Dentre as diversas subfranquias envolvendo a trupe do Mario, a franquia Yoshi talvez seja uma das mais inconsistentes, tanto em termos de formato, quanto qualidade. Enquanto existem jogos de plataformas ótimos, como o clássico Yoshi’s Island do SNES, existem também aqueles que deixam um pouco a desejar, como Yoshi’s Crafted World do Switch. O formato também varia muito, já que existem títulos do Yoshi que abandonam totalmente os elementos de plataforma em prol de um gameplay inteiramente focado em puzzle. Yoshi and the Mysterious Book chega no Switch 2 com a proposta de mesclar esses dois estilos de jogo.
É preciso reforçar também que outro aspecto muito intrínseco aos títulos mais recentes de Yoshi está no fato de serem jogos geralmente voltados para crianças. Esse aspecto, inclusive, acaba influenciando na qualidade final do game, já que eles muitas vezes eles costumam ser desprovidos de desafio — o que pode resultar em uma experiência mais tediosa para gamers mais veteranos.
Embora Yoshi and the Mysterious Book claramente continue com esse papel de ser um jogo bastante acessível também para os pequenos — chegando ao extremo ao eliminar totalmente o sistema de vidas —, sua abordagem única e o modo como ele mescla elementos de plataforma e mecânicas de puzzle me surpreendeu enormemente. É um jogo que eu comecei com uma certa apreensão, e terminei curtindo muito mesmo, mas… será que ele é para todo mundo?

Não julgue o livro pela capa
Começando pelo aspecto que possivelmente vai ser o maior ponto de contenda em relação à Yoshi and the Mysterious Book: esse é, de fato, um jogo com um forte apelo infantil. Dos gráficos estilizados que lembram um estilo todo rabiscado à lápis, ao gameplay desprovido de grandes obstáculos, Mysterious Book certamente tem tudo para encantar os pequenos. Não obstante, é um jogo que facilmente pode entreter pessoas mais velhas e gamers mais “hardcore” também.
Isso acontece, pois, embora Yoshi and the Mysterious Book não apresente obstáculos convencionais típicos do gênero de plataforma 2D, ele cria outros tipos de desafios de uma maneira muito única. Em outras palavras, ao jogar cada uma das fases de Mysterious Book, você não vai encontrar uma progressão típica de jogos de plataformas. Inimigos não podem te ferir. Buracos no chão não podem te matar. Não existe sequer um objetivo final claro em nenhuma das fases.

Ao invés de ser um jogo onde você deve utilizar as mecânicas de plataforma para ir da esquerda para à direita, até eventualmente chegar no “final da fase”, cada um dos níveis de Mysterious Book se apresenta como um pequeno mapa sidescrolling com uma forte pegada “sandbox”, totalmente baseado nas mecânicas e interações possíveis de se realizar com cada uma das dezenas de criaturas presentes no jogo.
Em outras palavras, Mysterious Book utiliza o estilo e movimentações de um jogo de plataforma para construir uma experiência bastante interativa, com um forte aspecto de puzzle. O objetivo principal em cada uma das fases passa então a ser a descoberta. Você precisa interagir com as criaturas das mais diversas maneiras possíveis, testando para descobrir quais são as suas características únicas e mecânicas especiais. E, de verdade, essa é uma ideia verdadeiramente espetacular.

Yoshi, o biólogo?
Em termos de narrativa, Yoshi and the Mysterious Book segue a pegada de outros jogos de plataforma da Nintendo de apresentar uma história bastante simples, que basicamente serve de plano de fundo para a apresentação de cada uma das dezenas de fases únicas presentes no jogo. Dessa vez, o jogo centra-se no titular livro misterioso, uma criatura mágica chamada N. Igma, que contém dentro de si uma série de criaturas únicas e misteriosas.
Após ser “raptado” por Bowser Jr., o livro misterioso vai parar na Ilha do Yoshi, e cabe ao dinossaurinho e sua trupe entrar no livro para descobrir o que está acontecendo. Durante esse processo, Yoshi precisa visitar diferentes biomas, como florestas, praias e montanhas, cada um com uma seleção única de criaturas estranhas e especiais.

Essa basicamente forma a estrutura básica do jogo, onde cada bioma se constitui como um capítulo único, e cada criatura apresenta uma fase diferente. Ao “pesquisar” a respeito de cada uma dessas criaturas, Yoshi passa a ajudar o livro N. Igma a preencher suas páginas, incluindo as diversas informações e interações únicas que cada uma das criaturas oferece.
Ainda nesse aspecto narrativo, vale destacar o fato de Yoshi and the Mysterious Book estar inteiramente localizado em Português do Brasil — o que é outro excelente aspecto nessa proposta de um jogo com apelo para todas as idades. Essa localização, inclusive, apresenta uma qualidade ímpar, já que tanto as descrições dos puzzles, momentos de diálogo com o livro N. Igma, e até mesmo o nome das criaturas está inteiramente adaptado para nossa língua, com trocadilhos divertidos e adaptações muito bem feitas.

