Nas últimas décadas, estúdios independentes vêm fazendo um certo esforço pra investirem ainda mais em um gênero que tá sempre em alta: o survival horror. Com orçamentos menores, essas empresas apostam nesse estilo a fim de aproveitar não apenas uma vasta gama de ferramentas, como também meios criativos de contar histórias das mais malucas possíveis.
Fantasmas, alienígenas, mutações, assassinos em série e até a própria mente humana… Tudo isso pode ser vilão quando a narrativa é bem fundamentada e propositiva. E tendo um roteiro decente em mãos, o resto vem fácil quando a equipe por trás de um projeto é talentosa e, acima de tudo, ousada.
Hollowbody, jogo de terror e sobrevivência lançado em setembro de 2024 pro PC, quase acerta todos os seus tiros. Há algo especial no game da Headware, seja por se inspirar claramente na estrutura de clássicos como Silent Hill, Resident Evil e Dino Crisis, ou seja por apresentar uma experiência acessível no geral. Mas infelizmente, há alguns traços fora da curva.
Jogamos a versão de PS5, que chega nesta semana, e o resultado foi algo um pouco aquém do esperado. Sua campanha curta e uma série de problemas técnicos se destacaram acima de outros pontos positivos, e é sobre isso que falaremos nos próximos parágrafos.
A busca por Sasha
Decidida a investigar eventos misteriosos em uma zona de exclusão, Sasha se junta a outros pesquisadores e parte em uma jornada quase que secreta. Porém, o destino não foi feliz com ela: sua viagem se prova como o fim da linha, e as respostas que buscava nem de longe resultaram na tão desejada verdade.
Já se passaram 12 dias desde o ocorrido. Mica, sua antiga parceira, recebe a ligação de que Sasha está desaparecida. E agora, o executivo de segurança de fronteiras, Tax, disse que ela tem apenas 2h pra voltar até a zona e dar o fora de lá, seja descobrindo o que houve ou não.

Não demora pra que as coisas comecem a dar errado. O transporte de Mica cai em uma região totalmente abandonada, cercada por barulhos estranhos e por uma escuridão assustadora. E tudo ganha contornos mais dramáticos quando Mica começa a ser perseguida por criaturas sinistras e por uma voz quase demoníaca, e onisciente.
Agora, ela deve usar tudo ao seu redor pra sobreviver, evacuando o mais rapidamente dali enquanto evita que seu destino se torne o mesmo de várias pessoas que morreram misteriosamente nessa estranha zona.

Hollowbody é um jogo de terror e sobrevivência bem no molde dos clássicos. Com uma campanha curta de até 3h de duração, o jogo te coloca em uma experiência bem padrão do gênero, onde você avança, coleta recursos, vai e volta, enfrenta inimigos e gerencia inventário.
Quem tiver jogado os primeiros Resident Evil e Silent Hill verá de imediato como o jogo funciona. E tirando essas questões mais estruturais, ainda há a possibilidade de alternar entre perspectivas de câmera fixa e em terceira pessoa, tudo funcionando 100% de acordo com o que se propõe. Há, e um modo em primeira pessoa é destravado ao concluir a campanha. Você escolhe como jogar.

Enquanto isso, seu design de fases é relativamente linear, com uma progressão lógica de campanha principal e diversos eventos secundários que envolvem backtracking, ações específicas e coletáveis. Tudo isso aumenta muito o fator replay, bem como um New Game+, modos de dificuldade e até mesmo skins pra Mica.
No geral, Hollowbody surpreende com uma boa quantidade de conteúdos e estimula bem a progressão com puzzles inteligentes e muita lore. A história é simples e até mesmo clichê, mas finais alternativos e vários documentos/interações deixam tudo ainda mais rico, com a possibilidade de te informar sobre eventos que geraram aquela catástrofe.
Combate variado, mas cheio de problemas
Além de ter grande foco no backtracking, Hollowbody também investe muito no combate, principalmente depois do segundo ato. E apesar de haver um certo grau de desafio em alguns encontros, nada melhor do que deixar quase todas as lutas difíceis por conta de incontáveis falhas nesse sistema.
O jogo se sabota muito por causa de seu combate falho. No melee, acertar os monstros é absurdamente frustrante, tanto pelo impacto ser mínimo quanto pelo hitbox ser extremamente inconsistente. E se você for enfrentar os inimigos maiores ou cachorros, nem se fala; os dogs são impossíveis, enquanto os grandões tankam muito dano e são as famosas “esponjas”.

