Estava animado para fazer esta review de Forgotlings, pois a ThroughLine Games chamou atenção de muitos jogadores em 2018 com Forgotten Anne, uma aventura narrativa que tinha uma direção de arte diferenciada e em um universo bem único.
Agora, o estúdio dinamarquês retorna a esse mesmo mundo com Forgotlings, uma espécie de prelúdio que expande a mitologia apresentada anteriormente e coloca o jogador em uma nova jornada repleta de personagens curiosos.
Lançado no dia 18 de junho para PlayStation e XBOX. Antes de qualquer coisa, existe um detalhe importante que precisa ser destacado: Forgotlings não possui localização em português do Brasil. Em um jogo tão focado na narrativa, isso acaba tendo um impacto muito maior do que em outros gêneros.
A história, os diálogos e até mesmo boa parte da progressão dependem diretamente da compreensão do idioma. Quem não domina inglês ou outra língua disponível pode perder uma parcela significativa da experiência.
Sem mais delongas, fica comigo nesta review de Forgotlings e veja tudo o que ele tem pra oferecer:

Um mundo onde objetos esquecidos ganham vida
Começo esta review dizendo que o grande diferencial de Forgotlings está em seu universo. A proposta de transformar objetos esquecidos em personagens vivos poderia facilmente parecer apenas uma curiosidade visual, mas a ThroughLine Games faz um trabalho muito competente ao construir uma identidade própria para cada criatura encontrada ao longo da jornada.
No game, assumimos o papel de Fig, um boneco que acabou esquecida no mundo dos humanos e agora vive nas Terras Esquecidas, um lugar habitado por objetos abandonados que ganharam vida própria.
Como capitão da nave senciente Volare, sua missão é viajar por esse mundo para unir cinco tribos rivais diante de uma ameaça que pode colocar toda a região em risco.

É comum encontrar barcos falantes, luminárias com personalidade própria, pedras que participam de conversas e figuras que desafiam qualquer expectativa inicial. Cada personagem possui características visuais marcantes, formas únicas de se expressar e uma presença que ajuda a tornar o mundo mais interessante.
Essa criatividade faz com que a exploração seja recompensadora mesmo nos momentos em que o jogo desacelera. Existe sempre a curiosidade de descobrir quem será o próximo personagem encontrado e qual será sua história dentro daquele universo.
A própria narrativa se beneficia dessa construção de mundo. A trama de Fig funciona bem como fio condutor, mas são os habitantes das Terras Esquecidas que frequentemente roubam a cena e tornam a aventura memorável.
Uma direção de arte que impressiona do início ao fim
Se existe um aspecto capaz de chamar atenção imediatamente em Forgotlings, é seu visual. Com uma estética inspirada no Studio Ghibli.

A sensação é de estar acompanhando uma animação desenhada à mão. Os cenários apresentam um nível de cuidado impressionante, enquanto os personagens possuem animações fluidas e expressivas que ajudam a transmitir emoções mesmo durante os momentos mais simples.
O estilo artístico criado pela ThroughLine Games demonstra uma identidade muito forte. Em uma época em que muitos jogos acabam seguindo tendências visuais semelhantes, Forgotlings consegue parecer único.

O cuidado também aparece nos pequenos detalhes. As roupas, os acessórios, os movimentos e até mesmo a forma como cada personagem ocupa a tela ajudam a reforçar sua personalidade. É um daqueles jogos em que vale a pena parar por alguns segundos apenas para observar o trabalho realizado pelos artistas.
Visualmente, é sem dúvida um dos maiores destaques da experiência que tive ao produzir esta review de Forgotlings.
Narrativa é o verdadeiro foco da experiência
Embora exista combate e exploração, Forgotlings é essencialmente uma aventura narrativa.
Grande parte do tempo é dedicada a diálogos e construção do mundo. Em alguns momentos, é possível passar vários minutos apenas acompanhando conversas importantes para a trama. Então pode esperar por conversas longas.

Ao longo da jornada, também surgem decisões que influenciam diretamente o final da história e o destino de diversos personagens. Essas escolhas são chamadas de “tramas” e apresentam sempre quatro respostas possíveis: desafiar, encorajar, ter empatia ou questionar.
A boa notícia é que a história consegue sustentar esse ritmo. A jornada de Fig apresenta temas ligados à identidade e união.
O problema é que essa estrutura reforça ainda mais a questão da localização. Como quase tudo depende dos diálogos, perder informações importantes pode gerar confusão tanto na narrativa quanto na própria progressão da campanha.

Por isso, Forgotlings acaba sendo muito mais recomendado para jogadores que gostam de experiências focadas em história do que para quem procura ação.
Combate simples, mas divertido
O combate não tenta competir com grandes jogos de ação do mercado, mas oferece mecânicas suficientes para manter os confrontos interessantes.
Além dos ataques básicos, Fig pode se esquivar, defender golpes, utilizar sua lanterna para desorientar inimigos e até recorrer a abordagens furtivas em determinados momentos. Existem situações em que eliminar adversários pelas costas acaba sendo a melhor estratégia.

