Quanto você pagaria pra assistir as corridas mais inesperadas da Terra? O que você gostaria de ver competindo? Busões? Patinetes? Ou qualquer outro meio de transporte que seja minimamente capaz de carregar alguém de um ponto A até o B?
A criatividade das pessoas não tem limites em alguns dos casos. Ao longo de toda a nossa história, já vimos basicamente todo tipo de esporte radical, e com isso se torna quase difícil pensar em o quê mais tá faltando. Mas calma: felizmente, não precisamos ter o trabalho de gastar a mente tendo essas ideias furadas.
O estúdio Undercoders fez uma viagem pra um futuro onde as megacorporações dividiram a população em um Japão distópico, apenas pra mostrar como seria um mundo onde trens de carga se tornassem carros de Fórmula 1. Pera, carros de Fórmula 1? Não mesmo! Mas pranchas de skate ultra plus size, capazes de fazer quase tudo que Tony Hawk e outras lendas conseguiram.
E rapaz… a coisa é frenética mesmo, hein? Isso é Denshattack!
Que espécie de Tóquio é essa?
Revoltada com a situação atual da humanidade, Emi, uma jovem entregadora de ramen, decide se envolver em atividades mais arriscadas. Ao encontrar o jornalista Fernando, ela descobre que ricos e pobres tão disputando entre si lugares melhores ao sol, dirigindo máquinas gigantes que se transformaram em verdadeiros dispositivos de guerra: os trens.
Fascinada por essa ideia e pela adrenalina de se envolver nesse submundo, a jovem usa a competição como uma justificativa pra acabar com o controle da megacorporação Miraido, que controla o restante do mundo com braço de ferro e acabou por separar os ricos em domos, mantendo distância da galera baixa renda.

Não demora pra Emi perceber que seu caminho não tem mais volta. A cada circuito, a cada corrida, ela se vê cada vez mais dentro desse universo perverso e desigual, e sua própria vida começa a entrar em xeque. Será que foi uma boa decisão entrar no Denshattack? Sendo boa ou não, ela não dá a mínima pra isso.
Denshattack! é um jogo de aventura, plataformas e esporte. Com visão traseira no melhor estilo games de corrida, o título da Undercoders é basicamente um Tony Hawk’s Pro Skater com trens, contendo um sistema riquíssimo de manobras e de mecânicas que deixa, em um primeiro momento, a experiência muito viciante.

Ao longo de uma campanha de mais de 10h de duração (dependente de habilidade, aliás), você passará por vários mapas de um Japão distópico, conhecendo as grandes cidades do jeito como elas tão no futuro, bem como o interior do país em uma riqueza impressionante de detalhes.
Assim como outros títulos do estilo, Denshattack! funciona em fases, tendo uma dezena de capítulos narrativos e vários episódios dentro deles: cada um é um mapa. Além disso, temos aqui o tradicional sistema de pontuação e outras funcionalidades que expandem não somente a lore do game, como também as possibilidades de abordagem.

Enquanto isso, sua história é contada por meio de visual novel e slideshows. O visual novel se trata basicamente de conversas entre os personagens e de algumas opções de diálogo, mas sem sistemas de decisões que mudam o destino das pessoas. Já o power point vem de cenas em capítulos de chefes ou de outros momentos chave da campanha.
Rapaz… é muita coisa, hein?
Indo direto ao ponto, Denshattack! é viciante. Seu gameplay é incrível e se mostra intuitivo desde o primeiro minuto, mesmo que descarregue informações em cima de você. Apesar do trem ser um meio de transporte enorme, todo o mundo do jogo é adaptado pro seu tamanho, dando a impressão de que tudo ali tá em seu devido lugar.
Durante os capítulos, você aprende a fazer manobras no ar, grinds, manuais e praticamente tudo que um skate consegue fazer em uma rampa. O mundo do game é um playground em larga escala e todos os mapas são cheios de oportunidades de pontuação, permitindo que você vá do começo ao fim com um único combo e da forma mais intuitiva possível.

Como se não bastasse, as missões são repletas de eventos dinâmicos. Coisas se destroem o tempo todo, chefes gigantescos aparecem do nada, Emi atravessa mapas e pode buzinar pra acionar atividades especiais… A riqueza de detalhes em Denshattack! é caprichada e prova que os desenvolvedores tavam atentos ao evitarem criar algo estático demais.
O Japão distópico é muito vivo nesse sentido. E também há caminhos alternativos com colecionáveis, permitindo que você revise as missões inúmeras vezes pra coletar sprays, engrenagens e documentos de lore, ganhar mais pontos, cumprir desafios com dificuldade gradativa ou simplesmente descobrir até onde os atalhos podem te levar.

