Pela liberdade criativa e por muitos outros motivos que gosto muito de jogos indie, especialmente quando estão nesse espectro do terror e têm uma aposta mais visual. Por mais simples que eles sejam, tanto em termos de mecânicas quanto de densidade, têm uma facilidade absurda não só pra impressionar, mas pra nos fazer pertencer àquele mundo.
Fui com poucas expectativas pra Necrophosis: Full Consciousness, assumo, mas me surpreendi a cada segundo. Com uma fortíssima abordagem artística, o game dá uma verdadeira aula sobre introdução de mundo, mostrando como uma lore pode se conectar muito bem a uma história bem complexa e a mitos que conhecemos muito bem.
Apesar de se parecer muito com um walking simulator, o jogo traz uma estrutura bem pensada pros quebra-cabeças, onde você não sofre pressão de tempo ou de outras ameaças. Mas a ideia aqui é ir um pouco além disso ao provar como uma pequena equipe tem a consciência do que quer propor, com uma ambição mais mascarada por meio de vários outros elementos.
Necrophosis nem de longe é um jogo perfeito. Lançado pra PC há um tempo, o jogo chega aos consoles em sua melhor versão, com interface otimizada e gráficos claramente aprimorados e mais detalhados. E, como os visuais literalmente importam muito e se comunicam bem, essas mudanças foram muito mais do que bem-vindas.
Platinei o jogo em pouco mais de 3h (sim, é uma experiência bastante curta), mas gostei do ritmo e dos desafios. Assim, tenho umas coisas pra te contar. Vamos nessa então.
O apocalipse incomum
Em um cenário de fim dos tempos, um ser em decomposição acorda num universo muito antigo. De repente, uma máquina ancestral coloca um cérebro na criatura, e tudo passa a ser visto por meio de alguém que não sabe se já chegou a ser uma pessoa.
Montado e quase reciclado, o decomposto desperta onde vida e morte perderam significado há muito tempo. A Necrofose, uma maldição que tomou conta do mundo, passa a impor a decadência até mesmo a deuses que já foram venerados em outros tempos, e tudo ali é apenas uma personificação de uma glória trocada pela deterioração.

Perdido, o ser, chamado de Consciência por outros que ainda vagam pelos restos das civilizações, deve caminhar em direção ao desconhecido, realizando feitos marcados pela tragédia e por uma crueldade que nem mesmo a morte é incapaz de explicar.
Necrophosis é um jogo de terror em primeira pessoa com grande foco nos aspectos visuais. Com uma campanha curta de apenas 2h a 3h, o game funciona mais como uma amostra artística do que como um jogo em si, oferecendo pouca exigência mesmo pra quem não entende muito de videogames.

Com um estilo inspirado nos projetos de H. R. Giger, como o terror biomecânico de Alien, e de Zdzisław Beksiński, com suas pinturas extremamente sombrias e surreais, o jogo é quase um walking simulator dividido em capítulos narrativos, mas levando em conta que suas mecânicas são mais ricas que as de Dear Esther, por exemplo.
Ao longo da campanha, você precisa explorar reinos bizarros, interagir com seres muito esquisitos, coletar alguns documentos de lore e completar quebra-cabeças ambientais, tudo com o propósito de adquirir conhecimento. Sim, isso mesmo.

E, dentro desse cenário, Necrophosis consegue quebrar a quarta parede muito bem, pois, tratando o jogador como a própria consciência e alguém curioso por natureza, ele joga informações que devem ser costuradas, muitas vezes, de forma independente. Há muitas, mas muitas inspirações na filosofia e na religião, algo que torna a experiência de jogo mais subjetiva do que inicialmente propõe.
Body horror e referências
Necrophosis, como o próprio nome já sugere, investe muito na ideia de terror corporal. O jogo não possui jumpscares ou coisas do tipo, mas incomoda muito em termos visuais por meio de designs sombrios e de eventos pra lá de nojentos.
Aqui, temos mais uma referência: Scorn. Quem jogou o game atmosférico da Ebb Software vai curtir muito o universo de Necrophosis. A engenharia corporal tá forte no jogo, mas forte mesmo, com todas as criaturas e elementos não naturais, como prédios e estruturas menores, sendo quase um híbrido entre o orgânico e o inorgânico.

Pode se preparar pra interagir com muitos ossos, incluindo caveiras e medulas à la Mortal Kombat, com seres regurgitados, vagantes sem consciência e tudo mais. E o que mais impressiona é como esses elementos conversam muito bem com o universo em ruínas.
Interagir com alguns NPCs também adiciona uma mitologia muito bem feita a Necrophosis. Cheia de detalhes, a história é contada por seres que vivem, com aspas, há bastante tempo ali, e não só viram o passar do tempo, como também inúmeras tentativas fracassadas daquele universo se reerguer.

Assim, eles acumularam muito aprendizado e te passam o que ainda lembram e sentem. Diálogos cheios de profundidade, contos sem pé nem cabeça, referências à literatura clássica, como o Mito de Ozymandias, e muito mais. O jogo exibe um grau de estudo profundo por trás dos desenvolvedores, pois, de cara, é fácil subestimar tudo que aparece por ali.
De fato, é uma experiência impressionante nesse sentido. E, como se não bastasse, há a ideia de tratar o mundo como um organismo que respira por aparelhos, literalmente. Os cenários, apesar de pequenos, são muito dinâmicos, e você pode passar muito tempo caminhando por eles enquanto vê a degradação.