A mesma coisa pode ser dita do combate à distância. A variedade de armas nesse jogo é bem grande, com várias coisas que podem ser usadas pra porrada (placa, guitarra, bastões e mais) e pra dar tiro (escopeta, pistola e lança-chamas. Porém, a imprecisão aqui é alta, e mesmo travando a mira com o “L2”, Mica frequentemente olha pra outro canto ou esquece do alvo.
Em encontros mais densos, como ocorre no fim do jogo, a melhor solução é simplesmente corres. Os cães vão encher seu saco até serem mortos, mas os outros inimigos uma hora te deixam em paz ou sequer conseguem acompanhar seu ritmo. É fácil escapar, então isso é o que eu mais recomendaria.

Tirando isso, a câmera de Hollowbody também atrapalha. Há muitos momentos com corredores estreitos que sofrem com inconsistências na câmera em terceira pessoa. A fixa consegue tankar bem por aparentar ter sofrido mais testes de qualidade, mas como tudo acontece em conjunto, o esperado era que existisse uma jogabilidade menos datada.
Survival horror em essência
Tirando esse aspecto do combate, Hollowbody tem a essência de um survival horror. Seus visuais retrô são cheios de detalhes e se destacam por meio de efeitos de sombras e de partículas, tudo por meio de um pixel-art mais avançado e borrado onde a escuridão, por exemplo, deixa as coisas mais tensas e inesperadas.
Já em termos de estrutura, você precisa ir e voltar com uma certa frequência pra conseguir cartões de acesso, fusíveis, objetos de quebra e outros itens de interesse a fim de abrir caminhos que antes estavam fechados. Nesse sentido, basta seguir seu instinto, pois a progressão no jogo é bastante intuitiva.

Outro ponto importante são os eventos opcionais em Hollowbody. Alguns deles mudam o final do jogo, enquanto outros te recompensam com elementos de combate ou lore. Então, vale a pena explorar bem pra descobrir como concluir quebra-cabeças e limpar as áreas, visto que têm alguns pontos sem retorno.
Fora isso, o design dos monstros é bem competente, apesar da pouca variedade. Seus sons também assustam e dão pistas sobre sua posição, algo que se ofusca em corredores e locais sem iluminação. E não se esqueça de observar bem o cenário, pois munições, itens de cura e armas brancas tão localizadas especialmente em becos sem saída.
Hollowbody tem potencial pra entregar muito mais
Apesar de sua história clichê ser mais interessante depois de encontrar documentos e outros arquivos, Hollowbody é competente no que se propõe. Vemos uma boa estrutura de terror de sobrevivência, com equilíbrio entre combate e exploração e vários elementos que fãs do gênero conhecem bem.
Seus visuais retrô também funcionam quase como algo familiar, visto que são bonitos, cheios de detalhes e enriquecidos por questões técnicas. Porém, não vá com muitas expectativas: nada é tão impressionante ou fora da curva, apenas um feijão com arroz bem feito.
Infelizmente, o combate é muito frustrante. Hitbox confuso, monstros que são esponjas, problemas na mira e inconsistências de câmera decepcionam e mais atrapalham do que ajudam. Recomendo muito jogar na câmera fixa, pois claramente é onde se tira o melhor resultado.
Hollowbody é um jogo curto e objetivo. Caso você curta essas experiências mais autorais e com essência do gênero ao qual se fundamentam, vale a pena conhecer esse. Mas caso os problemas que citei façam mais a diferença pra você, mesmo que o fator replay aumente a variedade de conteúdos por meio de NG+ e modos de dificuldade, melhor esperar o momento certo.
Bem estruturado e simples de compreender, Hollowbody é um jogo de terror que se sabota em diversas questões técnicas e de design.
Pontos positivos
- Bom fator replay com New Game+ e opções de dificuldade
- Boa construção do mundo
- Atmosfera retrô traz ótimas referências aos clássicos
- Experiência acessível de jogabilidade
Pontos negativos
- Tempos de carregamento poderiam ser melhores
- Combate travado e problemático
- Câmera em terceira pessoa atrapalha na exploração
- Problemas de colisão
- História
- Jogabilidade
- Gráficos
- Som
- Desempenho