Mas aqui temos o primeiro porém do jogo. A todo instante você é apresentado a mecânicas novas, mesmo nos capítulos finais da campanha. Isso chega a ser um problema grave pois você já tá saturado de comandos no mid-game, e praticamente os novos, que são muito interessantes até (como um sistema capaz de inverter a gravidade e de fazer correr de cabeça pra baixo), geram uma resistência absurda e um cansaço mental.
Isso se agrava muito pela quantidade de informações na tela. Reforço, mais uma vez, a intuitividade do jogo, mas a alta velocidade das pistas, a quantidade de elementos visuais que indicam perigo, drifts ou outras ações, e as chances de perder bons combos depois de uma batida, deixam tudo bem frustrante após algumas horas de gameplay.
Um jogo que tenta ajudar
Apesar dos pesares, Denshattack! faz de tudo pra tornar essa jornada menos complicada. De início, temos acesso a um Manobrário, que nada mais nada menos é do que um glossário com todas as manobras possíveis.
Elas são realizadas por meio do analógico do controle e consistem em níveis básicos, intermediários e avançados. Logicamente, quanto maior a complexidade da manobra, mais difícil de realizar seu comando, mas maiores serão os pontos ganhos. Além disso, o jogo é repleto de efeitos visuais: um brilho ao redor do trem indica qual o grau de dificuldade da manobra realizada.

Outro ponto são as ícones visuais. Você é capaz de correr cada pista olhando apenas pro seu trem, pois o game te dá indícios do que fazer (e do que pode comprometer seu combo). Por exemplo, ícones vermelhos mostram perigo e indicam o momento de se esquivar de algo ou de saltar; outros dizem o momento certo de realizar uma curva com drift e ganhar pontos adicionais.
Lá na frente, quando você ativa o comando de teleférico, os elementos de interface mostram quando você deve saltar de uma fiação pra outra. Também temos um drift com as duas rodas, que permite abrir portões fechados sem perder a alta velocidade que você conquistou até o momento (e rendendo um multiplicador muito bom de pontuação).

Nesse sentido, Denshattack! te guia muito bem. Você não se sente perdido de forma alguma, mas certamente vai precisar dar um tempo pros seus olhos e pros seus dedos, pois as coisas são frenéticas.
Tempo, pontos e desafios
Denshattack! também possui um sistema de recompensas baseado em medalhas. Aqui é bem simples mesmo: completar as pistas em um certo tempo e com uma certa quantidade de pontos rende medalhas de ouro. Já cumprir desafios, que são diferentes pra cada pista, como buzinar em momentos certos, realizar manobras, encontrar segredos e mais, garantem a última medalha (são três por pista).
Outro ponto são os tipos de missões. Você vai encontrar eventos contra o tempo, eventos de atingir um mínimo de pontos, corridas pra chegar em primeiro colocado e descarrilhar outros trens, trechos mais longos com várias missões pra ser completadas dentro de um intervalo maior… E óbvio, lutas contra chefes.

Esses combates são muito, mas muito divertidos. Ao fim de cada capítulo, você continua nas pistas fazendo manobras e tudo mais, mas precisando derrotar o chefão. Eles são bem diferentes entre si e adicionam muita dinâmica ao jogo, deixando tudo cinematográfico mas sem perder o ar de desafio, ou seja, sem ser scriptado.
Eles trazem referências aos kaiju e até mesmo ao Guitar Hero, com um combate musical iradíssimo mesmo e visualmente impressionante. Curti demais esses combates.
Denshattack! vicia, então tome cuidado com o coração
O saldo deixado por Denshattack! foi positivo. O jogo tem um bom tempo de campanha, apesar da história ser boba e se estender desnecessariamente. Enquanto isso, seu gameplay é muito dinâmico e variado, permitindo que os jogadores joguem da sua maneira.
Há ótimas batalhas contra chefes e um sistema de mundo que enriquece tudo a sua volta. O título também tem um sistema de personalização que você não apenas edita cores e adesivos dos trens, como também compra novos e aproveita suas vantagens, mas tendo em mente que, em consequência, cada trem novo também tem uma desvantagem. Estratégico, nesse sentido.

Infelizmente, a quantidade de informações e de mecânicas prejudica, principalmente no late game. Quando você acha que já aprendeu tudo, o jogo vai lá e te ensina coisas ainda mais complexas. E mesmo guiando nesse caminho, estamos falando sobre humanos, certo? Então vemos uma capacidade limitada de compreender comandos e de gerar resistência a novos que aparecem.
Vale a pena demais se você tá buscando algo descompromissado. Uma experiência bem diferentona, atraente e boa de jogar; um título ousado e cheio de personalidade que traz uma renovação interessante envolvendo esse mundo dos esportes underground.
Muito versátil e impiedoso, Denshattack! é uma desafiadora aventura em alta velocidade que vai colocar à prova todos os seus reflexos... Mesmo os que você não tem.
Pontos positivos
- Jogabilidade extremamente intuitiva
- Design de níveis é excelente
- Grande quantidade de conteúdos
- Dezenas de mapas muito diferentes entre si
- Batalhas contra chefes são muito daora
Pontos negativos
- Altíssima curva de aprendizagem no late-game
- Trilha sonora fraca e repetitiva
- História e personagens completamente dispensáveis
- História
- Jogabilidade
- Desempenho
- Som
- Gráficos