Terror e cooperação combinam muito bem, concorda? Enquanto muitas pessoas dizem que jogar com amigos praticamente tira toda a tensão criada ali, outros acreditam que ainda é possível estabelecer boas bases pro medo, ao mesmo tempo que todas as pessoas trabalham juntas pra sobreviver.
O fato é: quando essa segunda escolha parte de devs competentes, somos agraciados com projetos bem embasados; não necessariamente caprichados. Seria justo dizer que ao menos a ousadia ganha pontos? Sim, mas também devemos nos esforçar o mínimo pra encontrar virtudes e conseguir se divertir em games coop de horror sem perder nossa sanidade.
The Mound: Omen of Cthulhu é basicamente isso. Aqui, temos um jogo muito interessante em aspectos visuais e conceituais; algo que motiva os jogadores a explorarem bem cada canto de mapas perturbadores, em busca de tesouros que ninguém conseguiu reaver e de manter a loucura afastada de suas almas.
Caça ao tesouro
Obcecados por tesouros escondidos em um continente misterioso, caçadores de todo o planeta partem em busca de construir suas fortunas. Porém, as expedições começam a apresentar uma taxa muito alta de insucesso, afastando quem coloca sua vida como prioridade em comparação com as riquezas.
Mas nem todos são assim: ao lado do capitão do Galeão, um grupo faz contratos prometendo grandes lucros para sua equipe. E cada contrato leva a aventuras inesperadas onde não há qualquer tipo de garantia. Em uma selva que tá sempre se transformando, poucos são os corajosos que têm ousadia de desbravá-la e de chegar ao seu centro, conhecido como The Mound.

The Mound: Omen of Cthulhu é um jogo de terror cooperativo, com suporte pra jogatina solo e até quatro pessoas em uma mesma sala. Ele se baseia em um loop de jogabilidade onde você aceita contratos, prepara seus recursos e parte pro continente, funcionando como um game de extração em primeira pessoa.
Quanto mais tesouros você conseguir coletar na expedição, maiores seus ganhos. Porém, coletar mais significa passar mais tempo nos mapas; e com isso, os riscos de game over se tornam muito maiores. E confie em mim: você não tá nem um pouco preparado pro que verá em apenas poucos minutos.

Inspirado nas narrativas de H.P. Lovecraft, The Mound: Omen of Cthulhu aborda muito a ideia de loucura, tornando-a um dos fundamentos do jogo. Enquanto tão em terra firme, os personagens sentem todo tipo de efeito, algo que pode os afastar dos membros de sua equipe e simplesmente não conseguir confiar em mais nada.
Enquanto isso, sua história se baseia praticamente toda em alguns poucos coletáveis. Documentos ficam espalhados pelos 18 mapas da campanha, dando pistas sobre antigos sobreviventes e sobre o evento cósmico que levou àquela calamidade. Mas não espere algo profundo: as dezenas de horas necessárias pra alcançar The Mound te fazem desprender da história e simplesmente jogar como se fosse algo próximo de um sandbox.
Depois do contrato é “boa sorte”
Assinar o contrato de expedição em The Mound: Omen of Cthulhu é um atestado de boa sorte. Depois que você aceita a missão, você tem direito a escolher alguns recursos dela pra levar, incluindo espadas, facas, machados, armas de fogo, arco e flecha, lamparina, poucas munições e itens de cura.
Como o jogo se trata de um survival, a munição e os recursos são muito escassos. Desde o primeiro momento, o game reforça a ideia de você preservar seu inventário; algo que não é desperdiçado pois tudo conta pra contagem de resultados da missão (por exemplo, você deve acumular 1000 moedas em tesouros, e todos os recursos valem alguma coisa, mesmo os que foram trazidos do Galeão).

