Quando você inicia um jogo da Supermassive Games, já sabe exatamente o que esperar: personagens marcantes, outros nem tanto, aquele protagonista que rouba a cena mesmo aparecendo por poucos minutos e obviamente, escolhas decisivas capazes de mudar completamente o rumo da história. Em Directive 8020, isso não é diferente, seguindo a fórmula da franquia The Dark Pictures Anthology e The Quarry.
No entanto, Directive 8020 traz um elemento diferenciado que consegue renovar aquilo que já estava ficando batido. Pela primeira vez, a desenvolvedora trouxe mecânicas de stealth durante a gameplay, deixando a exploração mais tensa e mostrando que esse tipo de abordagem se tornará essencial nos próximos títulos do estúdio. Mesmo com uma narrativa fraca, essa novidade consegue elevar a experiência e surpreender de maneira positiva.
Mas afinal, Directive 8020 realmente entrega uma experiência memorável? O novo terror sci-fi da Supermassive Games consegue se tornar o melhor título recente do estúdio? É isso que você irá descobrir em nossa análise!
Ameaça a bordo!
Se tem algo que aprendemos ao jogar qualquer título da Supermassive Games, é que nunca devemos confiar totalmente em ninguém. Em Directive 8020, essa regra não seria diferente!
A trama leva os jogadores para uma jornada sci-fi intergaláctica em um futuro onde a Terra está entrando em colapso e morrendo aos poucos. Sem alternativas para salvar a humanidade, o planeta Tau Ceti f surge como uma última esperança de sobrevivência. Ao chegar ao local, acompanhamos um grupo de tripulantes que rapidamente percebe que não está sozinho no espaço.
Tudo isso muda quando a nave Cassiopeia sofre um ataque e acaba caindo no planeta, dando início a uma sequência de eventos bizarros com alterações na estrutura da nave. Aos poucos, a tripulação descobre que clones estão se infiltrando entre os sobreviventes, enquanto uma misteriosa substância alienígena começa a transformar os corpos humanos em criaturas grotescas.
Com isso, é possível esperar mutações alienígenas, criaturas bizarras e até mesmo clones que se identificarão como personagens para causar dúvidas no jogador, e gerar a pergunta se realmente aquela pessoa é o tripulante real ou não.

Com o passar do tempo, a tripulação começa a detectar falhas na estrutura da nave, causando falta de oxigênio, explosões e desaparecimentos misteriosos pela tubulação.
Por se tratar de uma experiência narrativa, Directive 8020 entrega um bom elenco de personagens, com alguns realmente carismáticos e memoráveis, enquanto outros parecem existir apenas para cumprir o papel do integrante bobo que não sobreviveria por muito tempo em uma situação extrema. No fim, a estrutura narrativa segue o clássico modelo já conhecido pelos fãs da Supermassive Games, apostando em clichês do terror que a desenvolvedora utiliza há anos.
Ainda assim, existe um diferencial importante que Directive consegue entregar. Como mencionado anteriormente, o game adiciona uma camada muito maior de tensão ao apostar em uma gameplay mais interativa, oferecendo maior controle sobre os personagens durante a exploração.
Ao contrário dos títulos anteriores do estúdio, onde as mecânicas geralmente se resumiam a fugir de inimigos ou escolher rapidamente um esconderijo, aqui os jogadores podem explorar os cenários com mais liberdade, utilizar o ambiente para escapar dos inimigos, abrir portas manualmente durante perseguições, interagir com outros personagens via mensagens e se esconder em tubulações.