O impacto dos golpes é interessante e existe uma sensação agradável durante os confrontos. Mesmo sem ser particularmente complexo, o sistema cumpre seu papel dentro da proposta do jogo.
O principal problema aparece com o passar das horas. Como não existem árvores de habilidades, melhorias significativas ou sistemas de progressão mais elaborados, o combate permanece praticamente igual do início ao fim.

Isso faz com que os encontros acabem se tornando previsíveis e repetitivos em determinados momentos da campanha.
A exploração sofre com a falta de ferramentas básicas
Se existe uma decisão de design que prejudica a experiência com frequência, é a ausência de recursos para orientar o jogador.
Forgotlings apresenta áreas relativamente amplas e uma estrutura que lembra ocasionalmente jogos de exploração lateral. No entanto, não existe um mapa local que facilite a navegação dentro dessas regiões.
Além disso, o jogo também não possui um sistema tradicional de registro de missões ou objetivos.
Na prática, isso significa que perder uma informação importante durante um diálogo pode gerar longos períodos de dúvida sobre o que fazer em seguida. Como os personagens nem sempre repetem instruções anteriores, encontrar o próximo objetivo pode se tornar uma tarefa mais complicada do que deveria.

Esse problema é agravado justamente pela ausência de localização em português. Quem já estiver enfrentando dificuldades para compreender os diálogos pode acabar ficando perdido com frequência.
A sensação não é de dificuldade proposital, mas sim da falta de algumas ferramentas de qualidade de vida que tornariam a experiência mais acessível.
Dublagem e trilha sonora ajudam a dar vida ao universo
A apresentação sonora acompanha o excelente trabalho visual. A trilha sonora funciona muito bem ao longo da aventura, ajudando a reforçar tanto os momentos mais contemplativos quanto as situações de maior tensão.
Já a dublagem merece destaque especial. As vozes foram escolhidas de forma cuidadosa e combinam perfeitamente com a personalidade dos personagens. Considerando a variedade de criaturas encontradas durante a campanha, esse trabalho era fundamental para que cada uma delas transmitisse identidade própria.
O resultado é um elenco carismático que contribui bastante para a imersão.
INA é um minijogo que não empolga
Forgotlings também inclui um minijogo baseado no uso de runas coletadas durante a aventura, o INA.
A ideia é participar de partidas contra NPCs para obter recompensas e moedas dentro do universo do jogo. No papel, parece uma atividade interessante para complementar a exploração.

Na prática, porém, ele nunca alcança o mesmo nível de qualidade do restante da experiência.
As partidas rapidamente se tornam pouco envolventes e dificilmente despertam vontade de continuar jogando além do necessário. Diferente de outros minijogos marcantes presentes em RPGs e aventuras famosas, aqui a atividade parece mais uma obrigação ocasional do que uma distração divertida.
Review de Forgotlings: vale a pena?
Termino esta review de Forgotlings com uma sensação positiva sobre o game. Ele é uma aventura que entende muito bem quais são suas prioridades. A ThroughLine Games construiu um universo extremamente criativo e sustentado por uma direção de arte que está entre os grandes destaques do gênero.
Ao mesmo tempo, o jogo abre mão de sistemas mais profundos de progressão e de algumas ferramentas básicas de navegação, decisões que acabam prejudicando o ritmo da exploração em diversos momentos. A ausência de português do Brasil também pesa bastante em uma experiência tão dependente de diálogos.
Ainda assim, para quem aprecia experiências cinematográficas e produções independentes que possuem uma identidade própria, Forgotlings oferece uma jornada interessante e repleta de personalidade.
Ele talvez não agrade quem procura ação ou mecânicas complexas, mas encontra seu espaço entre os jogadores que valorizam boas histórias e uma direção artística marcante.
Desde o início, ficou claro para mim que Forgotlings não estava tentando impressionar pelo combate ou pela quantidade de sistemas. O foco da ThroughLine Games está na narrativa, nos personagens e na forma como esse mundo foi construído.
Foi justamente isso que me manteve interessado durante a campanha. A cada nova área apareciam personagens curiosos e situações que reforçavam a criatividade do estúdio. Em vários momentos, a vontade de descobrir o que existia logo adiante acabou sendo mais forte do que qualquer recompensa de gameplay.
Não será esquecido
- Direção de arte belíssima e cheia de personalidade
- Mundo criativo e repleto de personagens intrigantes
- Boa construção narrativa
- Trilha sonora e design de som muito bons
- Desempenho estável
Esqueça
- Não possui localização em português do Brasil
- Falta de mapa local dificulta a exploração
- Ausência de registro de missões e objetivos
- Combate lento e pode se tornar repetitivo
- Alguns momentos podem deixar o jogador perdido
- Visuais
- História
- Desempenho
- Jogabilidade
- Som