Órgãos ainda pulsando, criaturas caminhando sem direção, ídolos sendo venerados, caveiras vivas… Necrophosis poderia ser facilmente uma baita pintura, mas com um grau de complexidade que raríssimos artistas, em toda a história da Terra, foram capazes de transmitir.
Jogabilidade acessível e excessivamente simples
A estrutura de jogabilidade de Necrophosis é quase inteiramente baseada em quebra-cabeças. No jogo, você deve coletar inúmeros itens e entender de que forma eles vão te ajudar a avançar.
Basicamente, é preciso se atentar bem ao que os NPCs pedem, pois eles não repetem as frases. Enquanto isso, há uma proposta de pombo-correio, onde um item deve passar por duas ou mais interações até que chegue ao seu destino final.

Felizmente, não há pressa pra que os puzzles se completem. Necrophosis não oferece pressão de inimigos, apesar de você poder morrer em alguns momentos, e muito menos de tempo. O inventário é de simples compreensão e gerenciamento, enquanto objetos que se relacionam à ordem destacam bem símbolos e outros aspectos de interesse.
Nesse sentido, o maior desafio fica por conta do troféu de platina. Sem reprise de capítulos, o jogo tem vários eventos perdíveis, com lugares ficando inacessíveis caso você conclua os requisitos principais. Então, vale a pena explorar bem se você quiser ter esses 100% em sua conta.

Porém, não há dificuldade aqui. As estruturas destacam silhuetas que sugerem quais itens devem ser utilizados ali, enquanto o direcionamento orgânico do jogo, que não envolve pontos no mapa ou descrição dos objetos, é bastante intuitivo, principalmente pelo jogo ter menus e textos localizados em português do Brasil.
Uma viagem pelo universo do surrealismo
Necrophosis é um passeio surrealista, não há como definir melhor. Além de investir no horror corporal à la Cronenberg, ele busca apavorar os jogadores por meio de megaestruturas e da claustrofobia.
Enquanto Scorn é mais fechado no sentido de mapas, o game, criado por apenas duas pessoas, parte pra áreas mais abertas, onde é possível observar coisas com um impressionante senso de profundidade. Os mapas passam uma sensação absurda de completude, tornando praticamente incapaz a observação de vácuos ou de assets incompletos.

A exploração da megalofobia também surpreende. Apesar da distância de campo, algumas estruturas são tão grandes, mas tão grandes, que parecem estar te encarando muito de perto. E seus designs bizarros, que destacam especialmente o vazio (de olhos, de boca, de entradas e tudo mais), tornam alguns momentos bem tensos.
É excelente como o jogo te torna insignificante. Mesmo com o protagonista sendo a Consciência, a ideia de ignorância e de nada, ou seja, do niilismo, são fortes aqui, e você sente que tá engatinhando naquele mundo, sofrendo uma vulnerabilidade absurda mesmo diante de eventos mais seguros e acolhedores, se é que isso existe na prática.

Como se não bastasse, o sistema de som é bastante imersivo, enquanto os efeitos de partícula, especialmente os de vento e decomposição, são absurdos. Os gráficos não são nada revolucionários ou de última geração, mas claramente a proposta de Necrophosis é mostrar algo mais autoral.
Em relação à performance, o jogo roda a 30 FPS no PS5 com um modo gráfico único, mas tem algumas quedas em momentos específicos da campanha. Fora isso, não há demora no tempo de carregamento, e tudo flui muito bem durante as horas gastas.
Necrophosis é uma experiência indie raramente vista
Quase um museu jogável, Necrophosis é uma experiência simples na jogabilidade, mas complexa em termos visuais e de história. Seu estilo artístico é absurdamente caprichado, enquanto a imersão na narrativa ocorre desde o primeiro segundo, com discussões relevantes sobre valores humanos e sobre a própria criação.
Não há como negar que o jogo é um walking simulator. Mesmo com os quebra-cabeças recorrentes e até mesmo desafiadores em certo grau, seu propósito é caminhar por reinos, interagir com NPCs e coletar itens, tudo de uma forma bem linear e com a impossibilidade de falha.
A otimização poderia ser melhor, e seria interessante ver o jogo a 60 FPS, ou quem sabe até mesmo como um jogo de terror em VR, mas as melhorias em relação à versão de PC são claras, principalmente quando falamos de aspectos técnicos. Porém, como o jogo é bastante curto, mesmo pra pegar os 100%, o tempo pra apreciar as qualidades não é tão generoso.
De toda forma, foi uma baita experiência. E experiência na literalidade da palavra mesmo. Temos aqui mais um projeto indie que prova, com todas as letras maiúsculas, que videogame é arte.
Artisticamente impressionante, Necrophosis deixa a desejar em quesito de jogabilidade, mas exibe um dos universos mais curiosos e estimulantes entre os games indie.
Pontos positivos
- Estética artística impressionante
- História muito intrigante
- Mecânicas acessíveis
- Ótimo sistema de som
- Melhorias consideráveis em relação à versão de PC
Pontos negativos
- Tempo curtíssimo de campanha
- Quedas ocasionais de FPS
- História
- Jogabilidade
- Desempenho
- Som
- Gráficos