O jogo também apresenta uma mecânica inédita chamada Turning Points (Pontos de Virada), permitindo que os jogadores retornem a momentos importantes da campanha para refazer escolhas e alterar acontecimentos específicos da narrativa, como voltar a um capítulo anterior para salvar determinado personagem após uma decisão errada.
À primeira vista, isso pode parecer uma adição que reduz boa parte do peso das escolhas, especialmente por se tratar de um jogo focado justamente nas consequências das decisões do jogador. No entanto, a funcionalidade acaba funcionando mais como uma opção de acessibilidade e liberdade para diversos estilos de gameplay.
Além disso, Directive também oferece níveis de dificuldade que desativam completamente essa mecânica, obrigando os jogadores a lidarem com todas as consequências de suas ações sem a possibilidade de voltar atrás. Dessa forma, quem prefere uma experiência mais “tradicional”, no estilo clássico da The Dark Pictures Anthology, ainda poderá aproveitar a campanha sem mudanças na fórmula original.
O maior problema de Directive 8020
Se tem algo que a Supermassive Games sabe fazer é entregar um jogo no qual todas as suas escolhas acabam impactando para a sobrevivência do personagem… e talvez isso também possa ser um grande problema. Mesmo que nos primeiros minutos do jogo, o jogador saiba que tem algo errado, a história demora para se desenvolver, criando um verdadeiro vínculo com o jogador apenas na metade do game (capítulo 4).
A narrativa também apresenta algumas inconsistências ao longo da campanha e, apesar de contar com nomes conhecidos da indústria cinematográfica, como Lashana Lynch, conhecida por trabalhos em 007: Sem Tempo para Morrer e Bob Marley: One Love, existem momentos em que a história perde força e acaba desanimando o jogador.

Em diversos trechos, o roteiro não consegue sustentar o mesmo nível de tensão por muito tempo, fazendo com que alguns acontecimentos pareçam apressados ou pouco desenvolvidos. A fórmula do clichê não parece funcionar aqui até porque o plot acaba sendo extremamente previsível e sem graça.
Para não me aprofundar na história e evitar spoilers acidentais nesta análise, não vou entrar em detalhes sobre os principais acontecimentos da trama, mas existe um momento específico em que o grande plot do jogo finalmente é revelado e dá a entender que os protagonistas sequer ficaram “preocupados”.
A reação dos personagens diante da descoberta é superficial, quase sem transmitir o desespero que uma situação daquela deveria causar. Embora Directive 8020 tente manter uma atmosfera de tensão e desconforto psicológico, grande parte dessas emoções não funcion como deveria. Alguns trechos passam a impressão de que os personagens simplesmente aceitam tudo rápido demais, tornando o impacto dramático do jogo bem fraco.
Nem tudo é tão estranho
Mas nem tudo está perdido aqui… Com a introdução das novas mecânicas de stealth e uma exploração mais livre dos cenários, Directive 8020 parece funcionar como um verdadeiro experimento o futuro da Supermassive Games. A novidade mostra um caminho promissor para os próximos projetos, adicionando uma camada extra de tensão que vai muito além do tradicional sistema de escolhas narrativas.
Além de deixar a experiência mais sinistra, essa abordagem aumenta a imersão do jogador explorando ambientes, buscando rotas de fuga e se escondendo das ameaças, sem depender exclusivamente das decisões de ficar pressionando botões aleatórios.
Outro ponto interessante é a enorme evolução no trabalho de facial capture (trabalho de captura facial) e sincronização labial (lip sync) dos personagens. As expressões faciais estão muito mais naturais e detalhadas, enquanto o lip sync acompanha perfeitamente os diálogos com uma qualidade assustadora, o que mostra que Directive vai muito além de um jogo interativo.

Seguindo o padrão que já conhecemos da franquia The Dark Pictures Anthology, Directive 8020 consegue entregar cenas extremamente cinematográficas sem comprometer o ritmo da narrativa ou a qualidade visual ao longo da campanha. Em suma, quanto mais a história avança, mais o jogo impressiona tecnicamente. Uma verdadeira obra de arte nesse aspecto!
Aspectos técnicos
Como mencionado anteriormente, Directive 8020 impressiona quando o assunto é qualidade técnica e visual. O trabalho de sincronização labial e captura facial alcança um nível extremamente elevado, entregando expressões realistas e animações cinematográficas que facilmente se tornaram as melhores já produzidas pela Supermassive Games, e talvez até desta geração dentro do gênero de filme/jogo interativo.
Embora a narrativa não consiga manter o mesmo nível de qualidade durante toda a campanha, o jogo acerta em cheio na construção da atmosfera sci-fi. A sensação de estar preso em uma nave tomada por inimigos, cercada por ameaças desconhecidas e problemas bizarros, funciona muito bem e contribui para deixar a experiência mais tensa.

