Screamer chega em um momento curioso pros jogos de corrida. Enquanto os simuladores seguem dominando com foco em realismo, os arcades parecem ter perdido espaço ou identidade.
Nesse cenário, a Milestone decide ir na contramão e aposta em algo mais ousado: um jogo de corrida arcade com forte foco narrativo, estética inspirada em animes dos anos 1990 e mecânicas que misturam direção, combate e gerenciamento de recursos.
Nesse sentido, Screamer não tenta ser discreto. Pelo contrário, ele abraça o exagero e uma identidade bem definida, mas diante de uma ambição que cobra o seu preço. Em vários momentos, o jogo exige demais do jogador, seja pela complexidade das mecânicas, seja por decisões de design que nem sempre funcionam bem.
Uma história interessante que se perde no excesso
Logo no início, fica claro que Screamer quer ser mais do que um simples jogo de corrida. O modo história coloca o jogador em um torneio ilegal organizado por Mr. A, em um mundo cyberpunk dominado por corporações e tecnologia avançada.
O destaque dessa parte vai pro Echo, sistema que permite que carros e pilotos sejam reconstruídos após acidentes, o que influencia tanto a narrativa quanto o gameplay.

O problema tá na forma como essa história é contada. Em vez de um protagonista claro, o jogo apresenta cinco equipes diferentes, cada uma com seus próprios objetivos. A ideia é interessante, pois amplia o universo em direção a vários caminhos. No entanto, na prática, isso prejudica o envolvimento emocional.
A narrativa de Screamer muda constantemente de perspectiva, o que quebra o ritmo e dificulta a conexão com os personagens. Em muitos momentos, fica difícil lembrar motivações ou entender a importância de certos conflitos. Assim, mesmo com uma campanha longa, o excesso de personagens dilui o impacto emocional.

Além disso, o jogo demora pra engrenar. As primeiras horas são carregadas de diálogos e introduções, com pouco avanço real. Quando a história finalmente começa a evoluir, já existe um certo desgaste, e pra piorar, o tempo entre cenas e corridas é desbalanceado, com longos trechos de diálogo pra corridas rápidas, o que prejudica o ritmo geral.
Direção de arte que tenta ser a salvação
Se a narrativa de Screamer tropeça, a direção artística compensa com folga. O jogo de corrida acerta ao abraçar a estética cyberpunk com cores bem características, iluminação neon e designs marcantes.
Os carros são um dos grandes destaques do jogo, pois sem limitações de licenciamento, cada veículo possui identidade própria e reflete bem seu piloto e equipe. Essa conexão visual funciona muito bem e reforça a personalidade de um jogo que busca nisso uma vantagem competitiva.

As pistas também seguem essa linha, com circuitos urbanos e ambientes que favorecem a alta velocidade. Ainda assim, a variedade de cenários é limitada, o que gera repetição ao longo da campanha. E a trilha sonora, embora não seja memorável, cumpre bem seu papel e combina com a proposta do jogo.
Gameplay profundo, mas exigente
É no gameplay que Screamer realmente se diferencia. O sistema de direção com dois analógicos muda completamente a forma de jogar: o analógico esquerdo controla a direção, enquanto o direito define o drift. No começo, isso pode parecer estranho, mas com o tempo, o sistema faz sentido e oferece um bom nível de controle.
Além disso, o jogo adiciona camadas com os sistemas de Sync e Entropia. A Sync é usada pra boosts e é carregada com ações como trocas de marcha no tempo correto, já a Entropia permite ataques e defesas. Essa dinâmica cria um ciclo estratégico interessante, mas também aumenta a complexidade e seu nível de preparo.

O resultado é um gameplay profundo e até mesmo inovador em alguns sentidos, mas que exige atenção constante. Pra jogadores menos experientes, isso pode ser frustrante, especialmente nas primeiras horas.
Dificuldade inconsistente atrapalha
O maior problema de Screamer tá no equilíbrio. O jogo apresenta picos de dificuldade desregulados e sem lógica, com desafios que exigem execução quase perfeita sem preparação adequada.
A inteligência artificial também contribui negativamente. Em algumas corridas, os adversários parecem ter vantagem injusta, mantendo desempenho perfeito independentemente das condições. Isso gera uma sensação de injustiça e sugere que há regras pouco específicas pra cada corrida.

Além disso, certas missões impõem objetivos que não combinam com o fluxo natural da jogabilidade. Somado a isso, o desbalanceamento entre personagens faz com que algumas escolhas sejam claramente superiores, o que limita a liberdade do jogador.
Um arcade que exige disciplina
Apesar da estética arcade, Screamer não permite uma jogabilidade casual. Saber quando frear, controlar o carro e gerenciar recursos é essencial. Isso cria uma experiência híbrida, que mistura acessibilidade visual com exigência mecânica.
Fora da campanha, o jogo oferece bons modos adicionais, incluindo Arcade, Time Attack e multiplayer local. No entanto, boa parte do conteúdo depende do progresso na história, o que pode incomodar quem quer ir direto pras corridas.

Screamer é um jogo cheio de personalidade, que acerta na proposta visual, traz mecânicas interessantes e tenta inovar em um gênero que precisa disso. Por outro lado, sofre com narrativa confusa, dificuldade inconsistente e sistemas que podem afastar parte do público.
Ainda assim, é um jogo que merece atenção. Pra quem estiver disposto a aprender suas mecânicas e aceitar suas falhas, existe uma experiência rica e desafiadora aqui. Pra outros, pode parecer apenas um jogo que exige mais do que deveria.
No fim, Screamer é exatamente isso: um título que acelera com tudo, mas que nem sempre sabe a hora certa de frear.
Screamer é um jogo de corrida visualmente atraente e que se vende como um arcade, mas que também acaba esbarrando em uma dificuldade injusta e em uma jogabilidade complexa demais.
Pontos positivos
- Boa variedade de conteúdos
- Visuais em anime e em cel shading muito bonitos
- Desempenho satisfatório no geral
- Bom suporte aos recursos do DualSense
Pontos negativos
- Dificuldade absurdamente injusta e sem lógica
- Jogabilidade complexa demais para um arcade
- História sem graça com personagens pouco convincentes
- Falhas na localização em PT-BR
- Jogabilidade
- Desempenho
- Direção de Arte
- Som
- História