Aqui, começa o loop da jogabilidade. Ao lado da sua equipe e de um veículo de transporte, você precisa explorar mapas muito, mas muito densos, encontrando o que for valioso e voltando pro baú do transporte pra depositar lá (também é um baú limitado). A campanha respeita muito bem esse sistema, mas nem de longe é tão simples quanto parece.
O cocheiro pode ser chamado por uma trombeta, mas isso atrai monstruosidades. Seu amigo pode ser chamado por um assobio, mas isso atrai monstruosidades. Você pode correr pra agilizar o passo, mas isso atrai os monstros. Você também pode escolher caminhos mais densos com galhos e árvores, mas isso também atrai os monstros. Você pode andar com armaduras, mas isso também faz barulho. Entendeu agora? Tudo em The Mound: Omen of Cthulhu é seu inimigo.

Como se não bastasse, o jogo tem muitas armadilhas ambientais, riscos de queda, lugares escuros e hostilidade; algo que é profundamente acentuado por um dos melhores sistemas de loucura que já vi nos games.
Sim, você está louco
A melhor forma de jogar The Mound: Omen of Cthulhu é assumindo que você tá louco desde o momento em que pisa em terra firme. Esse sistema é extremamente profundo e é responsável pela dinâmica principal de jogo, seja dando uma falsa sensação de segurança ou simplesmente abrindo uma caixa de Pandora.
O jogo é impiedoso nesse sentido. Quanto mais tempo você passa na ilha, mais os personagens jogáveis ficam sujeitos a todo tipo de insanidade, vendo sua missão ruir completamente mesmo que já esteja nos momentos finais da contagem pra retirada. Não há paz aqui.

Prepare-se pra ser capturado por monstros bizarros, pra ser marcado por umas aranhas explosivas, pra ser caçado interminavelmente por seres gigantes, pra entrar em um surto quando o corvo nota sua presença, pra ficar invisível pros seus amigos ou ver apenas suas silhuetas, pra assistir fantasmas perseguindo os outros flutuando… Cara, é bizarro.
A quantidade de anomalias existente nesse jogo surpreende. Vi meus colegas se transformarem em árvores ambulantes e em monstros, criarem uma espécie de pústula por todo o corpo, cuspirem larvas que se transformam em lacraias apavorantes, verem suas armas virando galhos de árvore e se tornando impossíveis de recarregar, serem transportados pra pontos extremos do mapa… Fora isso, os próprios monstros podem se transformar neles.

É irado demais esse sistema e acrescenta uma dinamicidade absurda. Levando em conta que os mapas mudam quando você volta pruma mesma missão, seja no sentido de rotas ou de ajustes no clima (como chuva, tempestade, noite, neblinas etc.), The Mound: Omen of Cthulhu é um dos jogos multiplayer com o maior fator replay que já pude testar.
E já que tamos falando de elogios, preciso comentar sobre os aspectos técnicos. O game tem facilmente um dos gráficos ambientais mais bonitos dessa geração. Efeitos da selva são impressionantes, a névoa é absurdamente realista, o movimento das águas brilha muito e as partículas dão uma imersão raramente vista em um jogo como esse.

E como se não bastasse, o sistema de som trabalhado pela ACE Team é de excelente qualidade. Enquanto explora os mapas, você vai ouvir gritos de sobreviventes (ou de falsos sobreviventes), barulhos de entidades cósmicas, sons da natureza, seres se aproximando ou se distanciando… Tudo isso é reproduzido com um capricho que merece palmas.
Infelizmente, é injusto
Por algumas boas horas, joguei The Mound: Omen of Cthulhu em praticamente todos os modos: solo, com um amigo e com mais três colegas. Não tive a chance de experimentar com outros dois amigos, mas o que ficou foi uma sensação de desbalanceamento profunda.
No modo solo, o jogo permite que um bot controlado por IA te acompanhe como se fosse mais um caçador de tesouros. Aqui, só elogios: a inteligência artificial dele é excelente, e em nenhum momento você o vê parado. Ele tá o tempo todo rondando pelo mapa, carregando tesouros pro baú, combatendo monstros e te ajudando a sobreviver.