Visualmente, Directive 8020 entrega cenários extremamente detalhados, ótima iluminação e efeitos que mostram constantemente o clima sombrio. Além disso, o título também disponibiliza diferentes modos gráficos para os jogadores ajustarem a experiência, sendo eles:
- Qualidade – atinge 30 FPS em uma resolução mais alta;
- Equilibrada – atinge 40 FPS em uma resolução que foca na qualidade e desempenho;
- Desempenho – atinge 60 FPS perdendo um pouco de resolução e focando no desempenho.
A trilha sonora de Directive 8020 também merece destaque e ajuda bastante na construção da atmosfera sombria do jogo. Em diversos momentos, principalmente no final de alguns capítulos, somos surpreendidos por músicas licenciadas que aumentam a imersão no game.
Para aproveitar toda a tensão, o ideal é jogar utilizando um headset ou um bom soundbar, já que o áudio, trilha sonora e efeitos sonoros trabalham muito bem com sons ambientes, passos de stalkers e perseguições. Cada detalhe sonoro contribui para deixar o jogo ainda mais imersivo e desconfortável.
Tudo funciona de maneira perfeita, desde o áudio até a direção de arte e a paleta de cores utilizada nos cenários. Com uma campanha que gira em torno de 8 a 10 horas de duração, Directive consegue entregar uma experiência sci-fi sombria e angustiante, marcada por excelentes aspectos visuais e sonoros que ajudam a sustentar toda a atmosfera do jogo.

O jogo sofreu com pequenos engasgos em determinados momentos, além de dois crashes ao longo da minha jogatina. Ainda assim, é importante ressaltar que a versão testada era anterior à atualização de lançamento (day one patch), algo que pode resultar em problemas técnicos desse tipo antes da versão final chegar aos jogadores.
Review de Directive 8020 – Vale a Pena?
Directive 8020 introduz mecânicas inéditas dentro da fórmula da Supermassive Games que realmente fazem diferença durante a gameplay, principalmente com a adição do stealth e da exploração dos cenários. Essas novidades conseguem trazer mais tensão e aumentar significativamente a imersão, mostrando uma evolução importante para o gênero de jogos interativos do estúdio.
Infelizmente, o mesmo não pode ser dito da história. Apesar da ambientação sci-fi sombria e do clima de tensão, a história acaba utilizando os clichês já conhecidos do terror espacial e de filmes clássicos dos anos 90, deixando soluções previsíveis e personagens que raramente conseguem fugir do “básico”.
Mesmo entregando momentos tensos e visualmente impressionantes, é difícil recomendar o jogo em seu preço cheio. Embora as novas mecânicas tragam adições interessantes para a fórmula interativa, o roteiro não consegue sustentar por muito tempo, tornando a campanha pouco memorável.
No geral, 8020 é um passo importante de evolução para a franquia em termos de gameplay e parte técnica, mas ainda falha em entregar uma narrativa realmente marcante. Minha recomendação é comprar o jogo em uma promoção nos consoles ou no PC.
Directive 8020 consegue trazer novidades interessantes para o gênero de jogos interativos ao introduzir novas possibilidades de escolha, mecânicas de stealth e sistemas que permitem revisitar decisões importantes da campanha. Apesar dessas evoluções na gameplay, o título acaba falhando em entregar uma experiência realmente imersiva devido a uma narrativa fraca, previsível e pouco memorável ao longo da jornada.
Pontos Positivos
- Implementação da mecânica de Stealth
- Trilha Sonora/Efeitos Sonoros marcantes
- Adição do sistema de Pontos de Virada
Pontos Negativos
- Narrativa pouco marcante
- Problemas de desempenho
- História
- Jogabilidade
- Aspectos técnicos
- Desempenho
