, essa identidade tende a chamar atenção de forma imediata. A ideia é atrair pela estética ou curiosidade e manter o jogador pela qualidade do gameplay.
Depois, a permanência vem também pela cultura. A narrativa aborda apagamento cultural e o equilíbrio entre as próprias raízes e as influências externas. O ponto central é justamente não abandonar uma coisa nem se fechar para a outra. No caso de Talaka, a arte chama bastante atenção, pelo menos é o que o público vem comentando.
A pessoa testa, percebe que o controle responde bem, reconhece elementos culturais como o Exu, e uma coisa leva à outra. Isso ajuda a manter o jogador engajado!
O título tem um encaixe natural com o mercado brasileiro, algo que a publisher também reconhece. A ideia é ampliar a presença local, buscar criadores de conteúdo que se conectem com o estilo do jogo ou com a temática cultural e fazer essa mensagem chegar ao público. O grande desafio é se destacar no meio de tanto lançamento. Não existe uma fórmula única para isso.
Mas há confiança de que o jogo tem atributos suficientes para atravessar essa barreira e encontrar seu público.
República DG: Quando falamos sobre o mercado brasileiro, localização e preços regionais são sempre o tópico mais acalorado. Os jogadores brasileiros podem esperar uma localização em português do Brasil no lançamento para todos os grandes títulos futuros? E como vocês estão lidando com a disparidade econômica em relação ao preço dos jogos na região?
Potato Kid – Sobre português do Brasil, sempre vai existir. É algo natural para o estúdio. Muitas vezes o desenvolvimento começa em inglês, mas rapidamente o conteúdo já é traduzido. O jogo atualmente já funciona de forma bilíngue. Mesmo em projetos anteriores, quando o trabalho era terceirizado, em várias situações o português brasileiro era incluído por iniciativa própria, justamente por entender a importância disso para o público local.
Dublagem depende mais de orçamento, então ainda está sendo avaliado se haverá voice acting completo ou uma abordagem mais baseada em sons e expressões. Mas o texto em português está garantido.
Sobre preço, esse é um ponto essencial… A intenção é que Talaka seja acessível. O preço não pode ser uma barreira. Ainda não existe um valor definido, mas no Brasil será mais barato do que em regiões com maior poder aquisitivo. Não faz sentido simplesmente converter dólar para real. 20 dólares não equivalem diretamente a R$ 100 reais na realidade do jogador brasileiro.
Essa diferença é bem compreendida internamente, até por ser um estúdio formado por brasileiros que consomem jogos regularmente. O objetivo é encontrar equilíbrio entre remuneração justa e volume de vendas. Em muitos casos, faz mais sentido vender mais unidades a um preço acessível do que poucas unidades a um preço alto.
A estratégia segue essa linha: entender o contexto local e aplicar um valor mais adequado.
República DG: Com a atual maturidade de serviços de assinatura, como Game Pass e Playstation Plus, quão importantes são esses canais alternativos de distribuição para os futuros lançamentos? Sabemos que a ideia inicial do projeto é o a ideia do projeto é o PC, mas vocês pretendem trazer para os consoles?
Potato Kid – Existe a intenção de levar o jogo para consoles. Já há experiência com isso em projetos anteriores. A ideia é que seja um título multiplataforma, embora ainda não esteja definido se isso acontecerá já no lançamento.
Sobre PlayStation Plus e Xbox Game Pass, são modelos diferentes. O PlayStation Plus costuma trabalhar mais com jogos que já têm algum tempo de mercado, enquanto o Game Pass frequentemente inclui lançamentos. Esses acordos variam muito de projeto para projeto e envolvem negociações diretas com Sony e Microsoft. No caso de Talaka, não há nada fechado no momento. Existem conversas, contatos em eventos e trocas com a indústria, mas nada concreto.
O que é claro é que esses serviços mudaram o comportamento dos jogadores e a dinâmica do mercado. Ainda existe uma busca por equilíbrio entre assinatura e vendas tradicionais. O foco principal, no momento, é fazer o melhor jogo possível!
Se surgir uma oportunidade interessante, será avaliada. Caso contrário, o objetivo continua sendo alcançar o público por meio de preço acessível e qualidade do produto.
República DG: E pra finalizar, vocês querem deixar alguma mensagem pro povo brasileiro? Principalmente para a galera que pretende jogar o Talaka?
Potato Kid –A ideia é que o público brasileiro participe do desenvolvimento do jogo. O objetivo é que Talaka chegue ao lançamento o mais refinado possível, e para isso o feedback dos jogadores é essencial. Em breve deve ser aberto um período em que jogadores poderão entrar no Discord e testar versões ainda em desenvolvimento, assim como aconteceu no evento.
A intenção é coletar opiniões sobre narrativa, gameplay, arte, bugs e tudo possível. Existe uma forte confiança de que o público brasileiro pode contribuir diretamente para melhorar o jogo. Então o convite é claro: adicionar na wishlist, acompanhar nas redes e participar desse processo.
A proposta é construir um jogo melhor junto com a comunidade.
A gamescom Latam acontece entre os dias 30 de abril a 3 de maio de 2026. Confira todas as novidades sobre o evento CLICANDO AQUI!
