Eu tenho um grande apreço por jogos de plataforma cinematográficos. A franquia Planet of Lana, Inside, Forgotton Anne, Neva, Gris.. A lista, felizmente, tem crescido ano após ano. Achei importante deixar isso claro pra ilustrar o tamanho do sorriso que eu dei quando vi o primeiro trailer de Deer & Boy, projeto da Lifeline Game Studio com publicação assinada pela Dear Villagers.
A fuga
A narrativa de Deer & Boy não é contada do jeito explicíto. Temos cutscenes, mas nada de diálogos e tampouco colecionáveis de texto. Essa pegada interpretativa é o padrão dentro de jogos com essa proposta, logo, é algo que eu já esperava.
Nossa aventura começa ao controlar o Garoto. Lidando com uma aparente perda que o deixou desolado, ele decide fugir de casa numa tentativa de escapar da realidade. Só que no meio do caminho ele se depara com um filhotinho de um cervo, também lidando com uma perda trágica.

O pequenino cervo funciona como um deuteragonista, inicialmente servindo como um ponto de conexão emocional do garoto com o jogador. Logo após a hora inicial, mais mistérios vão surgindo na tela. Uma substância viscosa, chamada de matéria escura, está infectando qualquer ser que entra em contato com ela.
Isso serve como justificativa para o surgimento de figuras monstruosas e raivosas que funcionam como trechos de fuga no jogo. O primeiro deles, o javali, era uma criatura normal, que foi auxiliada pelo Garoto, mas que acaba sendo profundamente transformado pela matéria misteriosa. Após isso, o javali cresce em pelo menos 10x de tamanho, tornando-se imponente e furioso, capaz de arremessar carros para longe.

É diante desse contexto que descobrimos que o cervo não é um cervo comum. Ele consegue acionar uma magia azul que aparenta ter o poder de purificar os seres afetados pela matéria escura. Vários mistérios vão surgindo ao longo da trama, mantendo o jogador engajado e interessado nas respostas. O que é a matéria escura? Como ela foi parar ali? De onde vem a magia do cervo? A narrativa funciona aqui e é bem competente.
Problemas no horizonte
Deer & Boy se posiciona como um jogo de “plataforma cinematográfico”. A parte cinematográfica é facilmente percebida em vários trechos do jogo. A direção das cenas, os recursos de iluminação que lembram um filme animado, a trilha inserida para evocar sentimentos…
Minha maior ressalva com ele reside na parte do “plataforma”. Em jogos dessa proposta, os controles precisam ser extremamente precisos. Seja para pular, subir em beiradas, interagir com objetos… e infelizmente esse não é bem o caso aqui. Notei um delay considerável em certos trechos para que o Garoto cumprisse comandos básicos, como subir em uma pedra para evitar a matéria negra.

Por mais que o jogo seja compacto, essa irresponsividade incomoda e diminui bastante o fator diversão do jogo. Uma surpresa positiva foi o próprio level design. Temos um bom nível de interatividade com o cenário, com o Garoto tendo que remover obstáculos como tábuas de madeira ou interagir com cordas para fazer rochas caírem nas poças de matéria escura.
A tensão no gameplay acontece nos trechos de “perseguição” onde o Garoto precisa agir de maneira furtiva, evitando ser pego. Para entregar um senso de urgência ainda maior, temos trechos que impedem que o Garoto prossiga com o Cervo até que um caminho seja providenciado pelo jovem. Além de ajudar com o senso de urgência, isso também mantém o jogador investido no gameplay.
Uma aventura cinematográfica
Estruturado como um jogo 2.5D, Deer & Boy faz um uso inteligente da palheta de cores para aliar sua estética com o storytelling. No começo da história, temos o uso de cores predominantemente frias, como o cinza e o azul. Isso reflete o estado emocional dos dois personagens principais.
Na medida que o cervo cresce, as cores se alteram e o jogo passa a abraçar mais as cores quentes. Eu achei esse artíficio bem inteligente. Como não temos uma direção de arte realista, o estúdio se empenhou para entregar animações de ponta.

Podemos perceber o estado emocional do cervo ao prestar atenção nos sons que ele emite e o comportamento da criatura. Ele se contrai um pouco quando está com medo por exemplo. Como falei mais acima, outro grande aspecto artístico é o enquadramento escolhido para certas cenas.
Por muitas vezes, a câmera se afasta e dá um foco maior nas paisagens, gerando o sentimento de vastidão e consequentemente solidão. Por fim, mas não menos importante, o som aqui também é protagonista.
A trilha evoca muito bem uma diversidade de sentimentos, indo de tristeza profunda até conforto. Outro ponto que achei genial é que muitas vezes os puzzles contam com pistas auditivas sutis que dão um pequeno indicativo do que fazer caso você fique empacado. Mas, reforçando, elas são incrivelmente sutis, logo, o uso da lógica é demandado constantemente na aventura.
Os puzzles são bem inteligentes e não existe muito o “segurar de mãos” tradicionais de jogos como esse, o que acabou me agradando bastante. Tecnicamente falando, não tive nenhum problema com bugs ou crashes, contudo, em certos momentos, achei os visuais com um nível de qualidade abaixo do que eu esperava.
Em boa parte das cenas, a boa direção de arte ajuda a mitigar esse problema, contudo, em outros trechos essa falta de polimento nas texturas e resolução acaba se tornando bem vísivel, mesmo para um indie.
Review de Deer & Boy – Vale a Pena?
Deer & Boy conta uma história emotiva que deve agradar quem busca por uma experiência mais compacta, ideal para ser aproveitada entre jogos maiores. A amizade entre o garoto e o cervo evoluiu bem e emociona, pilares esses que julgo serem essenciais em games assim. Infelizmente nem tudo é perfeito. A jogabilidade não é tão responsiva quanto deveria, mas não chega a ser algo grave o suficiente para destruir a experiência.
Se você busca por jogos de plataforma cinematográficos com uma duração mais compactada, Deer & Boy pode ser uma excelente pedida!
Deer & Boy tropeça um pouco na jogabilidade mas acerta forte na narrativa, entregando uma aventura emotiva que deve agradar os fãs do subgênero.
Pontos Positivos
- História emocionante
- Amizade do Garoto e do Cervo evolui bem
- Trilha sonora ótima
Pontos Negativos
- Jogabilidade não é tão responsiva
- Texturas estranhas em certos trechos
- Narrativa
- Jogabilidade
- Desempenho
- Direção de Arte
- Som