Já no modo online com outro amigo, o bicho pegou. Os primeiros minutos são simples e fluem bem, mas quando você vai chegando perto da meta de tesouros as coisas perdem totalmente o controle. Inimigos aparecem de todo lado quando sua munição já tá no fim e quando não há mais frascos de cura. Fora isso, o grau de loucura aumenta consideravelmente; algo que te faz desistir e simplesmente não ver mais saídas pra missão.
As segundas chances ocorrem praticamente quando seu amigo tá vivo. Caso ele morra, o jogo vai fazer com que venha um monstro doppelganger, e exterminá-lo permite levar seu corpo pro transporte e deixar o cocheiro curá-lo. Porém, quando as coisas chegam nesse estágio, é sinal de que há poucas chances de sucesso.

Os melhores resultados em The Mound: Omen of Cthulhu foram com quatro pessoas. A cooperação no jogo é boa e você se sente ajudado por todos, seja pra levantar ou pra acumular tesouros. Além disso, o jogo entende que há uma maior resistência e coloca eventos de larga escala, como quando apareceu do nada um verme gigantesco debaixo da terra e atropelou todos nós.
Como o jogo praticamente não tem progressão (apenas melhorias nas rações de comida e upgrades temporários nas armas) e as habilidades de cada personagem são nulas, há a sensação de que o continente tá sempre à sua frente. Faz sentido dentro da lore do jogo, mas por razões óbvias isso torna a experiência frustrante em pouquíssimas horas.

Fora isso, The Mound: Omen of Cthulhu conta com algumas quedas de FPS, travamentos com crashes, poucas opções de acessibilidade e uma interface claramente projetada pro PC. Assim, fica a sensação de uma experiência de jogo ainda inacabada ou apenas mal portada da versão de computador.
The Mound: Omen of Cthulhu é desafiador à sua maneira
A primeira impressão de The Mound: Omen of Cthulhu é surpreendente. Vemos, de fato, um jogo absurdamente caprichado em termos visuais, com um design de ambientes fantástico, mapas muito maiores do que se propõem e um sistema de som que mete medo a cada passo que você dá. Vemos uma experiência totalmente cadenciada por meio desses aspectos mais “naturais”.
Apesar disso, não há como negar que a exigência pra quatro jogadores não pegou bem. Nos outros modos, vemos um desbalanceamento claro, com desequilíbrios que vão desde a quantidade de eventos e ameaças nas retas finais até na pouca capacidade de recuperação dos personagens. A frustração e o estresse são sentimentos que definitivamente vão existir.
Pontos negativos como esses são difíceis de ignorar em um jogo desse escopo. E numa época onde tanto se fala sobre a necessidade dos títulos single player retomarem a liderança do cenário de games, jogos multiplayer têm uma janela cada vez menor pra erros. Em The Mound: Omen of Cthulhu vemos poucos, mas os existentes podem comprometer muito o teu investimento.
Mas pra quem tem grupos fechados de amigos e uma grana separada pra investir em um AA de 40 dólares, só vai. Aqui os risos vão ser substituídos pelos gritos e pelo silêncio, vá por mim. E o alto grau dos desafios, mesmo em missões de nível fácil (vão até as lendárias), pode tornar esses momentos juntos mais satisfatórios em termos de recompensas.
The Mound: Omen of Cthulhu é um terror cooperativo que surpreende por seus aspectos técnicos, mas que acaba se excedendo no desequilíbrio e se equivocando em algumas escolhas de design.
Pontos positivos
- Visuais dos ambientes são impressionantes
- Gameplay é genuinamente tenso
- Ótima variedade na dinâmica de jogo
- Sistema de som é absurdamente bom
- Jogabilidade cooperativa funciona muito bem
- Universo bem misterioso e construído
Pontos negativos
- Quedas de FPS e travamentos (com crashes)
- Progressão é pouquíssimo estimulante
- Desbalanceamento claro em jogatinas solo ou com até 2 amigos
- Problemas na interface, em especial no mapa das missões
- História
- Jogabilidade
- Gráficos
- Som
- Desempenho