Cada criatura, um puzzle a ser descoberto
A melhor coisa de Yoshi and the Mysterious Book está justamente em quão único ele é. Em termos de gameplay puro, é quase como se o jogo apresentasse uma (ou mais) mecânica única em cada uma das mais de 60 fases presentes no jogo. Isso se dá justamente devido ao modo como o jogo brinca com a ideia das diferentes criaturas, e os modos como cada uma delas oferece interações distintas.
De início, essas interações costumam ser bastante simples. O Yoshi consegue engolir a criatura e transformá-la em um ovo? Ele consegue pegar a criatura e carregá-la nas suas costas? Ao fazê-lo, a criatura oferece algum tipo de mecânica ou característica especial? O jeito como cada uma das criaturas responde a essas perguntas de maneira inteiramente diferente é o que torna a experiência do jogo divertida e criatura do começo ao fim.

Criaturas diferentes também oferecerão interações diferentes umas com as outras. Jogue um inimigo no outro, e você poderá vê-los brigando, interagindo, ou até mesmo se mesclando de maneiras curiosas. Cada uma dessas interações, inclusive, formam uma “marca” no livro, oferecendo estrelas que são utilizadas para desbloquear os biomas mais avançados.
Com base nessa ideia das mecânicas e interações, Yoshi and the Mysterious Book apresenta um tipo diferente de dificuldade, já que muitas vezes você precisa ser criativo para descobrir o que você realmente precisa fazer para finalizar aquela determinada fase. Além disso, o jogo não mede esforços em apresentar ideias novas a cada fase. Muitas vezes, você vai encontrar uma mecânica absurda, que poderia sozinha render um jogo independente todo, por exemplo. Porém o jogo vai explorá-la em uma, duas ou três fases, e depois introduzirá outra mecânica tão divertida e única quanto.

Um livro bonito de se ver
Para entregar toda essa experiência divertidíssima de puzzle e plataforma, Yoshi and the Mysterious Book mescla estilos gráficos distintos de uma maneira surpreendente. Quando Yoshi está fora do livro misterioso, conversando com N. Igma e folheando as páginas do compêndio, o jogo apresenta um estilo 3D mais típico dos jogos da franquia Super Mario.
Todavia, a coisa toda fica muito mais interessante em termos visuais quando Yoshi adentra-se em cada uma das páginas do livro. Ao visitar cada uma das criaturas e biomas presentes do livro, Yoshi passa a fazer parte de um ambiente lindamente renderizado com um estilo que lembra desenhos de extrema qualidade, inteiramente feitos com lápis de cor.

Essa abordagem única nos visuais também está presente nas animações e interações presentes em cada fase, já que todos os personagens são animados em um estilo stop motion, com frames “pulando” propositalmente para dar a impressão de uma animação de modelos feitos à mão. Tudo isso é acompanhado por uma trilha sonora divertida, que faz um bom trabalho para pontuar os diferentes ambientes e biomas.
Em termos de performance, o jogo roda a 60 frames por segundo tanto no modo portátil quanto no modo TV, e apresenta gráficos bastante bonitos, que brilham muito na tela grande. Curiosamente, esse é o primeiro jogo desenvolvido pela Nintendo a utilizar a Unreal 5, e existem pequenos detalhes que mostram algumas possíveis limitações da engine: o jogo apresenta uma resolução dinâmica, que pode ficar um pouco borrada no modo portátil, em segmentos muito específicos. Nada que atrapalhe a experiência final, mas é um detalhe que poderia ser melhorado em patches.

Review de Yoshi and the Mysterious Book — um plataforma único para todas as idades
No final das contas, Yoshi and the Mysterious Book oferece uma experiência diferente do convencional, mas que pode ser apaixonante para aqueles que derem uma chance às suas ideias únicas. Ao invés de focar-se em elementos de plataforma 2D convencional, o jogo constrói uma experiência muito baseada em puzzle, onde a criatividade e curiosidade é recompensada.
Com uma campanha que dura cerca de 10 horas, mas que pode ser expandida enormemente caso você tente completar todos os objetivos em cada fase, Yoshi and the Mysterious Book se configura como um dos exclusivos mais especiais do Switch 2. Certamente, é um jogo que pode não agradar todo mundo, já que ele é muito diferente do convencional, mas ele tem qualidades em aspectos muito distintos e especiais.

Caso você tenha uma criança pequena, Yoshi and the Mysterious Book é uma ótima opção de jogo com um forte apelo infantil. Porém, diferente de outros jogos para crianças que se tornam muito infantis ou muito fáceis, Yoshi and the Mysterious Book oferece qualidades e mecânicas capazes de agradar pessoas de todas as idades. É um jogo muito bom, dentro da sua proposta única.
PS: A análise foi feita em um Nintendo Switch 2 através de uma cópia cedida pela Nintendo.
Yoshi and the Mysterious Book joga fora convenções normais de jogos de plataforma 3D em prol de uma experiência focada em puzzles e a sua curiosidade. É um jogo com forte apelo infantil, mas que funciona bem para todas as idades graças à maneira como ele apresenta mecâncias únicas e criativas a cada nova fase.
Pontos positivos
- Direção de arte única e bela
- Mecânicas criativas a cada nova fase
- Pode agradar todas as idades
- Ótima localização
Pontos negativos
- Ausência de desafios convencionais
- Resolução dinâmica atrapalha o modo portátil
- Narrativa
- Jogabilidade
- Desempenho
- Direção de arte
- Trilha sonora
